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Questão de Português — Outras Questões de Português e Questões Mescladas (Interpretação de Textos ou Gramática) — CESPE / CEBRASPE 2026

PortuguêsOutras Questões de Português e Questões Mescladas (Interpretação de Textos ou Gramática)
Código
ce387203
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
SEED SE
Ano
2026
Cargo
PEB ( )
Texto 12A2-I

        A variação existente hoje, no português do Brasil, que nos permite reconhecer uma pluralidade de falares, é fruto da dinâmica populacional e da natureza do contato dos diversos grupos étnicos e sociais nos diferentes períodos da história. São fatos dessa natureza que demonstram que não se pode pensar no uso de uma língua em termos de “certo” e “errado” e em variante regional “melhor” ou “pior”, “bonita” ou “feia”. No ensino da língua escrita, contudo, procura-se neutralizar as marcas identificadoras de cada grupo social, a fim de atingir um padrão idealizado, que seja supranacional. O paradoxo está em que cada falar tem sua norma, variantes que prevalecem, mas que não anulam a ocorrência de outras. Por exemplo, o segmento r, no contexto final de sílaba, como em carta ou porto. Suas múltiplas realizações são encontradas tanto em Porto Alegre quanto no Rio de Janeiro. O que singulariza uma ou outra cidade é a predominância de determinada variante sobre as outras. Também os empréstimos lexicais não colocam a língua “em perigo”. São apenas reflexos de contatos culturais, ontem e hoje. Convivemos perfeitamente bem com palavras como álcool e almofada, do árabe, garagem e personagem, do francês, e futebol, do inglês. E mais recentemente temos de conviver também com deletar, por empréstimo ao inglês, que, por sua vez, tem origem no latim (delere, deletum).

Yonne Leite e Dinah Callou. Como falam os brasileiros.
Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editora, 2004, p. 57-59 (com adaptações). 

Leia o Texto abaixo.

 

Quando de madrugada se levantava — passado o instante de vastidão em que se desenrolava toda — vestia-se correndo, mentia para si mesma que não havia tempo de tomar banho, e a família adormecida jamais adivinhara quão poucos ela tomava. Sob a luz acesa da sala de jantar, engolia o café. Mal tocava no pão que a manteiga não amolecia. Com a boca fresca de jejum, os livros embaixo do braço, abria enfim a porta, transpunha a mornidão insossa da casa, galgando-se para a gélida fruição da manhã. Então já não se apressava mais.

Clarice Lispector. Preciosidade. In: Clarice Lispector. Laços de família.

Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira, 1983.

 

Considerando esse fragmento do conto Preciosidade, de Clarice Lispector, julgue os itens a seguir.

 

I No primeiro período, os travessões demarcam uma situação anterior ao momento aludido na oração que inicia o fragmento.

 

II As relações coesivas do fragmento permitem concluir que a palavra banhos está elíptica após o segmento “quão poucos” (primeiro período).

 

III No último período, o vocábulo “já” demarca temporalmente o início da experiência de “fruição da manhã”.

 

Assinale a opção correta.

  1. AApenas o item I está certo.
  2. BApenas o item II está certo.
  3. CApenas os itens I e III estão certos.
  4. DApenas os itens II e III estão certos.
  5. ETodos os itens estão certos.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoE — Todos os itens estão certos.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Travessões, elipse e o valor de “já” no fragmento de Clarice Lispector

Gabarito: letra E — todos os itens estão certos. Os três itens se sustentam no texto: os travessões isolam uma intercalação que remete a um momento anterior ao da oração principal; a elipse de “banhos” após “quão poucos” é exigida pela coesão referencial; e o “já” marca o início da experiência da “fruição da manhã”. A banca cobra, na verdade, três mecanismos de coesão e pontuação — e cada item exige que você ancore a leitura no fragmento, não em suposições.

O comando e o método

A questão pede que você julgue itens sobre o texto — não é uma pergunta de “o que o autor quis dizer”, mas de análise linguística: função do travessão, elipse e valor do advérbio. Para cada item, a pergunta é: o texto autoriza essa leitura? Se sim, o item está certo; se a leitura exigir acrescentar algo que não está lá, está errado. Esse é o critério que separa as alternativas.

O texto e o movimento argumentativo

O fragmento descreve a rotina matinal de uma personagem: ela se levanta, veste-se correndo, toma café, sai de casa e, só então, deixa de se apressar. O trecho entre travessões — “passado o instante de vastidão em que se desenrolava toda” — é uma intercalação que traz uma informação anterior ao momento em que ela se levanta: o instante de vastidão já passou. Essa leitura é essencial para o item I.

A técnica que decide cada item

Item I — travessões e anterioridade. Os travessões isolam uma oração intercalada (também chamada de intercalação ou observação), que interrompe a sequência lógica do período para acrescentar uma informação. No fragmento, a oração intercalada é “passado o instante de vastidão em que se desenrolava toda”. O particípio “passado” indica que esse instante já ocorreu antes do momento em que ela se levanta. Portanto, o item está certo: os travessões demarcam uma situação anterior ao momento aludido na oração que inicia o fragmento.

Item II — elipse de “banhos”. No trecho “mentia para si mesma que não havia tempo de tomar banho, e a família adormecida jamais adivinhara quão poucos ela tomava”, o verbo “tomava” exige um complemento. Esse complemento é “banhos”, que aparece no plural, retomando “banho” (singular) do início. A elipse é um mecanismo de coesão referencial em que se omite um termo já mencionado, evitando repetição. Aqui, a omissão é obrigatória para a fluidez do texto, e a retomada é clara pelo contexto. Portanto, o item está certo.

Item III — valor de “já”. No último período, “Então já não se apressava mais”, o advérbio “já” tem valor temporal e indica uma mudança de estado: antes ela se apressava; agora, não. Esse “já” marca o início da experiência de “fruição da manhã”, pois é nesse momento que a pressa cessa. Portanto, o item está certo.

Análise das alternativas

1Travessões
Isolam intercalação
Marcam anterioridade ("passado")
2Elipse
Omissão de termo recuperável
"banhos" retomado por "tomava"
3Advérbio "já"
Valor temporal
Marca mudança de estado
Mecanismos de coesão e pontuação
LEVELsoulevel.com.br
Mecanismos de coesão e pontuação: Travessões (Isolam intercalação, Marcam anterioridade ("passado")); Elipse (Omissão de termo recuperável, "banhos" retomado por "tomava"); Advérbio "já" (Valor temporal, Marca mudança de estado)

Item I — ✅ Correto

O item afirma que os travessões demarcam uma situação anterior ao momento aludido na oração que inicia o fragmento. Isso é exatamente o que ocorre: a oração intercalada “passado o instante de vastidão em que se desenrolava toda” traz uma informação que já aconteceu antes de “Quando de madrugada se levantava”. O particípio “passado” é a pista decisiva. O item está certo.

Item II — ✅ Correto

O item afirma que a palavra “banhos” está elíptica após “quão poucos”. De fato, o verbo “tomava” pede um objeto direto, e esse objeto é “banhos”, que foi omitido por elipse. A coesão referencial permite recuperar o termo pelo contexto: “tomar banho” → “quão poucos [banhos] ela tomava”. O item está certo.

Item III — ✅ Correto

O item afirma que “já” demarca temporalmente o início da experiência de “fruição da manhã”. No período “Então já não se apressava mais”, o “já” indica que, a partir daquele momento, a pressa cessa — ou seja, marca o início da fruição. O item está certo.

Conclusão

Como os três itens estão corretos, a alternativa correta é a letra E. A banca testa se você reconhece os mecanismos de coesão e pontuação que estruturam o texto. Lembre-se: elipse é omissão de termo recuperável pelo contexto; travessão pode isolar intercalação; e advérbio pode ter valor temporal de mudança de estado. Sempre ancore sua leitura no texto, não em suposições.

PEGA ESSA DICA!

Ao julgar itens sobre coesão, pergunte: “o termo omitido é recuperável pelo contexto?”. Se sim, é elipse legítima. E desconfie de “já” como mero advérbio de tempo: muitas vezes ele marca mudança de estado.

Gabarito: letra E

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