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Questão de Português — Interpretação de Textos — CESPE / CEBRASPE 2024

PortuguêsInterpretação de Textos
Código
ce192855
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
STJ
Ano
2024
Nível
Superior

        A escravidão levou consigo ofícios e aparelhos, como terá sucedido a outras instituições sociais. Não cito alguns aparelhos senão por se ligarem a certo ofício. Um deles era o ferro ao pescoço, outro o ferro ao pé; havia também a máscara de folha-de-flandres. A máscara fazia perder o vício da embriaguez aos escravos, por lhes tapar a boca. Tinha só três buracos, dois para ver, um para respirar, e era fechada atrás da cabeça por um cadeado. Com o vício de beber, perdiam a tentação de furtar, porque geralmente era dos vinténs do senhor que eles tiravam com que matar a sede, e aí ficavam dois pecados extintos, e a sobriedade e a honestidade certas. Era grotesca tal máscara, mas a ordem social e humana nem sempre se alcança sem o grotesco, e alguma vez o cruel. Os funileiros as tinham penduradas, à venda, na porta das lojas. Mas não cuidemos de máscaras.


        O ferro ao pescoço era aplicado aos escravos fujões. Imaginai uma coleira grossa, com a haste grossa também à direita ou à esquerda, até ao alto da cabeça e fechada atrás com chave. Pesava, naturalmente, mas era menos castigo que sinal. Escravo que fugia assim, onde quer que andasse, mostrava um reincidente, e com pouco era pego.

        

         Há meio século, os escravos fugiam com frequência. Eram muitos, e nem todos gostavam da escravidão.


        Quem perdia um escravo por fuga dava algum dinheiro a quem lho levasse. Punha anúncios nas folhas públicas, com os sinais do fugido, o nome, a roupa, o defeito físico, se o tinha, o bairro por onde andava e a quantia de gratificação. Quando não vinha a quantia, vinha promessa: “gratificar-se-á generosamente”, ou “receberá uma boa gratificação”. Muita vez o anúncio trazia em cima ou ao lado uma vinheta, figura de preto, descalço, correndo, vara ao ombro, e na ponta uma trouxa. Protestava-se com todo o rigor da lei contra quem o açoitasse.

 Ora, pegar escravos fugidios era um ofício do tempo. Não seria nobre, mas, por ser instrumento da força com que se mantêm a lei e a propriedade, trazia esta outra nobreza implícita das ações reivindicadoras. Ninguém se metia em tal ofício por desfastio ou estudo; a pobreza, a necessidade de uma achega, a inaptidão para outros trabalhos, o acaso, e alguma vez o gosto de servir, também, ainda que por outra via, davam o impulso ao homem que se sentia bastante rijo para pôr ordem à desordem.


Machado de Assis. Pai contra Mãe. In: Machado de Assis. Relíquias da casa velha, 1906 (com adaptações).


Machado de Assis inicia o conto Pai contra Mãe — escrito em 1906 e publicado na coletânea Relíquias da casa velha —, mencionando “ofícios e aparelhos” da escravidão no Brasil. O conto aborda a história de Cândido Neves, personagem que trabalhava na captura de escravos fugidios. Considerando o fragmento desse conto apresentado anteriormente, julgue os itens a seguir.

Em “a sobriedade e a honestidade certas” (sexto período do primeiro parágrafo), a substituição de “certas” por corretas manteria a coerência das ideias do texto, visto que tais palavras têm o mesmo significado.
  1. CCerto
  2. EErrado
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GabaritoE — Errado

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Substituição vocabular e coerência textual

Gabarito: Errado (E). A substituição de "certas" por "corretas" no trecho "a sobriedade e a honestidade certas" alteraria o sentido original e, consequentemente, a coerência das ideias, pois os vocábulos não são sinônimos no contexto. O texto diz que, com a perda do vício de beber, a sobriedade e a honestidade tornam-se certas (garantidas, asseguradas), e não corretas (que agem conforme a moral).

O comando da questão exige que se avalie se a troca mantém a coerência. Coerência depende da manutenção do sentido pretendido pelo autor. No texto de Machado de Assis, lê-se:

"Com o vício de beber, perdiam a tentação de furtar, porque geralmente era dos vinténs do senhor que eles tiravam com que matar a sede, e aí ficavam dois pecados extintos, e a sobriedade e a honestidade certas."

O adjetivo "certas" está no sentido de "garantidas", "asseguradas" – resultado da extinção dos pecados. Já "corretas" carrega um juízo moral de "exatas", "justas", que não se alinha ao contexto. Se o autor quisesse dizer que os escravos se tornavam moralmente corretos, teria usado outro termo. Portanto, a troca comprometeria a coerência.

Palavra

Sentido no contexto

Efeito na coerência se substituída

certas

garantidas, asseguradas (resultado da extinção dos pecados)

Mantém a ideia de consequência lógica

corretas

moralmente justas, exatas (juízo moral)

Altera o sentido, introduzindo valoração ética ausente no original

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a falsa sinonímia entre "certo" e "correto". Em muitos contextos são intercambiáveis, mas aqui "certas" equivale a "certas" (determinadas, garantidas), não a "corretas". O candidato que não atenta ao contexto pode cair na armadilha.

Gabarito: E (Errado). A afirmação do item é falsa.

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