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Questão de Português — Outras Questões de Português e Questões Mescladas (Interpretação de Textos ou Gramática) — CESPE / CEBRASPE 2026

PortuguêsOutras Questões de Português e Questões Mescladas (Interpretação de Textos ou Gramática)
Código
ce387195
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
SEED SE
Ano
2026
Cargo
PEB ( )

Texto 12A1-I

 

Escrever prosa é uma arte ingrata. Eu digo prosa fiada, como faz um cronista; não a prosa de um ficcionista, na qual este é levado meio a tapas pelas personagens e situações que, azar dele, criou porque quis. Com um prosador do cotidiano, a coisa fia mais fino. Senta-se ele diante de sua máquina, acende um cigarro, olha através da janela e busca fundo em sua imaginação um fato qualquer, em que possa injetar um sangue novo. Se nada houver, resta-lhe o recurso de olhar em torno e esperar que, através de um processo associativo, surja-lhe de repente a crônica, provinda dos fatos e feitos de sua vida. Ou então, em última instância, recorrer ao assunto da falta de assunto, já bastante gasto, mas do qual, no ato de escrever, pode surgir o inesperado.

 

Alguns fazem-no de maneira simples e direta, sem caprichar demais no estilo, mas enfeitando-o aqui e ali. Outros, de modo lento e elaborado, que o leitor deixa para mais tarde como um convite ao sono: a estes se lê como quem mastiga com prazer grandes bolas de chicletes. Outros, ainda, “tacam peito” na máquina e cumprem o dever cotidiano da crônica, numa atitude ou-vai-ou-racha. Há os eufóricos, cuja prosa procura sempre infundir vida e alegria em seus leitores, e há os tristes, que escrevem com o fito exclusivo de desanimar o gentio não só quanto à vida, como quanto à condição humana e às razões de viver. Há também os modestos, que ocultam cuidadosamente a própria personalidade atrás do que dizem e, em contrapartida, os vaidosos, que castigam no pronome na primeira pessoa e colocam-se geralmente como a personagem principal de todas as situações. Como se diz que é preciso um pouco de tudo para fazer um mundo, todos estes “marginais da imprensa”, por assim dizer, têm o seu papel a cumprir. Uns afagam vaidades, outros as espicaçam; estes são lidos por puro deleite, aqueles por puro vício. Mas uma coisa é certa: o público não dispensa a crônica.

 

Vinícius de Moraes. O exercício da crônica. Para viver um grande amor. São Paulo:

Companhia das Letras, 2010 (com adaptações).

Leia o Texto.   No antepenúltimo período do texto 12A1-I, ao empregar a expressão “por assim dizer”, o autor
  1. Aapresenta uma condição para que os escritores cumpram o seu papel.
  2. Brelativiza o uso da expressão ‘marginais da imprensa’.
  3. Cestabelece uma comparação entre os tipos de escritores.
  4. Dintroduz uma justificativa sobre o papel dos escritores.
  5. Ereforça a importância do trabalho dos escritores no mundo.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoB — relativiza o uso da expressão ‘marginais da imprensa’.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Função da expressão “por assim dizer” no texto de Vinícius de Moraes

Gabarito: letra B. Ao empregar “por assim dizer”, o autor relativiza o uso da expressão ‘marginais da imprensa’ — ou seja, sinaliza que a emprega em sentido figurado, aproximado, não literal. Essa é a função típica da locução: atenuar o termo que a segue, como se lê no trecho: “todos estes ‘marginais da imprensa’, por assim dizer, têm o seu papel a cumprir”. A expressão não cria condição, comparação, justificativa nem reforço — ela suaviza a metáfora “marginais da imprensa”.

O comando pede que se identifique o efeito de sentido de uma expressão no contexto. Isso é diferente de perguntar “o que o texto afirma” (compreensão literal) ou “o que se deduz” (inferência). Aqui, a resposta está na função semântico-pragmática da locução: o que ela FAZ no enunciado. Para resolver, isole o trecho e pergunte: se eu retirar “por assim dizer”, o que muda? A resposta é que o termo “marginais da imprensa” passaria a ser tomado ao pé da letra, como se os cronistas fossem realmente marginais. A locução avisa o leitor de que a palavra está sendo usada em sentido figurado, aproximado.

No texto, o autor classifica os cronistas em vários tipos (simples, elaborados, eufóricos, tristes, modestos, vaidosos) e, ao final, os reúne sob o rótulo “marginais da imprensa”. O uso de aspas já indica o caráter metafórico; “por assim dizer” reforça essa ressalva, funcionando como um operador de atenuação. É o mesmo mecanismo de expressões como “digamos”, “se é que me entendem”, “entre aspas” — todas sinalizam que o termo não deve ser interpretado literalmente.

A banca adora testar se o candidato confunde a função de uma expressão com outras relações lógicas. Veja: “por assim dizer” não estabelece condição (não há “se”), não compara (não há “como”), não justifica (não há “porque”) e não reforça (não há “de fato”). Ela apenas relativiza o sentido do que vem depois. Essa distinção é o coração da questão.

PEGA ESSA DICA!

Ao analisar o efeito de uma expressão, pergunte: “se eu a retirar, o sentido muda? como?”. Se a mudança for de intensidade ou de literalidade, a função é atenuar/relativizar. Se for de relação lógica (causa, condição, comparação), aí sim é outra coisa.

Alternativa A — ❌ Incorreta

Erro: extrapolação. A expressão “por assim dizer” não introduz condição alguma. O texto diz que “todos estes ‘marginais da imprensa’, por assim dizer, têm o seu papel a cumprir” — não há “se”, “caso”, “desde que”. A ideia de condição é acrescentada de fora, sem apoio no trecho.

Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO

Correta. A locução “por assim dizer” relativiza o uso de “marginais da imprensa”, indicando que o termo é empregado em sentido figurado, aproximado. O próprio uso de aspas em “marginais da imprensa” já sinaliza o caráter metafórico; “por assim dizer” reforça essa ressalva, funcionando como um operador de atenuação. É o mesmo mecanismo de expressões como “digamos”, “se é que me entendem”, “entre aspas” — todas sinalizam que o termo não deve ser interpretado literalmente.

Alternativa C — ❌ Incorreta

Erro: troca de conceito. A expressão não estabelece comparação. Comparação exigiria um conectivo comparativo (“como”, “tal qual”, “assim como”). O trecho apenas classifica os cronistas e os reúne sob um rótulo metafórico; não há dois elementos sendo comparados.

Alternativa D — ❌ Incorreta

Erro: troca de conceito. “Por assim dizer” não introduz justificativa. Justificativa seria introduzida por “porque”, “pois”, “já que”. O trecho afirma que os cronistas têm um papel a cumprir, mas a expressão em questão não explica o porquê — ela apenas qualifica o modo como o rótulo é usado.

Alternativa E — ❌ Incorreta

Erro: extrapolação. A expressão não reforça a importância do trabalho dos escritores. O texto até diz que “o público não dispensa a crônica”, mas isso está em outro período, sem relação com “por assim dizer”. A alternativa atribui à expressão um valor que ela não tem no contexto.

Conclusão: a questão testa a função semântica de uma expressão. A única alternativa que descreve corretamente o efeito de “por assim dizer” é a letra B — ela relativiza o sentido de “marginais da imprensa”. As demais ou extrapolam (A, E) ou trocam a função por outra relação lógica (C, D).

Gabarito: letra B

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