Escrever prosa é uma arte ingrata. Eu digo prosa fiada, como faz um cronista; não a prosa de um ficcionista, na qual este é levado meio a tapas pelas personagens e situações que, azar dele, criou porque quis. Com um prosador do cotidiano, a coisa fia mais fino. Senta-se ele diante de sua máquina, acende um cigarro, olha através da janela e busca fundo em sua imaginação um fato qualquer, em que possa injetar um sangue novo. Se nada houver, resta-lhe o recurso de olhar em torno e esperar que, através de um processo associativo, surja-lhe de repente a crônica, provinda dos fatos e feitos de sua vida. Ou então, em última instância, recorrer ao assunto da falta de assunto, já bastante gasto, mas do qual, no ato de escrever, pode surgir o inesperado.
Alguns fazem-no de maneira simples e direta, sem caprichar demais no estilo, mas enfeitando-o aqui e ali. Outros, de modo lento e elaborado, que o leitor deixa para mais tarde como um convite ao sono: a estes se lê como quem mastiga com prazer grandes bolas de chicletes. Outros, ainda, “tacam peito” na máquina e cumprem o dever cotidiano da crônica, numa atitude ou-vai-ou-racha. Há os eufóricos, cuja prosa procura sempre infundir vida e alegria em seus leitores, e há os tristes, que escrevem com o fito exclusivo de desanimar o gentio não só quanto à vida, como quanto à condição humana e às razões de viver. Há também os modestos, que ocultam cuidadosamente a própria personalidade atrás do que dizem e, em contrapartida, os vaidosos, que castigam no pronome na primeira pessoa e colocam-se geralmente como a personagem principal de todas as situações. Como se diz que é preciso um pouco de tudo para fazer um mundo, todos estes “marginais da imprensa”, por assim dizer, têm o seu papel a cumprir. Uns afagam vaidades, outros as espicaçam; estes são lidos por puro deleite, aqueles por puro vício. Mas uma coisa é certa: o público não dispensa a crônica.
Vinícius de Moraes. O exercício da crônica. Para viver um grande amor. São Paulo:
Companhia das Letras, 2010 (com adaptações).
Leia o Texto. Assinale a opção correta em relação à colocação pronominal no texto 12A1-I.
AEm “Como se diz que é preciso um pouco de tudo para fazer um mundo” (antepenúltimo período do texto), a próclise pronominal justifica-se pela natureza desenvolvida da oração subordinada introduzida pelo conectivo “Como”.
BEm “surja-lhe de repente a crônica” (quinto período do primeiro parágrafo), a ênclise pronominal é obrigatória devido à flexão da forma verbal “surja” no subjuntivo.
CEm “mas enfeitando-o aqui e ali” (primeiro período do segundo parágrafo), a ênclise pronominal é obrigatória devido à presença dos advérbios “aqui” e “ali”.
DEm “Senta-se ele diante de sua máquina” (quarto período do primeiro parágrafo), a ênclise pronominal deve-se à presença do pronome “ele”.
EEm “e colocam-se geralmente como a personagem principal” (quinto período do segundo parágrafo), a ênclise pronominal é obrigatória porque a forma verbal “colocam” inicia uma oração.
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GabaritoA — Em “Como se diz que é preciso um pouco de tudo para fazer um mundo” (antepenúltimo período do texto), a próclise pronominal justifica-se pela natureza desenvolvida da oração subordinada introduzida pelo conectivo “Como”.
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Colocação Pronominal: próclise e ênclise no texto
Gabarito: letra A. A próclise em "Como se diz" é corretamente justificada pela presença da conjunção subordinativa "Como", que introduz uma oração subordinada e atrai o pronome para antes do verbo. As demais alternativas erram ao atribuir a ênclise a causas que não a justificam, como a flexão verbal, a presença de advérbios ou de pronomes retos.
O comando e o método
A questão pede que se assinale a opção correta em relação à colocação pronominal. Isso significa que cada alternativa apresenta uma justificativa para o uso de próclise ou ênclise em um trecho específico do texto. O método de resolução é duplo: primeiro, identificar se a colocação (próclise ou ênclise) está correta no trecho; segundo, e mais importante, verificar se a justificativa apresentada é a verdadeira razão para aquela colocação. Muitas vezes a colocação está correta, mas a explicação é falsa — e é exatamente aí que a banca arma a pegadinha.
A regra que decide a questão
A colocação pronominal no português segue regras claras. A próclise (pronome antes do verbo) é obrigatória quando há uma palavra atrativa antes do verbo. As principais palavras atrativas são:
Conjunções subordinativas: que, se, como, quando, embora, etc.
Palavras negativas: não, nunca, jamais, nada, etc.
Advérbios: aqui, agora, talvez, já, sempre, etc.
Pronomes relativos: que, o qual, cujo, onde, etc.
Pronomes indefinidos: alguém, tudo, nada, etc.
A ênclise (pronome depois do verbo) é a colocação "residual": usa-se quando não há palavra atrativa e o verbo não está no futuro do presente ou do pretérito (que exigiriam mesóclise). Também é proibido iniciar oração com pronome oblíquo átono, o que reforça a ênclise em início de período.
No trecho "Como se diz", o "Como" é uma conjunção subordinativa (introduz oração subordinada adverbial, aqui com valor de conformidade ou causa), e conjunções subordinativas são palavras atrativas que obrigam a próclise. Portanto, a justificativa da alternativa A está correta.
Análise das alternativas
Colocação pronominal: Próclise (palavra atrativa antes do verbo) (Conjunções subordinativas (que, se, como), Palavras negativas (não, nunca), Advérbios (aqui, talvez), Pronomes relativos (que, cujo), Pronomes indefinidos (alguém, tudo)); Ênclise (sem atrativo) (Verbo inicia oração, Gerúndio sem atrativo); Mesóclise (Futuro do presente, Futuro do pretérito)
Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A alternativa afirma que a próclise em "Como se diz" se justifica pela natureza desenvolvida da oração subordinada introduzida pelo conectivo "Como". Isso está correto. O "Como" é uma conjunção subordinativa, e toda conjunção subordinativa atrai o pronome para antes do verbo. No texto:
"Como se diz que é preciso um pouco de tudo para fazer um mundo"
Aqui, "Como" introduz uma oração subordinada adverbial (de conformidade, equivalendo a "conforme se diz"), e a presença dessa conjunção exige próclise. A justificativa é precisa: a natureza subordinada da oração, marcada pelo conectivo, é exatamente o fator que atrai o pronome.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A alternativa afirma que a ênclise em "surja-lhe" é obrigatória devido à flexão do verbo "surja" no subjuntivo. Isso é falso. A flexão de modo não influencia a colocação pronominal. O que ocorre é que não há palavra atrativa antes do verbo "surja" — o período é "esperar que, através de um processo associativo, surja-lhe de repente a crônica". A conjunção "que" atrai o pronome para o verbo "esperar" (próclise em "que... surja"), mas o pronome "lhe" está ligado a "surja", que não é precedido de atrativo imediato, permitindo a ênclise. A justificativa apresentada (subjuntivo) é incorreta.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A alternativa afirma que a ênclise em "enfeitando-o" é obrigatória devido aos advérbios "aqui" e "ali". Isso é falso. Os advérbios "aqui" e "ali" estão no final da oração, não antes do verbo "enfeitando". A ênclise em "enfeitando-o" ocorre porque o verbo está no gerúndio e não há palavra atrativa antes dele. A presença de advérbios distantes não justifica a ênclise; na verdade, se estivessem antes do verbo, atrairiam próclise. A justificativa é, portanto, incorreta.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A alternativa afirma que a ênclise em "Senta-se" se deve à presença do pronome "ele". Isso é falso. O pronome "ele" é sujeito, e sujeito não atrai nem repele pronome oblíquo. A ênclise em "Senta-se" ocorre porque o verbo inicia o período, e não se pode iniciar oração com pronome oblíquo átono. A presença do sujeito "ele" é irrelevante para a colocação. A justificativa é incorreta.
Alternativa E — ❌ Incorreta
A alternativa afirma que a ênclise em "colocam-se" é obrigatória porque a forma verbal "colocam" inicia uma oração. Isso é parcialmente verdadeiro — de fato, não se inicia oração com pronome oblíquo átono, então a ênclise é obrigatória nesse caso. No entanto, a justificativa apresentada é incompleta e imprecisa: o que obriga a ênclise não é simplesmente "iniciar uma oração", mas a regra de que não se inicia período com pronome oblíquo átono. A alternativa não explica corretamente o motivo, limitando-se a afirmar que "inicia uma oração", o que é vago e não corresponde à justificativa canônica. Portanto, está incorreta.
Conclusão
A única alternativa que apresenta justificativa correta é a letra A. As demais ou atribuem a colocação a fatores irrelevantes (flexão verbal, advérbios distantes, pronome sujeito) ou apresentam justificativa imprecisa. A regra de ouro: a colocação pronominal é determinada pela presença de palavra atrativa antes do verbo (próclise) ou pela ausência dela e pela proibição de iniciar oração com pronome átono (ênclise). Sempre desconfie de justificativas que citem elementos que não estão imediatamente antes do verbo.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre a colocação correta e a justificativa correta. Em várias alternativas, a colocação está correta, mas a explicação é falsa. Verifique sempre se o elemento citado (advérbio, pronome, flexão) está realmente antes do verbo e se é uma palavra atrativa.
PEGA ESSA DICA!
Para resolver questões de colocação pronominal, identifique primeiro se há palavra atrativa antes do verbo. Se houver, próclise obrigatória. Se não houver, verifique se o verbo inicia oração (ênclise) ou se está no futuro (mesóclise). A justificativa deve apontar exatamente o elemento que causa a colocação.