Análise literária do conto "O segredo do Bonzo" – Machado de Assis
Gabarito: letra B. A alternativa B é a única que capta a essência do texto: a contradição entre essência (o nariz real e ausente) e aparência (o nariz metafísico, invisível mas aceito). No conto, os doentes preferem carregar um nariz inchado e horrendo a ficar sem ele, e Diogo Meireles os engana prometendo um nariz "de pura natureza metafísica, isto é, inacessível aos sentidos humanos, e contudo tão verdadeiro ou ainda mais do que o cortado" (5º parágrafo). Após a cirurgia, "olhavam uns para os outros, e não viam nada no lugar do órgão cortado; mas, certos e certíssimos de que ali estava o órgão substituto, e que este era inacessível aos sentidos humanos, não se davam por defraudados" (final). Isso ilustra perfeitamente o contraste entre a realidade objetiva (a falta do nariz) e a aparência subjetiva (a crença no nariz invisível).
Alternativa A — ❌ Incorreta
O texto possui elementos grotescos (narizes inchados), mas não adota a perspectiva naturalista. O Naturalismo (fim do século XIX) enfatiza o determinismo biológico e social, enquanto Machado de Assis usa o grotesco como recurso satírico para criticar a credulidade humana. O conto é uma alegoria filosófica, não um estudo naturalista. Erro: contradiz o texto (atribui um movimento literário que o autor não segue).
Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Conforme demonstrado, a narrativa transfigura uma contradição real – a dicotomia entre essência e aparência – em forma fictícia. O "nariz metafísico" representa a aparência ilusória que os indivíduos aceitam como verdade, enquanto a essência (a falta real) é ignorada. A passagem citada comprova essa leitura.
Alternativa C — ❌ Incorreta
O conto não é um conto de fadas. Embora haja um elemento fantástico (o nariz invisível), ele é apresentado como uma farsa, não como magia real. O texto é uma sátira, com intenção crítica, e não uma narrativa maravilhosa. Erro: troca de conceito (confunde gênero satírico com conto de fadas).
Alternativa D — ❌ Incorreta
Afirmar que o texto "se afasta do Realismo" é incorreto. Machado de Assis é um dos maiores expoentes do Realismo brasileiro. O uso de elementos fantasiosos não o afasta do Realismo; ao contrário, insere-se na tradição realista de crítica social por meio da ironia e do fantástico. O nariz metafísico é um recurso estilístico dentro do Realismo. Erro: contradiz o texto (nega a filiação realista do autor).
Alternativa E — ❌ Incorreta
O Modernismo e o Surrealismo são movimentos do século XX, posteriores à produção machadiana (século XIX). Não há qualquer filiação do texto a esses movimentos. A narrativa não utiliza técnicas surrealistas (como automatismo psíquico); é uma construção lógica e irônica. Erro: fora do escopo (anacronismo histórico-literário).
Conclusão: Apenas a alternativa B descreve corretamente a temática central do conto – o contraste entre essência e aparência –, confirmada por passagens explícitas do texto.