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Questão de Português — Sintaxe — CESPE / CEBRASPE 2024

PortuguêsSintaxe
Código
ce191065
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
ANVISA
Ano
2024
Nível
Superior
        Devemos salientar mais uma vez o caráter essencial dos sentimentos negativos. Manifestações populares e mudança social advêm do acúmulo de muitos cidadãos irritados e ofendidos. Ocultar sentimentos negativos sob o tapete do pensamento positivo significa estigmatizar e tornar vexaminosa a estrutura emocional do mal-estar social e da instabilidade. Alguns dirão que optamos por privar trabalhadores dos benefícios da ciência do bem-estar em troca do aceno de uma ideia vaga de consciência coletiva. A felicidade, como alguns empiristas ferrenhos afirmarão, é o único bem tangível em que podemos pôr as mãos aqui e agora. Nossa resposta e nossa objeção final podem ser encontradas na famosa refutação do utilitarismo do filósofo Robert Nozick. Em 1974, ele pediu a seus leitores que participassem de um experimento mental que consistia em imaginar que estamos conectados a uma máquina que nos proporciona qualquer experiência prazerosa. Nossos cérebros seriam estimulados a acreditar que estaríamos vivendo a vida que desejamos. A pergunta de Nozick, então, era: dada a possibilidade de escolha, você preferiria a máquina prazerosa à vida real (e presumivelmente mais infeliz)? Uma resposta a essa questão parece hoje ainda mais relevante do que antes, sobretudo agora que a ciência da felicidade e as tecnologias virtuais se tornam tão predominantes. Nossa resposta, assim como a de Nozick, é a de que o prazer e a busca da felicidade não podem superar a realidade e a busca por conhecimento — o pensamento crítico sobre nós mesmos e sobre o mundo que nos rodeia. Uma “máquina da experiência” do tipo que Nozick imaginou tem hoje seu equivalente em uma indústria da felicidade que pretende nos controlar: ela não apenas borra e confunde a capacidade de conhecer as condições que moldam nossa existência, mas também faz que essas condições em si sejam irrelevantes. Conhecimento e justiça, e não felicidade, continuam a ser o propósito moral revolucionário da vida. 

Edgar Cabanas e Eva Illouiz. Happycracia: fabricando cidadãos felizes. São Paulo: Ubu, 2022, p. 274-275 (com adaptações).
Acerca das ideias e de aspectos linguísticos do texto apresentado, julgue o item a seguir.Os sujeitos das formas verbais “optamos” (quarto período) e “podemos” (quinto período) têm referentes distintos.
  1. CCerto
  2. EErrado
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GabaritoC — Certo

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Sujeitos de 'optamos' e 'podemos' no texto

Gabarito: Certo (C). Os sujeitos das formas verbais “optamos” (quarto período) e “podemos” (quinto período) têm referentes distintos, como se comprova pela análise do contexto.

Compreendendo o comando

A questão pede que se julgue se os sujeitos (o “nós” implícito em cada verbo) apontam para grupos diferentes de pessoas. A resposta exige inferência a partir das pistas textuais.

Ancoragem no texto

  • “optamos” (quarto período): aparece na fala atribuída a “Alguns dirão que optamos por privar trabalhadores dos benefícios…”. O “nós” aqui se refere aos autores (ou à sociedade da qual eles fazem parte) – o grupo que, segundo esses críticos, teria feito a escolha de privar trabalhadores. O verbo está inserido em um discurso citado, e o referente é específico: os próprios autores e, possivelmente, os leitores como parte da coletividade que supostamente optou.

    > “Alguns dirão que optamos por privar trabalhadores dos benefícios da ciência do bem-estar em troca do aceno de uma ideia vaga de consciência coletiva.”

  • “podemos” (quinto período): aparece na declaração “A felicidade, como alguns empiristas ferrenhos afirmarão, é o único bem tangível em que podemos pôr as mãos aqui e agora”. O “nós” aqui é genérico – refere-se a qualquer ser humano, no âmbito da afirmação dos empiristas. A oração é um argumento deles, não uma opinião dos autores. O referente é universal.

    > “A felicidade, como alguns empiristas ferrenhos afirmarão, é o único bem tangível em que podemos pôr as mãos aqui e agora.”

Conclusão

Embora ambos os verbos estejam na primeira pessoa do plural, o contexto mostra que o “nós” de “optamos” é específico (os autores/sociedade criticada), enquanto o “nós” de “podemos” é genérico (a humanidade). Portanto, os referentes são distintos. A afirmação do item está correta.

NÃO CAIA NESSA!

Sujeito nunca tem preposição

Se um termo vem regido de preposição (de, em, a...), ele não é o sujeito da oração. Serve para não confundir sujeito com objeto/adjunto preposicionado.

— Sintaxe — identificação do sujeito

Gabarito: C (Certo).

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