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Questão de Português — Coerência. Coesão (Anáfora, Catáfora, Uso dos Conectores - Pronomes Relativos, Conjunções, etc) — CESPE / CEBRASPE 2026

PortuguêsCoerência. Coesão (Anáfora, Catáfora, Uso dos Conectores - Pronomes Relativos, Conjunções, etc)
Código
ce387196
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
SEED SE
Ano
2026
Cargo
PEB ( )

Texto 12A1-I

 

Escrever prosa é uma arte ingrata. Eu digo prosa fiada, como faz um cronista; não a prosa de um ficcionista, na qual este é levado meio a tapas pelas personagens e situações que, azar dele, criou porque quis. Com um prosador do cotidiano, a coisa fia mais fino. Senta-se ele diante de sua máquina, acende um cigarro, olha através da janela e busca fundo em sua imaginação um fato qualquer, em que possa injetar um sangue novo. Se nada houver, resta-lhe o recurso de olhar em torno e esperar que, através de um processo associativo, surja-lhe de repente a crônica, provinda dos fatos e feitos de sua vida. Ou então, em última instância, recorrer ao assunto da falta de assunto, já bastante gasto, mas do qual, no ato de escrever, pode surgir o inesperado.

 

Alguns fazem-no de maneira simples e direta, sem caprichar demais no estilo, mas enfeitando-o aqui e ali. Outros, de modo lento e elaborado, que o leitor deixa para mais tarde como um convite ao sono: a estes se lê como quem mastiga com prazer grandes bolas de chicletes. Outros, ainda, “tacam peito” na máquina e cumprem o dever cotidiano da crônica, numa atitude ou-vai-ou-racha. Há os eufóricos, cuja prosa procura sempre infundir vida e alegria em seus leitores, e há os tristes, que escrevem com o fito exclusivo de desanimar o gentio não só quanto à vida, como quanto à condição humana e às razões de viver. Há também os modestos, que ocultam cuidadosamente a própria personalidade atrás do que dizem e, em contrapartida, os vaidosos, que castigam no pronome na primeira pessoa e colocam-se geralmente como a personagem principal de todas as situações. Como se diz que é preciso um pouco de tudo para fazer um mundo, todos estes “marginais da imprensa”, por assim dizer, têm o seu papel a cumprir. Uns afagam vaidades, outros as espicaçam; estes são lidos por puro deleite, aqueles por puro vício. Mas uma coisa é certa: o público não dispensa a crônica.

 

Vinícius de Moraes. O exercício da crônica. Para viver um grande amor. São Paulo:

Companhia das Letras, 2010 (com adaptações).

Leia o Texto.   No último período do primeiro parágrafo do texto 12A1-I, o pronome presente na expressão “do qual” tem como referente
  1. Aa “falta de assunto”.
  2. Bo “ato de escrever”.
  3. C“o inesperado”.
  4. D“gasto”.
  5. Eo “assunto da falta de assunto”.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoE — o “assunto da falta de assunto”.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

O referente de “do qual” no texto de Vinícius de Moraes

Gabarito: letra E. O pronome relativo “do qual”, na expressão “do qual, no ato de escrever, pode surgir o inesperado”, retoma “o assunto da falta de assunto” — mais precisamente, o núcleo “assunto” dessa expressão. A pista está no próprio trecho: “recorrer ao assunto da falta de assunto, já bastante gasto, mas do qual, no ato de escrever, pode surgir o inesperado”. O pronome substitui o termo inteiro “o assunto da falta de assunto”, evitando a repetição: “do assunto da falta de assunto pode surgir o inesperado”.

O comando: identificar o antecedente de um pronome relativo

A questão pede que você diga a que termo o pronome “do qual” se refere. Isso é uma tarefa de coesão referencial anafórica: o pronome relativo retoma um termo já mencionado (o antecedente). Não há inferência nem interpretação subjetiva — basta voltar no texto e localizar o termo que o pronome substitui. A técnica é simples: troque o pronome pelo suposto antecedente e veja se a frase continua fazendo sentido. Se “do qual” = “do assunto da falta de assunto”, a frase fica: “do assunto da falta de assunto pode surgir o inesperado” — perfeito.

O trecho decisivo

“Ou então, em última instância, recorrer ao assunto da falta de assunto, já bastante gasto, mas do qual, no ato de escrever, pode surgir o inesperado.”

Observe a estrutura: “recorrer ao assunto da falta de assunto” — o termo “o assunto da falta de assunto” é o objeto indireto de “recorrer”. O pronome relativo “do qual” vem logo depois, introduzindo a oração adjetiva “do qual ... pode surgir o inesperado”. A regra é clara: o pronome relativo retoma o termo imediatamente anterior que lhe serve de antecedente, e aqui esse termo é o sintagma inteiro “o assunto da falta de assunto”. O núcleo desse sintagma é “assunto”, mas o referente é a expressão completa, pois é dela que se fala: é do “assunto da falta de assunto” que pode surgir o inesperado.

Por que as outras alternativas falham

  • A) a “falta de assunto” — Esta é a pegadinha clássica. O candidato vê “falta de assunto” e pensa que é o antecedente, mas o pronome retoma o sintagma inteiro, não apenas o complemento. Se trocássemos “do qual” por “da falta de assunto”, a frase ficaria “da falta de assunto pode surgir o inesperado” — até faria sentido, mas o texto diz “do assunto da falta de assunto”, ou seja, o pronome se refere ao assunto que é a falta de assunto, não à falta em si. A banca explora exatamente essa ambiguidade aparente.

  • B) o “ato de escrever” — O “ato de escrever” está dentro da oração adjetiva (“no ato de escrever”), mas não é o antecedente do pronome. O pronome vem antes dessa expressão e se refere a algo já mencionado, não a algo que aparece depois. Além disso, “do qual” não poderia retomar “ato”, pois seria “do qual” e não “do qual” (o gênero e o número não batem: “ato” é masculino singular, mas o pronome está no masculino singular, então até caberia, mas a posição e o sentido mostram que não é isso).

  • C) “o inesperado” — “O inesperado” é o sujeito da oração adjetiva (“pode surgir o inesperado”), não o antecedente. O pronome relativo sempre retoma um termo anterior, nunca um termo que vem depois. Além disso, “do qual” não poderia se referir a “inesperado”, pois seria “do qual” e não “do qual” (o gênero é masculino, mas o sentido não permite).

  • D) “gasto” — “Gasto” é um adjetivo que qualifica “assunto” (“já bastante gasto”). Não é um substantivo e não pode ser antecedente de pronome relativo. O pronome retoma substantivos ou sintagmas nominais, não adjetivos.

A técnica que resolve

Sempre que a questão perguntar “a que termo se refere o pronome”, faça o seguinte:

  1. Localize o pronome no texto.

  2. Volte para o termo mais próximo que faça sentido com ele (o antecedente).

  3. Substitua o pronome pelo termo candidato e veja se a frase continua coerente.

  4. Confira gênero e número: o pronome concorda com o antecedente. Aqui, “do qual” (masculino singular) só pode retomar “assunto” (masculino singular), não “falta” (feminino) nem “inesperado” (masculino, mas posição errada).

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a estrutura “assunto da falta de assunto” para induzir o candidato a escolher apenas “falta de assunto” (letra A), quando o pronome retoma o sintagma inteiro, com núcleo “assunto”.

PEGA ESSA DICA!

Desconfie de alternativas que citam apenas um fragmento do sintagma. O pronome relativo retoma o termo inteiro que o antecede, não uma parte dele.

Conclusão

A resposta correta é a letra E, pois “do qual” retoma “o assunto da falta de assunto”, como se comprova pela substituição: “do assunto da falta de assunto pode surgir o inesperado”. As demais alternativas ou fragmentam o sintagma (A), ou apontam para termos que não são o antecedente (B, C, D).

Gabarito: letra E

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