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Questão de Português — Pontuação — CESPE / CEBRASPE 2025

PortuguêsPontuação
Código
ce222660
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
CAESB-DF
Ano
2025
Nível
Médio
Texto CG2A1


    Já se descobriu, há muito tempo, que os prazeres podem ser divididos em dois tipos: aqueles que não seriam prazeres propriamente ditos, a não ser que sejam precedidos pelo desejo; e aqueles que são prazeres em si e dispensam qualquer preparação. Podemos denominar esses dois tipos, respectivamente, de prazeres-necessidade e prazeres de apreciação.
     Um exemplo do primeiro tipo seria um gole de água. Isso seria considerado um prazer se você estivesse com sede, e um grande prazer se estivesse sedento. Contudo, é bem provável que não haja ninguém no mundo, exceto em obediência à sede ou às ordens do médico, que tenha enchido um copo de água para beber apenas pelo prazer que isso lhe dá. Um exemplo do segundo tipo seriam os prazeres inesperados e surpreendentes do olfato — o suave aroma de campos floridos ou de plantações de ervilhas que surgem em sua caminhada matinal pelo campo. Antes disso, você não tinha necessidade de nada: estava completamente satisfeito. O prazer desses perfumes não foi solicitado; pelo contrário, foi uma dádiva adicional. 
    A pessoa que estava sedenta e acabou de beber uma grande quantidade de água poderá dizer: “poxa vida, era isso o que eu queria”. A pessoa que passa pela plantação de ervilhas em sua caminhada matinal está mais propensa a dizer: “este perfume é maravilhoso”. Após o primeiro gole de um famoso vinho tinto, o especialista poderá dizer: “este é um grande vinho”. Quando prazeres-necessidade estão em evidência, tendemos a fazer afirmações a respeito de nós mesmos no tempo passado; quando prazeres de apreciação estão em evidência, inclinamo-nos a fazer afirmações sobre o objeto no tempo presente. Os mais inocentes e necessários prazeres-necessidade não são odiados depois de nós os termos, mas certamente “morrem em nós” de forma extraordinariamente abrupta e completa. A torneira da pia e o copo cheio são mesmo muito atraentes quando entramos em casa com sede depois de cortar a grama do jardim; entretanto, seis segundos depois, se tornam vazios de qualquer interesse.
     Os prazeres de apreciação são muito diferentes. Fazemnos sentir que algo não apenas satisfez nossos sentidos, mas reivindica nossa apreciação por direito. O especialista em vinhos não aprecia seu vinho tinto da mesma forma com que teria ficado satisfeito em esquentar seus pés se estivessem frios. Ele sente que aqui está um vinho que merece toda a sua atenção; que justifica todos os anos de treinamento que fizeram seu paladar se tornar apto para julgá-lo. Há, inclusive, uma pitada de desprendimento em sua atitude. Ele deseja que o vinho seja preservado e mantido em boa condição, não inteiramente por razões pessoais. Mesmo se ele estivesse em seu leito de morte e nunca mais fosse beber vinho de novo, ficaria horrorizado com a ideia de que esse vinho especial fosse derramado ou estragado, ou mesmo bebido por pessoas não sofisticadas (como eu), incapazes de saber a diferença entre um bom e um mau vinho tinto. Assim acontece também com a pessoa que passa pela plantação de ervilhas. Essa pessoa não apenas aprecia como também sente que aquela fragrância, de alguma forma, merece ser apreciada. Iria culpar-se caso passasse pelo campo sem dar atenção ou sem se contentar. Isso seria estúpido, insensível. Essa pessoa se lamentará quando ouvir que aquele jardim, pelo qual passou um dia em sua caminhada, foi agora engolido por cinemas, por garagens e por um novo viaduto.
     Do ponto de vista científico, ambos os prazeres são, sem dúvida, relativos aos nossos organismos. No entanto, os prazeresnecessidade anunciam, de uma forma ruidosa, sua relatividade não apenas à nossa constituição humana, mas à sua condição passageira, e, fora desta relação, não possuem significado ou interesse para nós. Os objetos que produzem prazeres de apreciação oferecem o sentimento — irracional ou não — de que devem, de algum modo, receber atenção, ser degustados e louvados. Contudo, jamais deveríamos sentir algo parecido com relação a um prazer-necessidade: nunca deveríamos nos culpar, ou culpar os outros, por não sentir sede e, portanto, passar por um poço sem beber um gole de água.


C. S. Lewis. Os quatro amores. Tradução: Estevan Kirschner. 1.ª ed. Rio de Janeiro: Thomas Nelson Brasil, 2017 (com adaptações).  
No primeiro período do texto CG2A1, o sinal de dois-pontos introduz, a respeito da oração que o antecede,
  1. Aum esclarecimento.
  2. Buma exemplificação.
  3. Cuma citação.
  4. Duma consequência.
  5. Euma conclusão.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoA — um esclarecimento.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Análise da função dos dois-pontos no primeiro período do texto CG2A1

Gabarito: A. O sinal de dois-pontos introduz um esclarecimento (clarificação) sobre a oração que o antecede, pois detalha a divisão dos prazeres em dois tipos, explicando quais são.

O primeiro período do texto é:

"Já se descobriu, há muito tempo, que os prazeres podem ser divididos em dois tipos: aqueles que não seriam prazeres propriamente ditos, a não ser que sejam precedidos pelo desejo; e aqueles que são prazeres em si e dispensam qualquer preparação."

Após a palavra "tipos", os dois-pontos introduzem a enumeração e a definição dos dois tipos mencionados. Isso não é um exemplo (exemplificação), nem uma citação, consequência ou conclusão. Trata-se de um esclarecimento: o autor explica o que são esses dois tipos.

Alternativas

1Esclarecimento (GABARITO)
Explica/define o que foi dito
2Exemplificação
Caso concreto para ilustrar
3Citação
Reprodução de fala/texto alheio
4Consequência
Efeito/resultado
5Conclusão
Fechamento do raciocínio
Função dos dois-pontos
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Função dos dois-pontos: Esclarecimento (GABARITO) (Explica/define o que foi dito); Exemplificação (Caso concreto para ilustrar); Citação (Reprodução de fala/texto alheio); Consequência (Efeito/resultado); Conclusão (Fechamento do raciocínio)

Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO

Os dois-pontos introduzem um esclarecimento, pois explicitam a natureza dos dois tipos de prazeres. O texto não dá exemplos; ele define as categorias.

Alternativa B — ❌ Incorreta

Erro: troca_conceito. Exemplificação seria apresentar um caso concreto para ilustrar uma ideia (ex.: "como um gole de água"), mas aqui há uma definição geral, não um exemplo. A confusão ocorre porque o texto depois traz exemplos, mas no primeiro período não há exemplificação.

Alternativa C — ❌ Incorreta

Erro: troca_conceito. Citação é reprodução de fala ou texto de outrem. O período não contém citação direta; é fala do próprio autor.

Alternativa D — ❌ Incorreta

Erro: troca_conceito. Consequência é um efeito ou resultado de algo. A oração após os dois-pontos não expressa consequência, mas sim o conteúdo da divisão.

Alternativa E — ❌ Incorreta

Erro: troca_conceito. Conclusão é o fechamento de um raciocínio. O que vem após os dois-pontos é a abertura da explicação, não o encerramento.

PEGA ESSA DICA!

Ao analisar a função dos dois-pontos, pergunte: o que vem depois explica, exemplifica, cita, conclui ou enumera? No texto, a sequência explica o que são os dois tipos.

Gabarito: A.

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