Questão de Química — Relações da Química com as Tecnologias, a Sociedade e o Meio Ambiente — CESPE / CEBRASPE 2026
Química›Relações da Química com as Tecnologias, a Sociedade e o Meio Ambiente
Código
ce227096
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
SEDUC-PI
Ano
2026
Nível
Superior
Cargo
Professor da Educação Básica - Disciplina: Química
Ao revisar o planejamento anual do ensino médio, um professor de química decidiu analisar criticamente o currículo adotado pela escola. Ele observou queI o livro didático apresenta modelos atômicos como sucessão linear e cumulativa (Dalton → Thomson → Rutherford → Bohr), sem problematizar seus limites epistemológicos;II avanços contemporâneos da química, como modelagem computacional molecular e espectroscopia moderna, aparecem apenas como curiosidades;III o tratamento de conteúdos como ligações químicas e forças intermoleculares privilegia classificações estáticas, sem explorar seu caráter explicativo e modelar;IV o planejamento curricular organiza os conteúdos exclusivamente por tópicos tradicionais, sem diálogo com problemas contemporâneos ou contextos sociotécnicos.Com base na Base Nacional Comum Curricular (BNCC) e na construção do conhecimento no ensino de química, assinale a opção que apresenta uma análise consistente dos achados do professor referido na situação hipotética precedente.
ADiante das observações realizadas, uma alternativa curricular seria reorganizar o ensino priorizando aplicações tecnológicas contemporâneas e problemas socioambientais relacionados à química, tomando-os eixo estruturante principal, ainda que isso implique reduzir o aprofundamento conceitual abstrato dos modelos atômicos e das ligações químicas, considerados excessivamente teóricos para a educação básica.
BAs observações indicam adequação curricular, pois o conhecimento escolar deve reproduzir a sequência histórica consolidada da ciência e priorizar a organização tradicional por tópicos, independentemente de problematizações epistemológicas ou articulações contemporâneas.
CAs limitações apontadas podem ser consideradas didaticamente justificáveis, uma vez que o conhecimento escolar requer uma transposição didática progressiva dos modelos científicos e organização linear dos conteúdos, sendo a problematização epistemológica e a incorporação de avanços recentes etapas posteriores da formação acadêmica.
DA fragmentação observada no livro é metodologicamente desejável, pois facilita a objetividade avaliativa e evita que debates contemporâneos comprometam a clareza conceitual.
EAs observações revelam a necessidade de reorganizar o currículo de modo que os modelos atômicos sejam tratados como construções históricas provisórias, que as ligações químicas sejam exploradas como ferramentas explicativas, e que conceitos estruturantes dialoguem com avanços científicos e contextos sociotécnicos atuais, preservando rigor conceitual.
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GabaritoE — As observações revelam a necessidade de reorganizar o currículo de modo que os modelos atômicos sejam tratados como construções históricas provisórias, que as ligações químicas sejam exploradas como ferramentas explicativas, e que conceitos estruturantes dialoguem com avanços científicos e contextos sociotécnicos atuais, preservando rigor conceitual.
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Ensino de Química, modelos atômicos e a BNCC
Gabarito: letra E. As observações do professor revelam um currículo que trata os modelos atômicos como sucessão linear e cumulativa, sem problematizar sua natureza de construção histórica e provisória, e que não dialoga com avanços científicos contemporâneos nem com contextos sociotécnicos — exatamente o oposto do que orienta a BNCC para a área de Ciências da Natureza, que valoriza a contextualização, o caráter explicativo e modelar dos conceitos e a formação crítica do estudante. A alternativa E é a única que propõe uma reorganização coerente com esses pressupostos, preservando o rigor conceitual.
O ensino de Química na educação básica, segundo os documentos curriculares oficiais (PCNEM, PCN+ e, mais recentemente, a BNCC), não deve se limitar à transmissão de conteúdos prontos e acabados. A ciência é apresentada como um produto humano, construído historicamente, com limitações, sucessos e sujeito a revisões. O professor, nessa perspectiva, não é um mero transmissor de informações, mas um mediador que ajuda o aluno a compreender como o conhecimento científico é produzido e como ele se relaciona com o mundo. O material de apoio reforça essa visão ao afirmar que o objetivo é "fazer o aluno atingir esse patamar superior de letramento científico", mostrando "o outro mundo por trás de uma equação química, um gráfico ou uma teoria", e ao defender que a aula deve "apresentar a ciência como um produto humano, com suas limitações e sucessos, como um processo construído cotidianamente, dentro de uma sistemática e metodologia próprias, sujeitas a falhas, desacertos e desencontros".
A BNCC, ao tratar da área de Ciências da Natureza e suas Tecnologias, estabelece competências específicas que dialogam diretamente com essa visão. Entre elas, destacam-se a investigação, a análise de situações-problema e a avaliação de aplicações do conhecimento científico e tecnológico em contextos sociais, ambientais e econômicos. O documento orienta que o ensino não se restrinja à memorização de conceitos, mas que promova a compreensão de modelos como representações provisórias e a articulação entre conhecimentos de diferentes áreas. Assim, tratar os modelos atômicos como uma sequência fixa e cumulativa, sem discutir seus limites e sua evolução histórica, contraria a proposta de uma aprendizagem significativa e crítica.
Na prática, isso significa que o professor deve, por exemplo, ao ensinar o modelo de Rutherford, discutir por que ele superou o de Thomson, quais evidências experimentais o sustentaram e quais limitações ele ainda apresentava — em vez de simplesmente apresentá-lo como mais um degrau de uma escada. Da mesma forma, ao abordar ligações químicas e forças intermoleculares, o foco deve estar no caráter explicativo e preditivo desses modelos: por que a água é líquida à temperatura ambiente, por que o diamante é duro, como a polaridade influencia a solubilidade. Essa abordagem torna o conhecimento químico uma ferramenta para interpretar o mundo, e não um conjunto de classificações a serem decoradas.
A pegadinha central desta questão é a tentação de escolher uma alternativa que parece contextualizada, mas que na verdade empobrece o ensino — como a letra A, que propõe priorizar aplicações tecnológicas em detrimento do aprofundamento conceitual. A BNCC não defende a redução do rigor conceitual; pelo contrário, ela busca um equilíbrio entre a construção de conceitos e sua aplicação em contextos reais. A alternativa E é a única que captura essa síntese: modelos como construções históricas provisórias, ligações como ferramentas explicativas e diálogo com avanços científicos e contextos sociotécnicos, preservando o rigor conceitual.
Guarde esse critério: a BNCC não opõe rigor conceitual a contextualização — ela os integra. É exatamente nessa integração que as alternativas se dividem.
Alternativa A — ❌ Incorreta
A alternativa A propõe reorganizar o ensino priorizando aplicações tecnológicas e problemas socioambientais como eixo estruturante principal, ainda que isso implique reduzir o aprofundamento conceitual dos modelos atômicos e das ligações químicas. Esse raciocínio é falho porque a BNCC não defende a substituição do rigor conceitual pela contextualização; ela busca integrar ambos. O documento orienta que os conceitos sejam construídos e aplicados, não que sejam sacrificados em nome de uma suposta relevância. A alternativa confunde contextualização com redução de conteúdo, o que contraria a proposta de uma formação científica sólida e crítica.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A alternativa B afirma que as observações indicam adequação curricular, pois o conhecimento escolar deve reproduzir a sequência histórica consolidada da ciência e priorizar a organização tradicional por tópicos, independentemente de problematizações epistemológicas ou articulações contemporâneas. Isso é exatamente o oposto do que orientam os documentos curriculares. A BNCC e os PCNEM defendem a problematização epistemológica — ou seja, discutir como o conhecimento é produzido, seus limites e sua evolução — e a articulação com contextos contemporâneos. A alternativa B representa uma visão tradicional e ultrapassada de currículo, que a própria BNCC busca superar.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A alternativa C tenta justificar as limitações apontadas como didaticamente aceitáveis, argumentando que a transposição didática progressiva e a organização linear dos conteúdos são necessárias, e que a problematização epistemológica e a incorporação de avanços recentes seriam etapas posteriores da formação acadêmica. Essa visão é equivocada porque a BNCC orienta que a problematização e a contextualização devem estar presentes desde a educação básica, não apenas no ensino superior. O documento defende que o estudante do ensino médio desenvolva uma compreensão crítica da ciência, o que inclui discutir seus limites e sua construção histórica. A alternativa C posterga indevidamente essas discussões, contrariando a proposta de uma formação integral e cidadã.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A alternativa D afirma que a fragmentação observada no livro é metodologicamente desejável, pois facilita a objetividade avaliativa e evita que debates contemporâneos comprometam a clareza conceitual. Essa visão é contrária à BNCC, que valoriza a interdisciplinaridade, a contextualização e a formação crítica. A fragmentação e a ausência de diálogo com questões contemporâneas empobrecem o ensino, tornando-o meramente conteudista e desvinculado da realidade do estudante. A BNCC busca justamente o oposto: um ensino que articule conceitos com problemas reais e que desenvolva a capacidade de análise e argumentação. A alternativa D confunde objetividade avaliativa com qualidade pedagógica, o que não se sustenta à luz dos documentos curriculares.
Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A alternativa E é a única que apresenta uma análise consistente com a BNCC e com a construção do conhecimento no ensino de Química. Ela propõe que os modelos atômicos sejam tratados como construções históricas provisórias, que as ligações químicas sejam exploradas como ferramentas explicativas, e que os conceitos estruturantes dialoguem com avanços científicos e contextos sociotécnicos atuais, preservando o rigor conceitual. Essa proposta está alinhada com a visão de ciência como produto humano, sujeito a revisões, e com a orientação de que o ensino deve promover a compreensão crítica e a aplicação do conhecimento. A alternativa E não sacrifica o rigor em nome da contextualização, mas integra ambos, exatamente como preconiza a BNCC.
PEGA ESSA DICA!
Ao analisar questões sobre currículo e BNCC, desconfie de alternativas que opõem rigor conceitual a contextualização. A BNCC busca integrá-los. Se uma alternativa propõe reduzir o aprofundamento conceitual em nome da relevância, ou defender a organização tradicional sem problematizações, ela provavelmente está incorreta. A resposta correta geralmente equilibra os dois aspectos, como a letra E.