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Questão de Português — Interpretação de Textos — CESPE / CEBRASPE 2024

PortuguêsInterpretação de Textos
Código
ce192851
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
STJ
Ano
2024
Nível
Superior

        Por quase dois séculos, apesar da controvérsia provocada pela Revolução Francesa, a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão encarnou a promessa de direitos humanos universais. Em 1948, quando as Nações Unidas adotaram a Declaração Universal dos Direitos Humanos, seu artigo 1.º dizia: “Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e direitos”. Em 1789, o artigo 1.º da Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão já havia proclamado: “Os homens nascem e permanecem livres e iguais em direitos”.


        As origens dos documentos não nos dizem necessariamente nada de significativo sobre as suas consequências. Importa realmente que o esboço tosco de Jefferson tenha passado por 86 alterações feitas por ele mesmo, pelo Comitê dos Cinco ou pelo Congresso? A Declaração da Independência dos Estados Unidos da América (EUA) não tinha natureza constitucional. Declarava simplesmente intenções, e passaram-se quinze anos antes que os estados finalmente ratificassem uma Bill of Rights, muito diferente, em 1791. A Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão afirmava salvaguardar as liberdades individuais, mas não impediu o surgimento de um governo francês que reprimiu os direitos, e futuras constituições francesas — houve muitas delas — formularam declarações diferentes ou passaram sem nenhuma declaração.


        Ainda mais perturbador é que aqueles que, com tanta confiança, declaravam, no final do século XVIII, que os direitos eram universais vieram a demonstrar que tinham algo muito menos inclusivo em mente. As pessoas não ficaram surpresas por eles considerarem que as crianças, os insanos, os prisioneiros ou os estrangeiros eram incapazes ou indignos de plena participação no processo político, pois pensavam da mesma maneira. Mas eles também excluíam aqueles sem propriedade, os escravos, os negros livres, em alguns casos as minorias religiosas e, sempre e por toda parte, as mulheres. Em anos recentes, essas limitações a “todos os homens” provocaram muitos comentários, e alguns estudiosos até questionaram se as declarações tinham um verdadeiro significado de emancipação.


     Os fundadores, os que estruturaram e os que redigiram as declarações, têm sido julgados elitistas, racistas e misóginos por sua incapacidade de considerar todos verdadeiramente iguais em direitos.


       Como é que esses homens, vivendo em sociedades construídas sobre a escravidão, a subordinação e a subserviência aparentemente natural, chegaram a imaginar homens nada parecidos com eles, e, em alguns casos, também mulheres, como iguais? Se pudéssemos compreender como isso veio a acontecer, compreenderíamos melhor o que os direitos humanos significam para nós hoje em dia.


Lynn Hunt. A invenção dos direitos humanos: uma história. Tradução de Rosaura Eichenberg. São Paulo: Companhia das Letras, 2009, p. 15-16 (com adaptações).


A respeito de aspectos linguísticos do texto precedente bem como das ideias nele veiculadas, julgue o próximo item.No texto, a autora põe em xeque o conceito de direitos humanos e demonstra duvidar da sua real aplicabilidade desde seu surgimento no século XVIII, mesmo que tenham sido assegurados na Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão.
  1. CCerto
  2. EErrado
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GabaritoE — Errado

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Análise do item — a autora põe em xeque os direitos humanos?

❌ ERRADO. A afirmação de que a autora "põe em xeque o conceito de direitos humanos e demonstra duvidar da sua real aplicabilidade" não encontra respaldo no texto. O texto, na verdade, analisa as contradições históricas entre as declarações universais e sua aplicação restritiva, mas não coloca em dúvida o conceito em si. A autora mantém uma postura crítica e investigativa, não de negação.

O que o texto diz? No primeiro parágrafo, a autora afirma que a Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão "encarnou a promessa de direitos humanos universais". Em seguida, aponta que "aqueles que, com tanta confiança, declaravam, no final do século XVIII, que os direitos eram universais vieram a demonstrar que tinham algo muito menos inclusivo em mente". A crítica incide sobre a aplicação limitada (exclusão de mulheres, escravos, etc.), e não sobre a validade dos direitos humanos. O final do texto, com a pergunta "Como é que esses homens... chegaram a imaginar homens nada parecidos com eles... como iguais?", revela uma curiosidade histórica, não um descrédito.

A alternativa, portanto, extrapola o conteúdo ao atribuir à autora uma dúvida que ela não expressa. Ela questiona a inclusividade, não a aplicabilidade do conceito. O texto reforça a promessa dos direitos, mesmo que frustrada na prática.

NÃO CAIA NESSA!

A banca tenta fazer o candidato confundir "crítica à aplicação histórica" com "dúvida sobre o conceito". A autora nunca afirma que os direitos humanos não são aplicáveis; ela mostra que as declarações foram usadas de forma excludente.

Conclusão: A afirmação é falsa. O gabarito é Errado (E).

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