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Questão de Português — Funções morfossintáticas da palavra SE — CESPE / CEBRASPE 2025

PortuguêsFunções morfossintáticas da palavra SE
Código
ce222659
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
CAESB-DF
Ano
2025
Nível
Médio
Texto CG2A1


    Já se descobriu, há muito tempo, que os prazeres podem ser divididos em dois tipos: aqueles que não seriam prazeres propriamente ditos, a não ser que sejam precedidos pelo desejo; e aqueles que são prazeres em si e dispensam qualquer preparação. Podemos denominar esses dois tipos, respectivamente, de prazeres-necessidade e prazeres de apreciação.
     Um exemplo do primeiro tipo seria um gole de água. Isso seria considerado um prazer se você estivesse com sede, e um grande prazer se estivesse sedento. Contudo, é bem provável que não haja ninguém no mundo, exceto em obediência à sede ou às ordens do médico, que tenha enchido um copo de água para beber apenas pelo prazer que isso lhe dá. Um exemplo do segundo tipo seriam os prazeres inesperados e surpreendentes do olfato — o suave aroma de campos floridos ou de plantações de ervilhas que surgem em sua caminhada matinal pelo campo. Antes disso, você não tinha necessidade de nada: estava completamente satisfeito. O prazer desses perfumes não foi solicitado; pelo contrário, foi uma dádiva adicional. 
    A pessoa que estava sedenta e acabou de beber uma grande quantidade de água poderá dizer: “poxa vida, era isso o que eu queria”. A pessoa que passa pela plantação de ervilhas em sua caminhada matinal está mais propensa a dizer: “este perfume é maravilhoso”. Após o primeiro gole de um famoso vinho tinto, o especialista poderá dizer: “este é um grande vinho”. Quando prazeres-necessidade estão em evidência, tendemos a fazer afirmações a respeito de nós mesmos no tempo passado; quando prazeres de apreciação estão em evidência, inclinamo-nos a fazer afirmações sobre o objeto no tempo presente. Os mais inocentes e necessários prazeres-necessidade não são odiados depois de nós os termos, mas certamente “morrem em nós” de forma extraordinariamente abrupta e completa. A torneira da pia e o copo cheio são mesmo muito atraentes quando entramos em casa com sede depois de cortar a grama do jardim; entretanto, seis segundos depois, se tornam vazios de qualquer interesse.
     Os prazeres de apreciação são muito diferentes. Fazemnos sentir que algo não apenas satisfez nossos sentidos, mas reivindica nossa apreciação por direito. O especialista em vinhos não aprecia seu vinho tinto da mesma forma com que teria ficado satisfeito em esquentar seus pés se estivessem frios. Ele sente que aqui está um vinho que merece toda a sua atenção; que justifica todos os anos de treinamento que fizeram seu paladar se tornar apto para julgá-lo. Há, inclusive, uma pitada de desprendimento em sua atitude. Ele deseja que o vinho seja preservado e mantido em boa condição, não inteiramente por razões pessoais. Mesmo se ele estivesse em seu leito de morte e nunca mais fosse beber vinho de novo, ficaria horrorizado com a ideia de que esse vinho especial fosse derramado ou estragado, ou mesmo bebido por pessoas não sofisticadas (como eu), incapazes de saber a diferença entre um bom e um mau vinho tinto. Assim acontece também com a pessoa que passa pela plantação de ervilhas. Essa pessoa não apenas aprecia como também sente que aquela fragrância, de alguma forma, merece ser apreciada. Iria culpar-se caso passasse pelo campo sem dar atenção ou sem se contentar. Isso seria estúpido, insensível. Essa pessoa se lamentará quando ouvir que aquele jardim, pelo qual passou um dia em sua caminhada, foi agora engolido por cinemas, por garagens e por um novo viaduto.
     Do ponto de vista científico, ambos os prazeres são, sem dúvida, relativos aos nossos organismos. No entanto, os prazeresnecessidade anunciam, de uma forma ruidosa, sua relatividade não apenas à nossa constituição humana, mas à sua condição passageira, e, fora desta relação, não possuem significado ou interesse para nós. Os objetos que produzem prazeres de apreciação oferecem o sentimento — irracional ou não — de que devem, de algum modo, receber atenção, ser degustados e louvados. Contudo, jamais deveríamos sentir algo parecido com relação a um prazer-necessidade: nunca deveríamos nos culpar, ou culpar os outros, por não sentir sede e, portanto, passar por um poço sem beber um gole de água.


C. S. Lewis. Os quatro amores. Tradução: Estevan Kirschner. 1.ª ed. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2017 (com adaptações).  
No trecho “Já se descobriu, há muito tempo, que os prazeres podem ser divididos em dois tipos” (primeiro período do texto CG2A1), o vocábulo “se”
  1. Arevela que a primeira oração do trecho não tem sujeito gramatical.
  2. Bindica que a primeira oração do trecho está na voz passiva.
  3. Cexprime ideia de reflexividade na oração em que se insere.
  4. Dtem valor condicional na oração em que se insere.
  5. Efunciona como sujeito da forma verbal “descobriu”.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoB — indica que a primeira oração do trecho está na voz passiva.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Função do "se" em "Já se descobriu"

Gabarito: B. No trecho "Já se descobriu, há muito tempo, que os prazeres podem ser divididos em dois tipos", o vocábulo "se" é uma partícula apassivadora, convertendo a oração para a voz passiva sintética. A forma "descobriu-se" equivale a "foi descoberto", e o sujeito paciente é a oração subordinada substantiva subjetiva "que os prazeres podem ser divididos em dois tipos".

A banca cobra a identificação da função morfossintática do "se" no contexto. Vamos analisar cada alternativa:

Alternativa A — ❌ Incorreta

Afirma que "a primeira oração do trecho não tem sujeito gramatical". Erro: A oração tem sujeito: a oração subordinada introduzida por "que" funciona como sujeito paciente do verbo "descobrir" na voz passiva. O "se" não indetermina o sujeito; ele apassiva a construção.

Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO

"Indica que a primeira oração do trecho está na voz passiva." Correto. O verbo "descobrir" é transitivo direto, e o pronome "se" o transforma em voz passiva sintética. O sujeito (a oração "que...") recebe a ação.

Alternativa C — ❌ Incorreta

"Exprime ideia de reflexividade na oração em que se insere." Erro: Reflexividade ocorre quando o sujeito pratica e sofre a ação (ex.: "ele se feriu"). Aqui não há ação do sujeito sobre si mesmo; o "se" é apassivador, não reflexivo.

Alternativa D — ❌ Incorreta

"Tem valor condicional na oração em que se insere." Erro: O "se" condicional equivale a "caso" e aparece em orações subordinadas adverbiais condicionais (ex.: "se chover, não saio"). No trecho, o "se" não introduz condição alguma; é partícula integrante da voz passiva.

Alternativa E — ❌ Incorreta

"Funciona como sujeito da forma verbal 'descobriu'." Erro: O sujeito da forma verbal "descobriu" é a oração subordinada "que os prazeres podem ser divididos...". O "se" é apenas um índice de voz passiva, não exerce função de sujeito.

NÃO CAIA NESSA!

A banca tenta confundir o candidato com outras funções do "se" (reflexivo, condicional, sujeito, oração sem sujeito). A chave é reconhecer que o verbo "descobrir" é transitivo direto e que o "se" o apassiva, mantendo o sujeito explícito na forma de oração.

Conclusão: O "se" em "Já se descobriu" é partícula apassivadora, e a oração está na voz passiva sintética. Portanto, a alternativa B é a correta.

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