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Questão de Português — Pontuação — CESPE / CEBRASPE 2025

PortuguêsPontuação
Código
ce216068
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
TCE-MS
Ano
2025
Nível
Superior
Cargo
Auditor de Controle Externo - Área: Direito
Texto CG2A2-I


     BONS DIAS!

    Eu pertenço a uma família de profetas, après-coup, post factum, depois do gato morto, ou como melhor nome tenha em holandês. Por isso digo, juro se necessário for, que toda a história desta lei de 13 de maio estava por mim prevista, tanto que na segunda-feira, antes mesmo dos debates, tratei de alforriar um molecote que tinha seus dezoito anos, mais ou menos. Alforriá-lo era nada; entendi que, perdido por mil, perdido por mil e quinhentos, e dei um jantar.

   Neste jantar, a que meus amigos deram o nome de banquete, em falta de outro melhor, reuni umas cinco pessoas, conquanto as notícias dissessem trinta e três (anos de Cristo), no intuito de lhe dar um aspecto simbólico.

   No golpe do meio (coupe do milieu, mas eu prefiro falar a minha língua) levantei-me eu com a taça de champanha e declarei que, acompanhando as ideias pregadas por Cristo, há dezoito séculos, restituía a liberdade ao meu escravo Pancrácio; que entendia que a nação inteira devia acompanhar as mesmas ideias e imitar o meu exemplo; finalmente, que a liberdade era um dom de Deus que os homens não podiam roubar sem pecado.

   Pancrácio, que estava à espreita, entrou na sala, como um furacão, e veio abraçar-me os pés. Um dos meus amigos (creio que ainda meu sobrinho) pegou de outra taça e pediu à ilustre assembleia que correspondesse ao ato que acabava de publicar brindando ao primeiro dos cariocas. Ouvi cabisbaixo: fiz outro discurso agradecendo, e entreguei a carta ao molecote. Todos os lenços comovidos apanharam as lágrimas de admiração. Caí na cadeira e não vi mais nada. De noite, recebi muitos cartões. Creio que estão pintando o meu retrato, e suponho que a óleo.

   No dia seguinte, chamei o Pancrácio e disse-lhe com rara franqueza:

   — Tu és livre, podes ir para onde quiseres. Aqui tens casa amiga, já conhecida, e tens mais um ordenado, um ordenado que...

   — Oh! meu senhô, fico.

  — Um ordenado pequeno, mas que há de crescer. Tudo cresce neste mundo: tu cresceste imensamente. Quando nasceste eras um pirralho deste tamanho; hoje estás mais alto que eu. Deixa ver; olha, és mais alto quatro dedos...

   — Artura não qué dizê nada, não, senhô...

   — Pequeno ordenado, repito, uns seis mil-réis: mas é de grão em grão que a galinha enche o seu papo. Tu vales muito mais que uma galinha.

   — Justamente. Pois seis mil-réis. No fim de um ano, se andares bem, conta com oito. Oito ou sete.

   Pancrácio aceitou tudo: aceitou até um peteleco que lhe dei no dia seguinte, por me não escovar bem as botas; efeitos da liberdade. Mas eu expliquei-lhe que o peteleco, sendo um impulso natural, não podia anular o direito civil adquirido por um título que lhe dei. Ele continuava livre, eu de mau humor; eram dois estados naturais, quase divinos.

   Tudo compreendeu o meu bom Pancrácio: daí para cá, tenho-lhe despedido alguns pontapés, um ou outro puxão de orelhas, e chamo-lhe besta quando lhe não chamo filho do diabo; cousas todas que ele recebe humildemente, e (Deus me perdoe!) creio que até alegre.

   O meu plano está feito; quero ser deputado, e, na circular que mandarei aos meus eleitores, direi que, antes, muito antes de abolição legal, já eu em casa, na modéstia da família, libertava um escravo, ato que comoveu a toda a gente que dele teve notícia; que esse escravo, tendo aprendido a ler, escrever e contar, (simples suposição) é então professor de filosofia no Rio das Cobras; que os homens puros, grandes e verdadeiramente políticos, não são os que obedecem à lei, mas os que se antecipam a ela, dizendo ao escravo: és livre, antes que o digam os poderes públicos, sempre retardatários, trôpegos e incapazes de restaurar a justiça na terra, para satisfação do céu.

   Boas noites!


Machado de Assis. 19 maio de 1888. In: Obra Completa. Vol III. 3.ª ed. Rio de Janeiro: José Aguilar, 1973, p. 489 – 491 (com adaptações).  
Assinale a opção correta no que se refere aos aspectos linguísticos do seguinte trecho do texto CG2A2-I: “Pancrácio aceitou tudo: aceitou até um peteleco que lhe dei no dia seguinte, por me não escovar bem as botas; efeitos da liberdade.”
  1. AO segmento “efeitos da liberdade” funciona sintaticamente como aposto, pois retoma e explica o termo “um peteleco”.
  2. BO emprego do sinal de dois pontos sinaliza uma pausa breve entre os termos da oração e introduz um aposto — “aceitou até um peteleco”.
  3. CA expressão temporal “no dia seguinte” poderia ser deslocada, com o devido ajuste de iniciais maiúsculas e minúsculas, para o início do período, sem prejuízo da correção gramatical ou dos sentidos do texto.
  4. DNa estrutura “por me não escovar bem as botas”, o pronome átono pode ocupar, com correção, a posição proclítica ao verbo — por não me escovar bem as botas —, sem prejuízo do sentido, tampouco da correção gramatical.
  5. EA estrutura “um peteleco que lhe dei” poderia ser reescrita, com correção gramatical e manutenção dos sentidos do texto, como um peteleco que lhe foi dado.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoD — Na estrutura “por me não escovar bem as botas”, o pronome átono pode ocupar, com correção, a posição proclítica ao verbo — por não me escovar bem as botas —, sem prejuízo do sentido, tampouco da correção gramatical.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Análise dos aspectos linguísticos do trecho

Gabarito: letra D. A única alternativa correta é a D, pois a reescrita "por não me escovar bem as botas" (colocação proclítica do pronome "me" ao infinitivo) está de acordo com a norma culta e preserva o sentido original. As demais alternativas contêm erros de análise sintática ou alteram indevidamente o significado do texto.

Alternativa A — ❌ Incorreta

O segmento "efeitos da liberdade" não funciona como aposto do termo "um peteleco". O aposto explica ou especifica um substantivo ou pronome antecedente; aqui, "efeitos da liberdade" comenta toda a ação anterior (aceitar o peteleco como consequência da liberdade), mas não retoma diretamente "peteleco". Trata‑se de uma oração reduzida ou de um comentário isolado, não de um aposto.

Alternativa B — ❌ Incorreta

O sinal de dois pontos introduz uma enumeração/explicação do que foi "tudo" aceito, mas o termo "aceitou até um peteleco" é uma oração (verbo + complemento), não um aposto. Aposto é termo nominal, não verbal.

Alternativa C — ❌ Incorreta

Deslocar "no dia seguinte" para o início do período altera o sentido. No original:

"aceitou até um peteleco que lhe dei no dia seguinte, por me não escovar bem as botas"

a expressão temporal modifica o verbo "dei" (o ato de dar ocorreu no dia seguinte). Se deslocada para o início:

"No dia seguinte, aceitou até um peteleco que lhe dei, por me não escovar bem as botas"

a expressão passaria a modificar "aceitou" (o ato de aceitar ocorreu no dia seguinte), o que não corresponde ao texto original. Portanto, há prejuízo de sentido.

Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A estrutura original "por me não escovar" apresenta o pronome átono antes da palavra negativa. A norma culta permite, com infinitivo regido por preposição, a próclise ao verbo após o advérbio de negação: "por não me escovar". Ambas as formas são gramaticais e semanticamente equivalentes. A reescrita não altera o sentido e está correta.

Alternativa E — ❌ Incorreta

A reescrita passiva "um peteleco que lhe foi dado" omite o agente da ação (quem deu). No original, "que lhe dei" enfatiza que o narrador‑personagem foi o autor do peteleco. A voz passiva, sem o complemento "por mim", apaga essa informação, alterando o sentido do texto.

Conclusão: Apenas a alternativa D mantém a correção gramatical e o sentido original do trecho.

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