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Questão de Português — Interpretação de Textos — CESPE / CEBRASPE 2025

PortuguêsInterpretação de Textos
Código
ce221696
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
UERR
Ano
2025
Nível
Médio
Cargo
Vestibular
Mas, como digo, a mais engenhosa de todas as nossas experiências foi a de Diogo Meireles. Lavrava então na cidade uma singular doença, que consistia em fazer inchar os narizes, tanto e tanto, que tomavam metade e mais da cara ao paciente, e não só a punham horrenda, senão que era molesto carregar tamanho peso. Conquanto os físicos da terra propusessem extrair os narizes inchados, para alívio e melhoria dos enfermos, nenhum destes consentia em prestar-se ao curativo, preferindo o excesso à lacuna, e tendo por mais aborrecível que nenhuma outra coisa a ausência daquele órgão. Diogo Meireles, que desde algum tempo praticava a medicina, segundo ficou dito atrás, estudou a moléstia e reconheceu que não havia perigo em desnarigar os doentes, antes era vantajoso por lhes levar o mal, sem trazer fealdade, pois tanto valia um nariz disforme e pesado como nenhum; não alcançou, todavia, persuadir os infelizes ao sacrifício. Então ocorreu-lhe uma graciosa invenção. Assim foi que, reunindo muitos físicos, filósofos, bonzos, autoridades e povo, comunicou-lhes que tinha um segredo para eliminar o órgão; e esse segredo era nada menos que substituir o nariz achacado por um nariz são, mas de pura natureza metafísica, isto é, inacessível aos sentidos humanos, e contudo tão verdadeiro ou ainda mais do que o cortado; cura esta praticada por ele em várias partes, e muito aceita aos físicos de Malabar. A assembleia aclamou a Diogo Meireles; e os doentes começaram de buscá-lo, em tanta cópia, que ele não tinha mãos a medir. Diogo Meireles desnarigava-os com muitíssima arte; depois estendia delicadamente os dedos a uma caixa, onde fingia ter os narizes substitutos, colhia um e aplicava-o ao lugar vazio. Os enfermos, assim curados e supridos, olhavam uns para os outros, e não viam nada no lugar do órgão cortado; mas, certos e certíssimos de que ali estava o órgão substituto, e que este era inacessível aos sentidos humanos, não se davam por defraudados, e tornavam aos seus ofícios.Machado de Assis. O segredo do Bonzo. In: 50 Contos de Machado de Assis. Selecionados por John Gledson. São Paulo: Companhia das Letras, 2007, p. 95. Os elementos temáticos e estruturais do texto precedente permitem afirmar que tal composição
  1. Aadota a perspectiva naturalista da sociedade ao recorrer ao grotesco e ao irracional.
  2. Btransfigura em forma fictícia uma contradição real: o contraste entre essência e aparência.
  3. Capresenta uma incursão do autor no mundo dos contos de fadas.
  4. Dafasta-se do Realismo por empregar recursos estéticos fantasiosos.
  5. Ealia-se às vanguardas modernistas ao fazer uso de formas estéticas surrealistas.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoB — transfigura em forma fictícia uma contradição real: o contraste entre essência e aparência.

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Análise literária do conto "O segredo do Bonzo" – Machado de Assis

Gabarito: letra B. A alternativa B é a única que capta a essência do texto: a contradição entre essência (o nariz real e ausente) e aparência (o nariz metafísico, invisível mas aceito). No conto, os doentes preferem carregar um nariz inchado e horrendo a ficar sem ele, e Diogo Meireles os engana prometendo um nariz "de pura natureza metafísica, isto é, inacessível aos sentidos humanos, e contudo tão verdadeiro ou ainda mais do que o cortado" (5º parágrafo). Após a cirurgia, "olhavam uns para os outros, e não viam nada no lugar do órgão cortado; mas, certos e certíssimos de que ali estava o órgão substituto, e que este era inacessível aos sentidos humanos, não se davam por defraudados" (final). Isso ilustra perfeitamente o contraste entre a realidade objetiva (a falta do nariz) e a aparência subjetiva (a crença no nariz invisível).

Alternativa A — ❌ Incorreta

O texto possui elementos grotescos (narizes inchados), mas não adota a perspectiva naturalista. O Naturalismo (fim do século XIX) enfatiza o determinismo biológico e social, enquanto Machado de Assis usa o grotesco como recurso satírico para criticar a credulidade humana. O conto é uma alegoria filosófica, não um estudo naturalista. Erro: contradiz o texto (atribui um movimento literário que o autor não segue).

Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO

Conforme demonstrado, a narrativa transfigura uma contradição real – a dicotomia entre essência e aparência – em forma fictícia. O "nariz metafísico" representa a aparência ilusória que os indivíduos aceitam como verdade, enquanto a essência (a falta real) é ignorada. A passagem citada comprova essa leitura.

Alternativa C — ❌ Incorreta

O conto não é um conto de fadas. Embora haja um elemento fantástico (o nariz invisível), ele é apresentado como uma farsa, não como magia real. O texto é uma sátira, com intenção crítica, e não uma narrativa maravilhosa. Erro: troca de conceito (confunde gênero satírico com conto de fadas).

Alternativa D — ❌ Incorreta

Afirmar que o texto "se afasta do Realismo" é incorreto. Machado de Assis é um dos maiores expoentes do Realismo brasileiro. O uso de elementos fantasiosos não o afasta do Realismo; ao contrário, insere-se na tradição realista de crítica social por meio da ironia e do fantástico. O nariz metafísico é um recurso estilístico dentro do Realismo. Erro: contradiz o texto (nega a filiação realista do autor).

Alternativa E — ❌ Incorreta

O Modernismo e o Surrealismo são movimentos do século XX, posteriores à produção machadiana (século XIX). Não há qualquer filiação do texto a esses movimentos. A narrativa não utiliza técnicas surrealistas (como automatismo psíquico); é uma construção lógica e irônica. Erro: fora do escopo (anacronismo histórico-literário).

Conclusão: Apenas a alternativa B descreve corretamente a temática central do conto – o contraste entre essência e aparência –, confirmada por passagens explícitas do texto.

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