Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — CESPE / CEBRASPE 2026
Português›Interpretação de Textos (Compreensão)
Código
ce387191
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
SEED SE
Ano
2026
Cargo
PEB ( )
Texto 12A1-I
Escrever prosa é uma arte ingrata. Eu digo prosa fiada, como faz um cronista; não a prosa de um ficcionista, na qual este é levado meio a tapas pelas personagens e situações que, azar dele, criou porque quis. Com um prosador do cotidiano, a coisa fia mais fino. Senta-se ele diante de sua máquina, acende um cigarro, olha através da janela e busca fundo em sua imaginação um fato qualquer, em que possa injetar um sangue novo. Se nada houver, resta-lhe o recurso de olhar em torno e esperar que, através de um processo associativo, surja-lhe de repente a crônica, provinda dos fatos e feitos de sua vida. Ou então, em última instância, recorrer ao assunto da falta de assunto, já bastante gasto, mas do qual, no ato de escrever, pode surgir o inesperado.
Alguns fazem-no de maneira simples e direta, sem caprichar demais no estilo, mas enfeitando-o aqui e ali. Outros, de modo lento e elaborado, que o leitor deixa para mais tarde como um convite ao sono: a estes se lê como quem mastiga com prazer grandes bolas de chicletes. Outros, ainda, “tacam peito” na máquina e cumprem o dever cotidiano da crônica, numa atitude ou-vai-ou-racha. Há os eufóricos, cuja prosa procura sempre infundir vida e alegria em seus leitores, e há os tristes, que escrevem com o fito exclusivo de desanimar o gentio não só quanto à vida, como quanto à condição humana e às razões de viver. Há também os modestos, que ocultam cuidadosamente a própria personalidade atrás do que dizem e, em contrapartida, os vaidosos, que castigam no pronome na primeira pessoa e colocam-se geralmente como a personagem principal de todas as situações. Como se diz que é preciso um pouco de tudo para fazer um mundo, todos estes “marginais da imprensa”, por assim dizer, têm o seu papel a cumprir. Uns afagam vaidades, outros as espicaçam; estes são lidos por puro deleite, aqueles por puro vício. Mas uma coisa é certa: o público não dispensa a crônica.
Vinícius de Moraes. O exercício da crônica. Para viver um grande amor. São Paulo:
Companhia das Letras, 2010 (com adaptações).
Leia o Texto. No texto 12A1-I, o termo “coisa”, na expressão “a coisa fia mais fino” (terceiro período do primeiro parágrafo), remete, conotativamente,
Aà dificuldade de se escrever prosa.
Bao prosador cotidiano.
Càs personagens criadas por um cronista.
Dà prosa de um ficcionista.
Eao processo criativo do cronista.
Revelar gabarito e comentário▾
GabaritoE — ao processo criativo do cronista.
Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.
O sentido conotativo de “coisa” em “a coisa fia mais fino”
Gabarito: letra E. O termo “coisa”, na expressão “a coisa fia mais fino”, remete, conotativamente, ao processo criativo do cronista — ou seja, ao ato de escrever a crônica, com suas dificuldades e particularidades. A pista está no trecho: “Com um prosador do cotidiano, a coisa fia mais fino”, em que “coisa” retoma, de forma vaga e figurada, a atividade de escrever prosa fiada, descrita logo antes. A alternativa E é a única que capta esse sentido amplo e metafórico.
O comando: interpretação de sentido conotativo
A questão pede que você identifique o referente conotativo de um termo. Isso não é uma simples localização de informação explícita (compreensão), mas uma interpretação: você precisa perceber que “coisa” não tem sentido literal (objeto material), mas um sentido figurado, dependente do contexto. O verbo “remete” indica que se busca o que o termo sugere, não o que ele designa diretamente.
O texto: a tese e o movimento argumentativo
No primeiro parágrafo, o autor distingue dois tipos de prosa: a “prosa fiada” (a crônica) e a “prosa de um ficcionista”. Ele afirma que, no caso do cronista, “a coisa fia mais fino”, ou seja, o processo de criação é mais delicado, mais sutil. A expressão “a coisa” é uma referência anafórica que retoma, de forma genérica, a atividade de escrever crônica — o processo criativo do cronista. O texto continua descrevendo como o cronista busca um fato, e é exatamente esse processo que “a coisa” designa.
“Com um prosador do cotidiano, a coisa fia mais fino.”
Aqui, “coisa” não é um objeto; é uma metáfora para o trabalho de criação. O autor não diz “o processo criativo fia mais fino”, mas usa “coisa” para dar um tom coloquial e vago, típico da crônica. A alternativa E é a única que traduz esse sentido figurado com precisão.
A técnica: como identificar o referente conotativo
Para resolver, pergunte: o que “coisa” substitui no contexto? Ela não pode ser lida literalmente (não é um objeto físico). Ela retoma a ideia de “escrever prosa fiada”, que é o processo criativo do cronista. As demais alternativas confundem o referente com elementos periféricos do texto.
Alternativa
Referente proposto
O texto autoriza?
A
Dificuldade de escrever prosa
Parcial — é uma consequência, não o referente
B
Prosador cotidiano
Não — “coisa” não é pessoa
C
Personagens criadas por cronista
Não — o cronista não cria personagens como o ficcionista
D
Prosa de ficcionista
Não — o texto contrapõe, não retoma
E
Processo criativo do cronista
Sim — é o que “coisa” substitui
Alternativa A — ❌ Incorreta
A alternativa A diz que “coisa” remete à dificuldade de se escrever prosa. O texto menciona que “escrever prosa é uma arte ingrata”, mas isso é uma avaliação do autor, não o referente de “coisa”. “Coisa” não é a dificuldade; é a atividade em si. A dificuldade é uma característica dessa atividade, não o termo retomado. A alternativa extrapola ao transformar uma qualidade em referente.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A alternativa B afirma que “coisa” remete ao prosador cotidiano. O texto fala do “prosador do cotidiano”, mas “coisa” não é uma pessoa. O pronome “a coisa” é um substantivo abstrato, não um ser humano. A alternativa troca o referente: confunde o agente (quem escreve) com a ação (o processo de escrever).
Alternativa C — ❌ Incorreta
A alternativa C sugere que “coisa” remete às personagens criadas por um cronista. O texto diz que o ficcionista é “levado meio a tapas pelas personagens”, mas isso é sobre o ficcionista, não sobre o cronista. O cronista não cria personagens; ele busca fatos do cotidiano. A alternativa contradiz o texto, pois atribui ao cronista uma característica que o autor reserva ao ficcionista.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A alternativa D afirma que “coisa” remete à prosa de um ficcionista. O texto contrapõe a prosa do cronista à do ficcionista: “não a prosa de um ficcionista”. “Coisa” aparece logo depois de “Com um prosador do cotidiano”, retomando a prosa fiada, não a do ficcionista. A alternativa inverte a referência, apontando para o termo oposto.
Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A alternativa E diz que “coisa” remete ao processo criativo do cronista. Isso é exatamente o que o texto autoriza: “coisa” retoma a atividade de escrever crônica, descrita como um processo de busca de fatos e injeção de “sangue novo”. O termo é usado de forma vaga e figurada, mas o contexto o amarra ao ato de criação do cronista. É a única alternativa que capta o sentido conotativo completo.
PEGA ESSA DICA!
Em questões de referência conotativa, pergunte: “o que o pronome/substantivo substitui no contexto?”. Se a resposta for uma pessoa, um objeto ou uma ideia periférica, desconfie. O referente é sempre o núcleo da ação descrita.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre o referente (o processo) e elementos periféricos (a dificuldade, o agente, o oposto). A alternativa A é a mais sedutora, pois a dificuldade é mencionada, mas ela é uma consequência, não o referente.
Conclusão: a resposta é a letra E, pois “coisa” é uma metáfora para o processo criativo do cronista. As demais alternativas ou extrapolam, ou trocam o referente, ou contradizem o texto. Lembre-se: o referente conotativo é sempre o que o termo substitui no contexto, não o que ele evoca indiretamente.