Questão de Medicina — Neurologia — CESPE / CEBRASPE 2025
- Código
- ce203629
- Banca
- CESPE / CEBRASPE
- Órgão
- FUB
- Ano
- 2025
- Nível
- Superior
- Cargo
- Médico - Área: Trabalho
- CCerto
- EErrado
GabaritoE — Errado
Gabarito: letra E (ERRADO). A síndrome das pernas inquietas (SPI) é, de fato, um transtorno neurológico sensório-motor do sono com forte componente familiar, mas seu mecanismo fisiopatológico envolve disfunção dopaminérgica e metabolismo do ferro — e não perturbações no sistema cortisol e no metabolismo do cálcio, como afirma o item. A banca troca os dois pilares fisiopatológicos reais da doença por outros que não têm respaldo na literatura médica.
A SPI, também conhecida como doença de Willis-Ekbom, é um distúrbio sensitivo-motor comum, caracterizado por uma urgência irresistível de movimentar as pernas (ou outras partes do corpo), geralmente acompanhada de sensações desconfortáveis, que surge ou piora em repouso, alivia com o movimento e apresenta piora no final do dia ou à noite. O diagnóstico é essencialmente clínico, baseado na história e no exame físico normal. Embora a fisiopatologia não seja totalmente compreendida, a hipótese mais aceita é a de uma disfunção dopaminérgica — a chamada patologia hipodopaminérgica —, sustentada pela observação clínica de que os agonistas dopaminérgicos melhoram os sintomas. Além disso, o metabolismo do ferro desempenha papel central: a deficiência de ferro é uma das três condições mais fortemente associadas à SPI, e a dosagem de ferritina sérica é recomendada em todos os pacientes. O tratamento de primeira linha inclui agonistas dopaminérgicos e ligantes dos canais de cálcio alfa-2-delta (gabapentina, pregabalina), além da reposição de ferro quando indicada.
O componente familiar é real e marcante: a herdabilidade é elevada, com história familiar positiva em até 50% dos casos (alguns estudos relatam até 90,9%). No entanto, o item erra ao atribuir o mecanismo fisiopatológico a perturbações no sistema cortisol e no metabolismo do cálcio. O cortisol está relacionado ao eixo hipotálamo-hipófise-adrenal e ao estresse, não sendo um eixo fisiopatológico da SPI. O cálcio, por sua vez, embora seja alvo de fármacos usados na SPI (os ligantes dos canais de cálcio alfa-2-delta), não é o centro do mecanismo da doença — o que se altera é a via dopaminérgica e o metabolismo do ferro. A banca explora exatamente essa confusão: o aluno que sabe que a SPI tem relação com canais de cálcio (por causa dos medicamentos) pode ser induzido a aceitar que o metabolismo do cálcio está perturbado, mas isso não corresponde à fisiopatologia descrita na literatura.
Para fixar: a SPI é um transtorno sensório-motor do sono, com forte agregação familiar, cuja fisiopatologia envolve disfunção dopaminérgica e metabolismo do ferro (deficiência de ferro é causa secundária comum). As condições mais associadas são gravidez, deficiência de ferro e doença renal em estágio terminal. O tratamento de primeira linha usa agonistas dopaminérgicos e ligantes dos canais de cálcio alfa-2-delta — mas isso não significa que o metabolismo do cálcio seja o mecanismo da doença. É exatamente essa distinção que separa o item certo do errado.
O item afirma que a SPI tem "forte componente familiar" (correto) e que seu mecanismo fisiopatológico inclui "perturbações no sistema cortisol e no metabolismo do cálcio" (incorreto). O erro está na segunda parte: a fisiopatologia da SPI é explicada por disfunção dopaminérgica e alterações no metabolismo do ferro, não no cortisol nem no cálcio. O cortisol está ligado ao eixo do estresse, e o cálcio, embora seja alvo de fármacos (ligantes dos canais de cálcio alfa-2-delta), não é o mecanismo central da doença. Portanto, o item é ERRADO.
A banca troca os pilares fisiopatológicos reais da SPI (dopamina e ferro) por outros que parecem plausíveis (cortisol e cálcio). O candidato que associa os ligantes dos canais de cálcio ao tratamento pode ser induzido a aceitar que o metabolismo do cálcio está perturbado — mas isso não é o mecanismo da doença. Lembre-se: dopamina e ferro são os dois eixos que a prova cobra.
Para questões de SPI, memorize o tripé: (1) é transtorno sensório-motor do sono; (2) fisiopatologia = dopamina + ferro; (3) causas secundárias = gravidez, deficiência de ferro e doença renal crônica. Se a alternativa citar cortisol, cálcio, serotonina ou GABA como mecanismo central, desconfie — a banca está trocando o eixo.
Gabarito: letra E (ERRADO).
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