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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — CESPE / CEBRASPE 2019

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
ce371171
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
UNCISAL
Ano
2019
Cargo
Vest ( )

     Agora podia-se distinguir que o trêmulo dos finais dos versos era um começo de soluço reprimido, mas a cantora repetia e procurava dar-lhes a mais doce e viva expressão como se falasse a alguém invisível que estivesse ao seu lado, de olhos fitos nela com ternura, profundos e compreensivos, sem que pudesse falar outra linguagem a não ser a do seu olhar, sem poder tocá-la com as mãos muito frias, presas ao peito para poder melhor resistir à tentação. Todo o corpo frágil da senhora estremecia, teso e ao mesmo tempo febril, e acompanhava com graça os braços e as mãos, que corriam com os dedos muito altos o teclado, e arrancavam notas cristalinas das cordas já frouxas e gastas. Fazia cantar toda a sala em suave meio-tom, como se fosse grande caixa de ressonância de enorme instrumento e sua

voz trinada também se incorporava em um só todo sonoro, de doçura e velhice.

 

     Mas afinal a música cessou. Sinhá Rola chorava agora com simplicidade e lassidão e curvara-se sobre o encosto em forma de lira da banqueta onde estava sentada para se abandonar à dor misteriosa que a vencia toda. Celestina contemplou-a assim por muito tempo com os olhos velados de lágrimas, rememorou todas as tristezas passadas de sua vida tão monótona e humilde e viu em espírito o seu futuro apagado, eternamente votado à dependência e à obscuridade, todo feito de sacrifícios inúteis e devotamentos que ninguém compreenderia. Também ela, dentro de poucos anos, tornar-se-ia uma velha fraca e ridícula e o seu choro deveria ser qualquer coisa fora da moda, de antiquado e absurdo como aquele que tinha diante de si.

 

PENNA, Cornélio. A menina morta. Curitiba: RM Editores, 2010, p. 131-2.

 

No trecho anterior, do romance A Menina Morta, do escritor brasileiro Cornélio Penna, cuja primeira edição foi publicada em 1954, as situações descritas em cada um dos parágrafos, apesar de distintas, são comparáveis porque

  1. Ao choro incontido da intérprete contrasta com a disposição de Celestina para traçar um percurso diferente para si.
  2. Bo fracasso da interpretação da canção é reflexo da fragilidade das personagens que se encontram no espaço em que é executada.
  3. Co negativismo da letra da canção é transportado para a percepção que Sinhá Rola e Celestina têm de suas próprias vidas e seus futuros.
  4. Do gesto firme das mãos que tocam a canção equivale à capacidade de reação de Celestina à expectativa de ter um futuro parecido com o de Sinhá Rola.
  5. Eo embate entre a ternura da canção e a emoção da intérprete aproxima-se da angústia de Celestina ao ver seu futuro por meio da história triste de Sinhá Rola.
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GabaritoE — o embate entre a ternura da canção e a emoção da intérprete aproxima-se da angústia de Celestina ao ver seu futuro por meio da história triste de Sinhá Rola.

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