Vertigem, rinossinusite e urticária: queixas recorrentes na urgência
Gabarito: letra E. A alternativa correta é a única que apresenta uma afirmação fisiopatologicamente precisa: na rinossinusite crônica, a perda de olfato (hiposmia/anosmia) é diretamente proporcional à gravidade do processo inflamatório, sendo ainda mais acentuada quando há polipose nasal associada. As demais alternativas distorcem a duração dos episódios de vertigem, invertem o papel das bactérias na rinossinusite e atribuem à ancilostomíase uma manifestação cutânea que não é a mais característica.
A questão aborda três grandes grupos de queixas frequentes em serviços de urgência e emergência: as vestibulopatias (vertigem e tontura), as rinossinusites e as manifestações cutâneas de parasitoses. Para acertar, é preciso dominar a duração típica dos episódios de cada tipo de vertigem, a etiopatogenia das rinossinusites aguda e crônica e as manifestações clínicas das helmintíases. Vamos a cada ponto.
Vertigem e sua duração como chave diagnóstica. A duração do episódio vertiginoso é um dos dados mais importantes da anamnese, pois orienta o diagnóstico diferencial. A vertigem posicional paroxística benigna (VPPB) é a causa mais comum de vertigem recorrente e se caracteriza por episódios muito curtos, tipicamente com duração de segundos a poucos minutos (raramente ultrapassando 1 minuto), desencadeados por mudanças de posição da cabeça. Já a enxaqueca vestibular (ou migrânea vestibular) cursa com episódios de vertigem que duram minutos a horas (tipicamente entre 5 minutos e 4 horas, podendo chegar a 72 horas). A doença de Ménière, por sua vez, apresenta crises de vertigem com duração de 20 minutos a 12 horas (em geral, horas). A neurite vestibular, um episódio único e prolongado, dura dias. Perceba como a duração é o critério que separa essas entidades — e é exatamente esse critério que as alternativas A e B invertem.
Rinossinusite: aguda × crônica e o papel das bactérias. A rinossinusite aguda é, na grande maioria dos casos, de etiologia viral (rinovírus, coronavírus, influenza, entre outros), sendo a superinfecção bacteriana uma complicação que ocorre em uma minoria dos casos (cerca de 0,5% a 2% das infecções virais). Quando há infecção bacteriana aguda, os agentes mais comuns são Streptococcus pneumoniae, Haemophilus influenzae e Moraxella catarrhalis — bactérias aeróbias ou facultativas, não anaeróbias. Na rinossinusite crônica, o papel das bactérias é mais complexo e envolve biofilmes bacterianos, mas os anaeróbios têm participação maior do que na forma aguda, não menor. A alternativa C inverte completamente essa lógica.
Perda de olfato na rinossinusite crônica. A perda de olfato (hiposmia ou anosmia) é um sintoma muito frequente na rinossinusite crônica, presente em até dois terços dos pacientes. Sua fisiopatologia está relacionada à inflamação crônica da mucosa olfatória, que leva a edema, obstrução do neuroepitélio olfatório e dano aos receptores. A gravidade da perda olfativa é proporcional à intensidade do processo inflamatório, e a presença de polipose nasal associada agrava ainda mais o quadro, pois os pólipos obstruem mecanicamente o fluxo de ar até a fenda olfatória e amplificam a resposta inflamatória local. É exatamente isso que a alternativa E afirma.
Urticária e ancilostomíase. A ancilostomíase (infecção por Ancylostoma duodenale ou Necator americanus) tem como manifestação cutânea mais característica a dermatite pruriginosa no local de penetração das larvas (popularmente conhecida como "coceira do solo" ou "larva migrans" quando causada por outras espécies). A urticária recorrente, embora possa ocorrer em algumas parasitoses, não é a manifestação cutânea mais comum da ancilostomíase. Além disso, a localização típica descrita na alternativa D (nádegas e punhos) não corresponde ao padrão clássico de apresentação. A manifestação mais comum da ancilostomíase é, na verdade, a anemia ferropriva decorrente do sangramento intestinal crônico causado pelos vermes adultos aderidos à mucosa duodenal.
A pegadinha central desta questão é a inversão da duração dos episódios de vertigem entre VPPB e enxaqueca vestibular, além da inversão do papel das bactérias na rinossinusite. Guarde bem esses números — eles são o critério decisivo que separa as alternativas.
Vestibulopatia | Duração típica do episódio | Característica-chave |
|---|
Vertigem posicional paroxística benigna (VPPB) | Segundos a < 1 minuto | Desencadeada por mudança de posição da cabeça |
Enxaqueca vestibular | Minutos a horas (5 min – 72 h) | Episódios recorrentes, frequentemente associados a cefaleia |
Doença de Ménière | 20 min a 12 horas | Crises com hipoacusia e zumbido |
Neurite vestibular | Dias (episódio único) | Vertigem prolongada, sem sintomas auditivos |
Alternativa A — ❌ Incorreta
A alternativa afirma que a vertigem posicional paroxística benigna (VPPB) causa episódios demorados, de 30 a 40 minutos. Isso está errado: a VPPB é caracterizada por episódios muito curtos, com duração de segundos a menos de 1 minuto (em geral, 15 a 60 segundos), desencadeados por mudanças de posição da cabeça. A duração de 30 a 40 minutos é mais compatível com crises de doença de Ménière (que duram de 20 minutos a 12 horas) ou com a enxaqueca vestibular (que dura de minutos a horas). A banca trocou a duração típica da VPPB pela de outra vestibulopatia.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A alternativa afirma que na enxaqueca vestibular a vertigem dura menos de um minuto. Isso está errado: a enxaqueca vestibular (ou migrânea vestibular) caracteriza-se por episódios de vertigem que duram de 5 minutos a 72 horas, sendo mais típico o padrão de minutos a horas (frequentemente entre 5 minutos e 4 horas). A duração inferior a um minuto é justamente o padrão da VPPB, não da enxaqueca vestibular. Novamente, a banca inverteu a duração típica entre as duas vestibulopatias.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A alternativa afirma que a rinossinusite aguda é causada, na maioria das vezes, por bactérias anaeróbias, e que essas bactérias têm papel pequeno na rinossinusite crônica. Isso está duplamente errado: (1) a rinossinusite aguda é, na grande maioria dos casos, de etiologia viral, e quando há infecção bacteriana, os agentes predominantes são aeróbios (Streptococcus pneumoniae, Haemophilus influenzae, Moraxella catarrhalis), não anaeróbios; (2) na rinossinusite crônica, os anaeróbios têm participação maior (embora o papel exato seja complexo, envolvendo biofilmes), não menor. A alternativa inverte completamente a etiopatogenia das duas formas da doença.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A alternativa afirma que urticária recorrente envolvendo nádegas e punhos é a manifestação cutânea mais comum da ancilostomíase. Isso está errado: a manifestação cutânea mais característica da ancilostomíase é a dermatite pruriginosa no local de penetração das larvas (geralmente nos pés, por contato com solo contaminado). A urticária não é a manifestação cutânea mais comum, e a localização descrita (nádegas e punhos) não corresponde ao padrão clássico. Além disso, a manifestação clínica mais marcante da ancilostomíase é a anemia ferropriva por sangramento intestinal crônico, e não a urticária.
Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A alternativa afirma que a perda de olfato na rinossinusite crônica está relacionada à gravidade da inflamação e é maior quando há polipose associada. Isso está correto: a hiposmia/anosmia é um sintoma frequente na rinossinusite crônica, e sua intensidade é proporcional à gravidade do processo inflamatório da mucosa olfatória. A presença de polipose nasal agrava a perda olfativa, pois os pólipos obstruem a fenda olfatória e amplificam a inflamação local. A alternativa descreve com precisão a fisiopatologia da perda olfativa nessa condição.
Conclusão: a única alternativa correta é a letra E, pois descreve corretamente a relação entre a gravidade da inflamação, a polipose nasal e a perda de olfato na rinossinusite crônica. As demais alternativas erram ao inverter a duração dos episódios de vertigem (A e B), ao inverter o papel das bactérias na rinossinusite (C) e ao atribuir à ancilostomíase uma manifestação cutânea que não é a mais comum (D).
Gabarito: letra E