Questão de Medicina — Angiologia — CESPE / CEBRASPE 2025
Medicina›Angiologia
Código
ce213829
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
Prefeitura de Boa Vista - RR
Ano
2025
Nível
Superior
Cargo
Médico - Especialidade: Cirurgião Vascular
João, atendido em pronto-socorro, queixava-se do aparecimento súbito de febre, dor, edema, calor local e placa eritematosa bem delimitada na perna direita, dos meléolos até o joelho. Relatou ser diabético. Realizada ecografia vascular com Doppler, foram descartadas tromboses venosas.Considerando o caso clínico apresentado, assinale a opção em que é citada a provável suspeita diagnóstica.
Aerisipela
Bpé diabético infectado
Cqueimadura
Dcelulite
Etrauma contuso
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GabaritoA — erisipela
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Erisipela versus celulite: diagnóstico diferencial em membro inferior
Gabarito: letra A. O quadro descrito — febre, dor, edema, calor local e placa eritematosa bem delimitada, dos maléolos até o joelho — é a apresentação clássica da erisipela, infecção dérmica superficial por estreptococos, que se distingue da celulite justamente pela delimitação nítida da lesão. O diagnóstico é essencialmente clínico, e a ecografia com Doppler serviu apenas para afastar trombose venosa profunda (TVP), principal diagnóstico diferencial de edema unilateral agudo de membro inferior.
A erisipela é uma infecção bacteriana aguda da derme superficial e dos linfáticos dérmicos, quase sempre causada por Streptococcus pyogenes (estreptococo beta-hemolítico do grupo A). A porta de entrada costuma ser uma solução de continuidade na pele — micose interdigital (frieira), trauma, úlcera ou até fissura imperceptível. O quadro clínico é típico: início súbito com febre alta, calafrios e mal-estar, seguido de placa eritematosa, edemaciada, quente e dolorosa, com bordas bem delimitadas e elevadas, que se expande centrifugamente. Acomete com predileção os membros inferiores, e o paciente diabético tem risco aumentado, pois a hiperglicemia favorece a colonização e a proliferação bacteriana, além de comprometer a microcirculação e a imunidade local.
O grande desafio na prática é diferenciar erisipela de celulite. Embora ambas sejam infecções de pele e partes moles, há diferenças anatômicas e semiológicas que orientam o diagnóstico:
Critério
Erisipela
Celulite
Profundidade
Derme superficial e linfáticos dérmicos
Derme profunda e tecido celular subcutâneo
Delimitação
Bem delimitada, bordas elevadas e nítidas
Mal delimitada, bordas imprecisas, difusa
Agente típico
Streptococcus pyogenes
Staphylococcus aureus e estreptococos
Aspecto da lesão
Placa elevada, cor vermelho-vivo, superfície lisa e brilhante
Área eritematosa plana, sem relevo, que se funde com a pele sã
Sintomas sistêmicos
Febre alta e calafrios frequentes
Febre variável, muitas vezes ausente
Na prática clínica, a distinção nem sempre é nítida, e muitos autores consideram erisipela e celulite um espectro da mesma doença (infecção de pele e tecidos moles). Contudo, a banca explora exatamente a diferença semiológica clássica: a delimitação da lesão. A erisipela tem borda bem definida; a celulite, não. No caso de João, a placa "bem delimitada" é a chave para o diagnóstico de erisipela.
O contexto traz ainda um dado importante: a tabela de causas de edema unilateral de membro inferior lista "Celulite/erisipela" como uma das condições, com apresentação de "dor, eritema, empastamento, porta de entrada para bactérias (trauma, cirurgia, tinha interdigital), envolvimento sistêmico frequente" e achados de "febre, leucocitose, desvio à esquerda, elevação de PCR, eventualmente adenopatia regional presente". Isso confirma que o quadro de João — febre, dor, edema, calor e eritema — se encaixa perfeitamente nesse grupo, e a ecografia com Doppler negativo exclui a TVP, que é o principal diagnóstico diferencial a ser afastado antes de se firmar a hipótese de infecção de partes moles.
A pegadinha da questão está em distinguir erisipela de celulite, que são frequentemente confundidas. O candidato que memoriza apenas "infecção de pele com febre e eritema" pode marcar a letra D, mas o termo "bem delimitada" é o discriminador. Além disso, o fato de João ser diabético pode induzir o candidato a pensar em pé diabético infectado, mas o quadro descrito não é de úlcera neuropática ou isquêmica — é uma infecção aguda de pele com sinais flogísticos clássicos, sem mencionar lesão ulcerada prévia. A ecografia com Doppler foi realizada justamente para excluir TVP, que também causa edema unilateral agudo, mas sem os sinais inflamatórios cutâneos típicos.
Guarde o critério decisivo: erisipela = lesão bem delimitada; celulite = lesão mal delimitada. É exatamente nessa fronteira que as alternativas se dividem.
Erisipela
1Derme superficial e linfáticos
2Bordas bem delimitadas
3Streptococcus pyogenes
4Febre alta e calafrios
5Celulite
Derme profunda e subcutâneo
Bordas mal delimitadas
S. aureus e estreptococos
Febre variável ou ausente
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Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A erisipela é a hipótese diagnóstica mais provável. O quadro de febre, dor, edema, calor local e placa eritematosa bem delimitada na perna é a apresentação clássica da doença. O Doppler negativo afasta TVP, e o diabetes é fator de risco conhecido. A delimitação nítida é o termo-chave que diferencia da celulite.
Alternativa B — ❌ Incorreta
O pé diabético infectado é uma complicação do diabetes que envolve úlcera neuropática ou isquêmica, geralmente indolor (neuropática) ou com dor que melhora com a perna pendente (isquêmica), com alterações tróficas, deformidades e calosidades. O caso de João não descreve úlcera, deformidade ou alteração de sensibilidade — descreve uma placa eritematosa aguda e bem delimitada, sem solução de continuidade aparente. O diabetes é um fator de risco, mas não define o diagnóstico de pé diabético.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Queimadura é uma lesão térmica, química ou elétrica, com história de exposição ao agente causal. O quadro de João é de início súbito com febre e sinais flogísticos, sem relato de exposição a calor ou substância cáustica. A placa eritematosa da queimadura tem bordas que acompanham a área exposta, não uma delimitação "bem delimitada" no sentido de processo infeccioso, e não cursa com febre como manifestação inicial típica.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A celulite também é uma infecção de pele e partes moles, com febre, dor, edema e eritema, mas a lesão é mal delimitada, difusa, sem bordas nítidas, pois acomete a derme profunda e o subcutâneo. O enunciado destaca que a placa é "bem delimitada", o que é característico da erisipela, não da celulite. Essa é a distinção semiológica clássica que a banca explora.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Trauma contuso causaria dor, edema e equimose (coloração violácea), não uma placa eritematosa bem delimitada com febre e calor local. Além disso, não há relato de trauma no enunciado, e a febre não é esperada em trauma contuso sem infecção secundária. O Doppler negativo não se relaciona com trauma, e o quadro inflamatório agudo com febre aponta para processo infeccioso.
A regra de ouro para a prova: diante de edema unilateral agudo de membro inferior, pense primeiro em TVP (afastada pelo Doppler) e depois em infecção de partes moles. Entre erisipela e celulite, o discriminador é a delimitação da lesão — bem delimitada = erisipela; mal delimitada = celulite.