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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — CESPE / CEBRASPE 2021

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
ce385420
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
ALECE
Ano
2021
Cargo
Ana Leg ( )

Um homem dado a estudos de ornitologia, por nome Macedo, referiu a alguns amigos um caso tão extraordinário que ninguém lhe deu crédito. Alguns chegam a supor que Macedo virou o juízo. Eis aqui o resumo da narração.

 

No princípio do mês passado — disse ele —, indo por uma rua, sucedeu que um tílburi à disparada, quase me atirou ao chão. Escapei saltando para dentro de uma loja de belchior. Ia a sair, quando vi uma gaiola pendurada da porta. Não estava vazia. Dentro pulava um canário.

 

— Quem seria o dono execrável deste bichinho, que teve ânimo de se desfazer dele por alguns pares de níqueis?

E o canário, quedando-se em cima do poleiro, trilou isto:

 

— Que dono? Esse homem que aí está é meu criado, dá-me água e comida todos os dias, com tal regularidade que eu, se devesse pagar-lhe os serviços, não seria com pouco; mas os canários não pagam criados.

 

Pasmado das respostas, não sabia que mais admirar, se a linguagem, se as ideias. Perguntei-lhe então se tinha saudades do espaço azul e infinito...

 

Mas, caro homem, trilou o canário, que quer dizer espaço azul e infinito?

 

— Mas, perdão, que pensas deste mundo? Que coisa é o mundo?

 

— O mundo, redarguiu o canário com certo ar de professor, o mundo é uma loja de belchior, com uma pequena gaiola de taquara, quadrilonga, pendente de um prego; o canário é senhor da gaiola que habita e da loja que o cerca. Fora daí, tudo é ilusão e mentira.

 

Nisto acordou o velho, e veio a mim arrastando os pés. Perguntou-me se queria comprar o canário. Indaguei se o adquirira, como o resto dos objetos que vendia, e soube que sim. Paguei-lhe o preço, mandei comprar uma gaiola e ordenei que a pusessem na varanda da minha casa, de onde o passarinho podia ver o jardim e um pouco do céu azul. Era meu intuito fazer um longo estudo do fenômeno, sem dizer nada a ninguém, até poder assombrar o século com a minha extraordinária descoberta.

 

Três semanas depois da entrada do canário em minha casa, pedi-lhe que me repetisse a definição do mundo.

 

— O mundo, respondeu ele, é um jardim assaz largo com repuxo no meio, flores e arbustos, alguma grama, ar claro e um pouco de azul por cima; o canário, dono do mundo, habita uma gaiola vasta, branca e circular, donde mira o resto. Tudo o mais é ilusão e mentira.

 

Um sábado amanheci enfermo, a cabeça e a espinha doíam-me. O médico ordenou absoluto repouso. Assim fiquei cinco dias; no sexto levantei-me, e só então soube que o canário, estando o criado a tratar dele, fugira da gaiola.

 

Padeci muito. Tinha já recolhido as notas para compor a memória, ainda que truncada e incompleta, quando me sucedeu visitar um amigo, que ocupa uma das mais belas e grandes chácaras dos arrabaldes. Passeávamos nela antes de jantar, quando ouvi trilar esta pergunta:

 

— Viva, sr. Macedo, por onde tem andado que desapareceu?

 

Era o canário; estava no galho de uma árvore. Falei ao canário com ternura, pedi-lhe que viesse continuar a conversação, naquele nosso mundo composto de um jardim e repuxo, varanda e gaiola branca e circular...

 

— Que mundo? Tu não perdes os maus costumes de professor. O mundo, concluiu solenemente, é um espaço infinito e azul, com o sol por cima.

 

Indignado, retorqui-lhe que, se eu lhe desse crédito, o mundo era tudo; até já fora uma loja de belchior...

 

— De belchior? trilou ele às bandeiras despregadas. Mas há mesmo lojas de belchior?

 

Machado de Assis. Ideias do Canário. In:

50 contos de Machados de Assis selecionados por John Gledson. São Paulo: Companhia das Letras. 2007.

Texto 14A3-I

 

As especificidades do conto de Machado de Assis criam uma atmosfera em que predomina

  1. Ao viés romântico.
  2. Bo humor cáustico.
  3. Ca ironia fina.
  4. Da tendência hilariante
  5. Eo tom sarcástico.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoC — a ironia fina.

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