Caracterização do narrador em "Bons Dias!"
Gabarito: letra A. O narrador revela que libertou o escravo como ato de iniciativa própria e vantajosa para seus planos pessoais, não por justiça. Isso é sustentado pela ironia do texto e pelos planos futuros de usar o feito para se eleger deputado.
A questão exige identificar a alternativa que melhor descreve a caracterização do personagem-narrador no texto de Machado de Assis. O narrador, um fazendeiro que liberta um escravo às vésperas da Lei Áurea, é marcado por um tom irônico e contraditório: prega a liberdade mas continua maltratando Pancrácio, e planeja usar o ato para benefício político.
Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A alternativa A afirma que o narrador apresenta a libertação como ato de iniciativa própria, independente da decisão governamental, por considerá-lo vantajoso para seus planos pessoais, não por justiça. O texto comprova essa leitura em várias passagens:
"Eu pertenço a uma família de profetas, après-coup, post factum, depois do gato morto..." (ironia: ele é "profeta" depois do fato)
"antes, muito antes da abolição legal, já eu em casa, na modéstia da família, libertava um escravo"
"O meu plano está feito; quero ser deputado, e, na circular que mandarei aos meus eleitores, direi que..."
O narrador não age por justiça; ele mesmo diz "perdido por mil, perdido por mil e quinhentos" (se já estava comprometido, aproveitou para ganhar capital político). Portanto, a alternativa A é a única inteiramente sustentada pelo texto.
Alternativa B — ❌ Incorreta
B afirma que o narrador é um profeta com capacidade divina herdada da família. O texto, porém, usa a expressão "família de profetas, après-coup" em tom claramente irônico: profeta depois do fato não é profeta. Não há atribuição de poder divino; é uma autodepreciação irônica. A alternativa comete o erro de troca de conceito (confunde ironia com literalidade).
Alternativa C — ❌ Incorreta
C diz que o narrador é "verdadeiramente abolicionista" e benfeitor. O texto desmente isso logo em seguida:
"aceitou até um peteleco que lhe dei no dia seguinte, por me não escovar bem as botas; efeitos da liberdade... tenho-lhe despedido alguns pontapés, um ou outro puxão de orelhas, e chamo-lhe besta"
O comportamento pós-libertação é de violência e exploração, contradizendo qualquer altruísmo. A alternativa contradiz o texto.
Alternativa D — ❌ Incorreta
D afirma que o narrador se ressente por ter libertado o escravo post factum, comprometendo sua superioridade moral. O narrador, ao contrário, orgulha-se de ter se antecipado à lei e usa isso para se promover. A expressão "post factum" é irônica, não expressa arrependimento. A alternativa contradiz o texto.
Alternativa E — ❌ Incorreta
E diz que o narrador se vê como representante da corte e gosta de contribuir financeiramente para confraternizações com causa social. Não há menção a "corte" no texto; ele dá um jantar para amigos, não para a corte. A ideia de "contribuir financeiramente para causa social" é uma extrapolação (informação externa ao texto).
Gabarito: letra A.