Questão de Medicina — Clínica Médica Humana — CESPE / CEBRASPE 2026
Medicina›Clínica Médica Humana
Código
ce229146
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
TCE-MG
Ano
2026
Nível
Superior
Cargo
Médico
Assinale a opção correta acerca de doenças renais.
AA acidose metabólica com AG (anion gap) elevado, simultânea à acidose respiratória crônica ou à alcalose metabólica, representa uma situação em que a concentração de bicarbonato pode estar normal ou até mesmo elevada.
BCafé, chá, cerveja, vinho e suco de laranja estão associados a um risco aumentado de formação de nefrolitíase.
CA ingestão e a consequente intoxicação por metanol provocam alcalose metabólica
DA alteração primária na síndrome nefrótica corresponde a um aumento da pressão coloidal osmótica, ocasionado, em parte, pela hiperalbuminemia ocorrida.
EEstudos observacionais demonstraram que o oxalato dietético é um fator de risco maior para a formação de nefrolitíase.
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GabaritoA — A acidose metabólica com AG (anion gap) elevado, simultânea à acidose respiratória crônica ou à alcalose metabólica, representa uma situação em que a concentração de bicarbonato pode estar normal ou até mesmo elevada.
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Distúrbios do equilíbrio acidobásico e nefrolitíase
Gabarito: letra A. A acidose metabólica com ânion-gap elevado, quando associada a uma acidose respiratória crônica ou a uma alcalose metabólica, pode apresentar concentração sérica de bicarbonato normal ou até elevada, pois os distúrbios se contrapõem nos seus efeitos sobre o HCO₃⁻. Essa é a base do diagnóstico de distúrbios mistos, em que a gasometria pode ser enganosamente "normal".
O equilíbrio acidobásico é regido pela relação entre o bicarbonato (componente metabólico) e a PaCO₂ (componente respiratório). Quando há um distúrbio primário, o organismo tenta compensar com o outro componente. A acidose metabólica com ânion-gap elevado (AG > 12 mEq/L) ocorre por acúmulo de ácidos não mensurados (lactato, cetoácidos, toxinas, uremia). Nessa condição, o bicarbonato tende a cair, pois é consumido na titulação dos ácidos. Porém, se houver um distúrbio simultâneo que eleve o bicarbonato — como uma alcalose metabólica (vômitos, diuréticos) ou a compensação renal de uma acidose respiratória crônica (retenção de HCO₃⁻) — o valor final do bicarbonato pode ser normal ou até elevado, mascarando a acidose metabólica. O diagnóstico, então, depende do cálculo do ânion-gap e da comparação entre a variação do AG (ΔAG) e a variação do HCO₃⁻ (ΔHCO₃⁻).
Na prática, imagine um paciente com DPOC (acidose respiratória crônica, com HCO₃⁻ basal elevado, ex.: 40 mEq/L) que desenvolve uma cetoacidose diabética (acidose metabólica com AG elevado). O HCO₃⁻ pode cair de 40 para 28 mEq/L — um valor ainda dentro da faixa de normalidade (22–26 mEq/L) ou até acima dela, mas que representa uma queda significativa em relação ao basal. O AG estará elevado (ex.: 25 mEq/L), denunciando a acidose metabólica. A alternativa A captura exatamente essa situação: a coexistência de distúrbios que se contrapõem no bicarbonato.
A pegadinha central desta questão é a tentação de associar "acidose metabólica" a "bicarbonato baixo" de forma automática. Em distúrbios mistos, o HCO₃⁻ pode ser normal ou alto, e o que revela a acidose é o ânion-gap elevado. A banca explora essa confusão entre o valor absoluto do bicarbonato e a presença de um distúrbio acidobásico. Guarde o critério: acidose metabólica com AG elevado + HCO₃⁻ normal/alto = distúrbio misto (acidose + alcalose metabólica ou acidose + acidose respiratória crônica compensada).
Distúrbios acidobásicos
1Componentes
Metabólico (HCO₃⁻)
Respiratório (PaCO₂)
2Acidose metabólica com AG elevado
Acúmulo de ácidos não mensurados
HCO₃⁻ tende a cair
3Distúrbio misto
Acidose + alcalose metabólica
Acidose + acidose respiratória crônica
HCO₃⁻ pode ser normal ou alto
AG elevado revela a acidose
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Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A afirmativa descreve com precisão o cenário de distúrbio misto. Quando a acidose metabólica com AG elevado coexiste com acidose respiratória crônica (que eleva o HCO₃⁻ por compensação renal) ou com alcalose metabólica (que também eleva o HCO₃⁻), o efeito líquido sobre o bicarbonato pode ser nulo ou até positivo. O AG elevado é a pista que revela a acidose metabólica, mesmo com HCO₃⁻ normal ou alto. É o conceito de ΔAG/ΔHCO₃⁻: se a elevação do AG é desproporcional à queda do HCO₃⁻, há um distúrbio misto associado.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A afirmativa inverte a relação entre dieta e nefrolitíase. Café, chá, cerveja e vinho são, na verdade, associados a um risco reduzido de formação de cálculos renais, devido ao seu alto teor de água e a efeitos diuréticos e inibidores da cristalização. O suco de laranja, rico em citrato (um inibidor da litíase), também é protetor. O erro está em afirmar que esses líquidos aumentam o risco, quando a literatura aponta o oposto.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A intoxicação por metanol causa acidose metabólica com ânion-gap elevado, não alcalose metabólica. O metanol é metabolizado a ácido fórmico, um ácido orgânico que consome bicarbonato e eleva o AG. A alcalose metabólica é um distúrbio distinto, causado por perda de ácidos (vômitos) ou ganho de bicarbonato. A alternativa troca o tipo de distúrbio acidobásico associado à toxina.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A síndrome nefrótica é caracterizada por hipoalbuminemia e redução da pressão coloidal osmótica, não aumento. A perda proteica urinária maciça leva à queda da albumina sérica, diminuindo a pressão oncótica do plasma, o que contribui para edema. A alternativa inverte o sentido da alteração fisiopatológica.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Estudos observacionais demonstram que o oxalato dietético é um fator de risco menor para nefrolitíase quando comparado ao oxalato endógeno (produzido pelo fígado) e a outros fatores como baixa ingesta hídrica e hipercalciúria. A afirmativa superestima o papel do oxalato da dieta, que contribui com uma fração menor do oxalato urinário total.