“Minha avó contava que os negros de Lagoa Funda
chegaram num tempo que ninguém sabia dizer. Cada um tinha
sua tapera, tinham suas roças, plantavam na vazante do rio São
Francisco. Os filhos iam nascendo e iam fazendo suas casinhas e
botando suas roças onde os pais já tinham. Durante muito tempo,
não houve nada nem ninguém por aquelas bandas. Eram só o
povo e Deus. Depois chegou a Igreja e disse que as terras da
cidade lhe pertenciam. Não demorou muito e chegou até Lagoa
Funda e tudo o que estava em volta da cidade. Disse que nossa
terra pertencia à igreja também.”
(...)
“A igreja marcou com ferro as árvores com um B e um J
de Bom Jesus. Marcou tudo o que podia. Disse que as terras
pertenciam à Igreja e nós éramos escravos do Bom Jesus. Bom, o
povo estranhou, porque não se falava de escravidão em Lagoa
Funda. Minha avó disse que sabiam de escravos em outros
lugares, mas não ali. Nunca houve escravo naquela terra. Todos
se consideravam livres, e hoje eu penso nas coisas que o finado
Severo, seu pai, dizia: se os negros vieram para o Brasil para ser
escravos, Lagoa Funda deve ter começado com o povo que fugiu
de alguma fazenda ou ganhou liberdade de um algum fazendeiro.
Mas ali ninguém quis falar sobre isso. Todo mundo nascia livre,
sem dono. Apagaram essa lembrança do cativeiro.”
(...)
“Depois que marcaram tudo com o nome do Bom Jesus
— eu vi muito pé de tudo, de jatobá a oitizeiro, com marca de
ferro do Bom Jesus — e disseram que eram escravos do Bom
Jesus, o povo ainda viveu como antes por muitos anos. Mas
depois os fazendeiros chegaram mostrando documentos, e foram
cercando as terras, o povo resistindo, muita gente morreu, e
terminaram por ficar espremidos num cantinho. Minha mãe e
meu pai foram para a Fazenda Caxangá, onde conheci seu avô,
nessa época que cercaram as terras” (...).
Itamar Vieira Júnior. Torto arado. 1.ª ed. São Paulo:
Todavia, 2029, p. 227 – 229 (com adaptações).
Considerando os sentidos e aspectos linguísticos do texto CB1A1-II, assinale a opção correta.
ADadas as relações coesivas do primeiro parágrafo, o segmento ‘lhe pertenciam’ (antepenúltimo período) poderia ser, correta e coerentemente, substituído por pertenciam à ela.
BNo segmento ‘se os negros vieram para o Brasil para ser escravos’ (segundo parágrafo), o emprego do vocábulo ‘se’, associado ao teor de todo o parágrafo, indica dúvida em relação ao cativeiro no Brasil.
CNa oração ‘porque não se falava de escravidão em Lagoa Funda’ (segundo parágrafo), a partícula ‘se’ indica que a oração está construída na voz passiva pronominal.
DNo período ‘Nunca houve escravo naquela terra.’ (segundo parágrafo), a flexão da forma verbal ‘houve’ na terceira pessoa do singular justifica-se por sua concordância com o termo ‘escravo’, que é o sujeito da oração.
ENo penúltimo período do último parágrafo, o sujeito referencial da forma verbal ‘terminaram’ é o termo ‘povo’, tomado em sentido plural no texto.
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GabaritoE — No penúltimo período do último parágrafo, o sujeito referencial da forma verbal ‘terminaram’ é o termo ‘povo’, tomado em sentido plural no texto.
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Análise das alternativas — Sujeito referencial e concordância
Gabarito: letra E. A alternativa E está correta porque, no penúltimo período do último parágrafo, o verbo “terminaram” tem como referente o termo “povo”, tomado em sentido plural (coletivo com ideia de pluralidade), como se comprova no trecho: “o povo resistindo, muita gente morreu, e terminaram por ficar espremidos num cantinho.” A flexão plural do verbo é coerente com a interpretação do coletivo como plural.
Alternativa A — ❌ Incorreta
O segmento “lhe pertenciam” refere-se à Igreja. A substituição por “pertenciam à ela” é gramaticalmente inadequada, pois não se usa crase antes do pronome pessoal “ela” (o correto seria “pertenciam a ela”). Portanto, a alternativa erra ao afirmar que a troca é correta e coerente.
Alternativa B — ❌ Incorreta
O “se” em “se os negros vieram para o Brasil para ser escravos” é conjunção condicional, equivalendo a “caso”. O teor do parágrafo não expressa dúvida sobre o cativeiro no Brasil, mas sim uma hipótese para explicar a origem dos negros de Lagoa Funda. A banca confunde “condição” com “dúvida”.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Na oração “porque não se falava de escravidão em Lagoa Funda”, o “se” funciona como índice de indeterminação do sujeito, pois o verbo “falar” é transitivo indireto (falar de algo). Nesse caso, não há voz passiva pronominal (que exige verbo transitivo direto). A construção equivale a “não se falava = a gente não falava”. Logo, não se trata de voz passiva.
Alternativa D — ❌ Incorreta
No período “Nunca houve escravo naquela terra.”, o verbo “houver” está empregado no sentido de “existir”, sendo impessoal (sem sujeito). A flexão na terceira pessoa do singular é obrigatória independentemente do termo “escravo”, que é objeto direto, não sujeito. A justificativa apresentada é falsa.
Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO
No penúltimo período: “Mas depois os fazendeiros chegaram mostrando documentos, e foram cercando as terras, o povo resistindo, muita gente morreu, e terminaram por ficar espremidos num cantinho.” O sujeito referencial de “terminaram” é “o povo”, que, embora seja um coletivo, é tomado em sentido plural (equivale a “as pessoas”, “os habitantes”). A concordância no plural é admitida e coerente com o contexto.
NÃO CAIA NESSA!
Sujeito nunca tem preposição
Se um termo vem regido de preposição (de, em, a...), ele não é o sujeito da oração. Serve para não confundir sujeito com objeto/adjunto preposicionado.