Hepatites virais, insuficiência hepática e síndromes disabsortivas
Gabarito: letra E. A progressão da esteatose hepática não alcoólica (EHNA) para cirrose e insuficiência hepática é um fenômeno cada vez mais reconhecido, sendo a esteato-hepatite não alcoólica uma das principais causas de cirrose na atualidade. As demais alternativas apresentam erros conceituais sobre marcadores sorológicos da hepatite B, epidemiologia da hepatite D, idade de início da doença celíaca e monitoramento da hepatite C crônica.
A questão aborda três grandes temas da gastroenterologia: hepatites virais (A, B, C, D e E), insuficiência hepática (aguda e crônica) e síndromes disabsortivas (como a doença celíaca). Para resolvê-la, é essencial dominar os marcadores sorológicos das hepatites, a epidemiologia de cada vírus, o espectro clínico da doença celíaca e a história natural da esteatose hepática.
Hepatites virais e seus marcadores: Cada vírus hepatotrópico possui um perfil sorológico específico que permite diagnosticar a fase aguda, a fase crônica e a imunidade. Na hepatite B, o anti-HBc IgM é o marcador clássico de infecção aguda (título alto), enquanto o anti-HBc IgG indica exposição anterior (em indivíduos HBsAg negativos) ou hepatite crônica (em indivíduos HBsAg positivos). A alternativa A inverte essa lógica ao afirmar que o anti-HBc é predominantemente IgM em pacientes recuperados ou com infecção crônica — o correto é que, nesses cenários, predomina o anti-HBc IgG.
Hepatite D (delta): O vírus da hepatite D (HDV) é um vírus defectivo que depende do HBV para se replicar. A infecção pelo HDV ocorre apenas em pacientes com hepatite B (coinfecção ou superinfecção). Embora a hepatite D possa causar hepatopatia crônica grave, ela não é a causa de quase metade das hepatopatias crônicas nem a indicação mais frequente para transplante de fígado. As principais causas de cirrose e insuficiência hepática são a hepatite C, a doença hepática alcoólica e a esteato-hepatite não alcoólica.
Doença celíaca: A doença celíaca é uma enteropatia autoimune desencadeada pela ingestão de glúten em indivíduos geneticamente predispostos. Embora seja mais frequentemente diagnosticada na infância, pode se manifestar em qualquer idade, incluindo adultos. O início dos sintomas não ocorre invariavelmente durante a infância, nem quase sempre no primeiro ano de vida. Muitos pacientes apresentam formas oligossintomáticas ou assintomáticas e são diagnosticados apenas na vida adulta.
Hepatite C crônica: O tratamento antiviral da hepatite C crônica com antivirais de ação direta (DAA) é altamente eficaz, alcançando taxas de cura superiores a 95%. O monitoramento da resposta ao tratamento é feito pela dosagem do HCV-RNA (carga viral), que se torna indetectável. A alternativa D menciona "DNA do HCV", o que é um erro conceitual, pois o HCV é um vírus de RNA, não de DNA. Além disso, a redução das aminotransferases não é o principal parâmetro de eficácia, embora possa ocorrer.
Esteatose hepática não alcoólica (EHNA): A esteatose hepática não alcoólica (EHNA) é a forma mais comum de doença hepática crônica no mundo, afetando cerca de 25% da população adulta. A progressão da esteatose simples para esteato-hepatite não alcoólica (NASH) e, subsequentemente, para cirrose e insuficiência hepática é um fenômeno cada vez mais reconhecido. A NASH é uma das principais causas de cirrose e indicação de transplante hepático em muitos países. A alternativa E está correta ao afirmar que tem sido constatada, com frequência cada vez maior, a progressão de esteatose hepática não alcoólica para insuficiência hepática ou cirrose.
Alternativa A — ❌ Incorreta
A alternativa afirma que, em pacientes recuperados da hepatite B em passado remoto e em portadores de infecção crônica pelo HBV, o anti-HBc é predominantemente da classe IgM. Isso está errado. O anti-HBc IgM é o marcador de infecção aguda (título alto), enquanto o anti-HBc IgG indica exposição anterior (em HBsAg negativos) ou hepatite crônica (em HBsAg positivos). Em pacientes recuperados ou com infecção crônica, o anti-HBc predominante é o IgG, não o IgM.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A alternativa afirma que a hepatite D (delta) é a causa de quase metade das hepatopatias crônicas e constitui a indicação mais frequente para transplante de fígado. Isso é falso. A hepatite D é uma causa menos comum de hepatopatia crônica, e as principais causas de cirrose e indicação de transplante são a hepatite C, a doença hepática alcoólica e a esteato-hepatite não alcoólica. A hepatite D ocorre apenas em pacientes com HBV, e sua prevalência é baixa.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A alternativa afirma que o início dos sintomas da doença celíaca ocorre invariavelmente durante a infância, quase sempre já no primeiro ano de vida. Isso é falso. Embora a doença celíaca seja mais frequentemente diagnosticada na infância, pode se manifestar em qualquer idade, incluindo adultos. Muitos pacientes apresentam formas oligossintomáticas ou assintomáticas e são diagnosticados apenas na vida adulta. O início dos sintomas não é invariavelmente na infância.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A alternativa afirma que, em pacientes com insuficiência hepática por hepatite C crônica, o tratamento antiviral produz efeitos benéficos, pois é eficaz para suprimir o vírus, conforme evidenciado pelas reduções dos níveis de aminotransferase e de DNA do HCV. O erro está em mencionar "DNA do HCV", pois o HCV é um vírus de RNA, não de DNA. O monitoramento da resposta ao tratamento é feito pela dosagem do HCV-RNA (carga viral), que se torna indetectável. Além disso, a redução das aminotransferases não é o principal parâmetro de eficácia, embora possa ocorrer.
Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A alternativa afirma que tem sido constatada, com frequência cada vez maior, a progressão de esteatose hepática não alcoólica para insuficiência hepática ou cirrose. Isso está correto. A esteatose hepática não alcoólica (EHNA) é a forma mais comum de doença hepática crônica, e a progressão para esteato-hepatite não alcoólica (NASH) e, subsequentemente, para cirrose e insuficiência hepática é um fenômeno cada vez mais reconhecido. A NASH é uma das principais causas de cirrose e indicação de transplante hepático.
Gabarito: letra E