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Questão de Português — Morfologia — CESPE / CEBRASPE 2025

PortuguêsMorfologia
Código
ce207842
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
InoversaSul
Ano
2025
Nível
Superior
Cargo
Professor de Redação - Ensino Médio
Texto 9A1

        No cotidiano de todo brasileiro, podemos visualizar as marcas que constituíram, a partir do século XVI, a presença dos povos africanos, de origem Banto e Iorubá, no Brasil. Essa presença está nas palavras que falamos, na gestualidade que produzimos e no nosso modo de pronunciar a língua portuguesa falada no Brasil.

        A entrada de grande número de africanos no Brasil, com suas diferentes culturas e línguas, passou por um processo de adaptação, de certo ajuste cultural e linguístico com a assimilação de novas palavras e, consequentemente, da forma como elas orientavam o entendimento da nova realidade vivida em português. Entretanto, ainda é possível visualizar a presença das palavras africanas nos diferentes espaços da cultura brasileira.

        O Museu da Língua Portuguesa, ao expor o acervo de palavras africanas que entraram no vocabulário da língua portuguesa, favorece reconhecer a história da população africana no Brasil como agente da cultura e da língua portuguesa que se desenhava sobre este solo. No setor Palavras Cruzadas do museu, por exemplo, visualizam-se palavras que nos ensinaram a nomear determinados comportamentos, como: bagunça lengalenga, dengo. Essas são algumas das palavras africanas que continuam vivas a significar comportamentos e relações sociais. Outras ganharam o sentido de gíria na língua portuguesa falada no Brasil, como borocoxô, cafofo.

        A cultura é algo que está no corpo, nos gestos, na memória, na forma de andar, no contorno das expressões verbais e não verbais. Não é possível perdê-la. A mudança de um contexto cultural para outro acompanha adaptações e recriações dadas em palavras, por isso podemos falar em um movimento de antropofagia simbólica no lugar de uma simples assimilação de palavras e práticas.

        As línguas mudam ao acompanharem a história dos seus falantes. Esta é a história da língua portuguesa em solo brasileiro: ela também pode adaptar-se às novas relações linguísticas e culturais. No Brasil, a manutenção da estrutura latina da língua portuguesa não impediu que esta acolhesse uma nova sonoridade em relação à sua matriz e incorporasse um grande vocabulário de palavras que veio de outras línguas.

        Como um detetive que reúne pistas para contar uma história, as palavras africanas expostas no acervo do Museu da Língua Portuguesa compõem o papel de traduzir os sentidos e significados compartilhados na cultura brasileira. É uma história nem sempre contada em livros didáticos, mas que carregamos conosco para os diferentes lugares a que podemos ir. A importância da língua portuguesa como um bem museológico se faz nesse ato de contar histórias que não são definidas por nós, mas são praticadas e vividas coletivamente.

Wilmihara Santos.
A presença africana nas palavras que falamos em português.
2018.Internet:<museudalinguaportuguesa.org.br>  (com adaptações). 
Em relação ao texto 9A1 e a aspectos gramaticais a ele relacionados, julgue o item que se segue.No último período do segundo parágrafo, a substituição de “Entretanto” por Conquanto manteria a correção gramatical e a coerência das ideias do texto.
  1. CCerto
  2. EErrado
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GabaritoE — Errado

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Substituição de 'Entretanto' por 'Conquanto' — ❌ ERRADO ⟵ GABARITO

Gabarito: Errado. A troca de "Entretanto" por "Conquanto" no último período do segundo parágrafo não mantém a correção gramatical nem a coerência das ideias, pois são conjunções com valores semânticos e funções sintáticas distintas.

O que diz o texto

"A entrada de grande número de africanos no Brasil, com suas diferentes culturas e línguas, passou por um processo de adaptação, de certo ajuste cultural e linguístico com a assimilação de novas palavras e, consequentemente, da forma como elas orientavam o entendimento da nova realidade vivida em português. Entretanto, ainda é possível visualizar a presença das palavras africanas nos diferentes espaços da cultura brasileira."

O conectivo "Entretanto" é uma conjunção coordenativa adversativa, que expressa oposição ou contraste entre duas ideias: de um lado, o processo de adaptação e assimilação; de outro, a persistência da presença africana. Ele liga dois períodos autônomos, funcionando como palavra de transição entre eles.

O que é "Conquanto"

"Conquanto" é uma conjunção subordinativa concessiva, equivalente a "embora", "ainda que". Sua função é introduzir uma oração subordinada que expressa um fato contrário ao que se afirma na oração principal, mas sem impedi-lo. Exige o verbo no modo subjuntivo e não pode ser usado isoladamente entre períodos.

Por que a substituição falha

  1. Incoerência semântica: "Entretanto" marca oposição; "Conquanto" marca concessão. No contexto, o autor quer contrastar a adaptação com a permanência, não conceder uma ideia em relação à outra. A troca altera a relação lógica entre as partes do texto.

  1. Incorreção sintática: "Conquanto" exige uma oração subordinada, mas no trecho original "Entretanto" está seguido de uma oração principal independente ("ainda é possível visualizar..."). Substituí-lo diretamente quebra a estrutura frasal, pois "Conquanto" não pode ligar períodos; precisaria de uma reestruturação, como: "Conquanto tenha havido adaptação, ainda é possível..." — o que não é o caso.

  1. Quebra da coesão: O texto utiliza "Entretanto" como elemento de coesão interperíodos. "Conquanto" não cumpre esse papel, desarticulando a progressão textual.

Conclusão

A afirmativa está errada, pois a troca de "Entretanto" por "Conquanto" não preserva a correção gramatical (muda a classe e a regência) nem a coerência (altera o sentido de oposição para concessão). O gabarito oficial é E (Errado).

Conectivos
  • 1Entretanto
    • Conjunção coordenativa adversativa
    • Valor: oposição/contraste
    • Liga períodos autônomos
  • 2Conquanto
    • Conjunção subordinativa concessiva
    • Valor: concessão (embora)
    • Exige oração subordinada
    • Verbo no subjuntivo
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PEGA ESSA DICA!

Ao analisar substituições de conectivos, verifique sempre o valor semântico (oposição, causa, concessão, etc.) e a função sintática (coordenativo vs. subordinativo). Conjunções adversativas ligam orações/ períodos independentes; concessivas subordinam uma oração à outra.

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