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Questão de Português — Figuras de Linguagem — CESPE / CEBRASPE 2026

PortuguêsFiguras de Linguagem
Código
ce387224
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
UFAC
Ano
2026
Cargo
Vest ( )
Desafio

    Muito se fala sobre como as inteligências artificiais (IAs) estão dominando tarefas humanas. Elas escrevem textos, criam imagens, atuam em diagnósticos médicos, e por aí vai. Elas também escrevem crônicas que podem, quem sabe, enganar qualquer leitor. Será mesmo? Hoje, lanço um desafio: você consegue diferenciar uma crônica minha, escrita a partir das inquietações e alegrias humanas, de uma criada por inteligência artificial? Apresento duas crônicas: uma é minha, outra da IA. Vamos ver até onde vai a diferença entre o humano e o sintético.

Crônica 1 – A última parada

    Acordou sem pressa. O dia prometia ser longo, como todos os outros, mas sem a mínima expectativa. Na janela, o Sol nascia sem entusiasmo, como quem cumpre uma tarefa sem sentido. A cidade parecia se arrastar, assim como ele, engolido pela rotina. Saiu de casa sem rumo. As ruas estavam cheias, mas ele mal via as pessoas ao seu redor. Ele não sabia o que procurava, mas também não acreditava que encontraria algo. Passou horas assim, até chegar à estação de trem. Não sabia para onde os trilhos o levariam. Só queria sentir o movimento, a ilusão de estar indo a algum lugar, mesmo que fosse para lugar nenhum. O trem partiu e ele se sentou na janela, observando o mundo passar. No fundo, sabia que não havia mais volta. E isso, de algum modo, parecia ser o único sentido.

Crônica 2 – O incêndio

    O incêndio começou enquanto ele assistia distraidamente a sua série favorita. Estava no último episódio da segunda temporada quando sentiu o cheiro de fumaça. Hesitou alguns instantes: estava diante da grande descoberta. Afinal de contas, será que Brian Miller era realmente um espião industrial? O grand finale fez com que Alceu demorasse a sair. Quando começou a tossir loucamente, percebeu que a situação era séria. Deixou sua série favorita para trás e saiu correndo do apartamento. Alceu estava em pânico e chegou a pensar no pior. Mas mal sabia ele que o pior ainda estava por vir: Brian Miller não somente era um espião, como também havia roubado os planos para a construção de uma arma química capaz de devastar a inteira Nova York.

Juliano Martinz. Desafio: você consegue diferenciar uma crônica minha de uma gerada por IA?
Internet: <https://corrosiva.com.br> (com adaptações).

Na Crônica 1 – A última parada, inserida no texto Desafio, observa-se no trecho “Na janela, o Sol nascia sem entusiasmo, como quem cumpre uma tarefa sem sentido” o uso da figura de linguagem denominada

  1. Aironia, cuja finalidade no texto é contrapor a expectativa de um amanhecer comum, sem entusiasmo, à realidade do personagem.
  2. Bmetonímia, a partir da relação de proximidade existente entre o nascer do Sol e a rotina do personagem.
  3. Chipérbole, cuja finalidade no texto é reforçar o drama exagerado criado no início da narrativa.
  4. Dmetáfora, pois é apresentada a ideia de que o Sol é uma promessa de esperança.
  5. Epersonificação, pois se atribui ao Sol uma característica humana que reforça o clima inicial de apatia.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoE — personificação, pois se atribui ao Sol uma característica humana que reforça o clima inicial de apatia.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Personificação no trecho “o Sol nascia sem entusiasmo”

Gabarito: letra E. O trecho “Na janela, o Sol nascia sem entusiasmo, como quem cumpre uma tarefa sem sentido” é exemplo de personificação (prosopopeia), pois atribui ao Sol — ser inanimado — uma característica humana: não ter entusiasmo e cumprir uma tarefa. Como se lê no próprio trecho, o Sol é descrito com ações e sentimentos próprios de pessoa, o que reforça o clima de apatia do personagem.

O comando e o que ele pede

A questão pede que você identifique a figura de linguagem presente em um trecho específico da Crônica 1. Isso é uma tarefa de conceito aplicado ao texto: você precisa reconhecer o mecanismo estilístico e, principalmente, justificar a finalidade dele no contexto. Não basta saber a definição decorada — é preciso ver como a figura atua no trecho e qual efeito produz.

O texto e o movimento argumentativo

Na Crônica 1, o narrador descreve um personagem tomado pela rotina e pela falta de expectativa: “Acordou sem pressa”, “engolido pela rotina”, “não sabia o que procurava”. O trecho em destaque está logo no início e projeta esse estado de espírito no Sol: o astro “nasce sem entusiasmo”, como se também estivesse cumprindo uma obrigação vazia. Essa transferência de sentimentos humanos para um elemento da natureza é exatamente o que caracteriza a personificação.

A técnica que decide

Personificação (ou prosopopeia) é a figura que atribui ações, sentimentos ou características humanas a seres inanimados, animais ou entes abstratos. No trecho, o Sol não apenas nasce — ele nasce sem entusiasmo, como quem cumpre uma tarefa sem sentido. Essas são qualidades tipicamente humanas: entusiasmo e senso de dever. O Sol, como astro, não tem emoções; ao descrevê-lo assim, o autor humaniza o elemento natural para reforçar o clima de apatia que domina o personagem.

Veja a diferença entre as figuras que aparecem nas alternativas:

Figura

Definição

Ocorre no trecho?

Personificação

Atribui características humanas a seres inanimados

Sim — o Sol “nasce sem entusiasmo”

Metáfora

Comparação implícita, sem conectivo, entre seres diferentes

Não — não há substituição de um termo por outro

Metonímia

Substituição por relação de proximidade (autor pela obra, etc.)

Não — não há substituição

Ironia

Dizer o contrário do que se quer comunicar

Não — não há inversão de sentido

Hipérbole

Exagero intencional

Não — não há exagero

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a confusão entre personificação e metáfora. O trecho tem uma comparação implícita (“como quem cumpre uma tarefa”), mas o núcleo da figura é a atribuição de qualidade humana ao Sol — isso é personificação, não metáfora. A metáfora exigiria uma substituição (ex.: “o Sol é um funcionário cansado”), o que não ocorre.

Análise das alternativas

1Atribui sentimentos humanos
Sol "nasce sem entusiasmo"
Sol "cumpre tarefa sem sentido"
2Efeito no texto
Reforça clima de apatia
Projeta estado do personagem
3Confusões comuns
Metáfora (exige substituição)
Comparação (tem conectivo)
Personificação (prosopopeia)
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Personificação (prosopopeia): Atribui sentimentos humanos (Sol "nasce sem entusiasmo", Sol "cumpre tarefa sem sentido"); Efeito no texto (Reforça clima de apatia, Projeta estado do personagem); Confusões comuns (Metáfora (exige substituição), Comparação (tem conectivo))

Alternativa A — ❌ Incorreta

Ironia consiste em dizer o contrário do que se pretende, geralmente com tom crítico ou humorístico. No trecho, não há inversão de sentido: o Sol é descrito de forma literalmente apática, sem qualquer tom irônico. A alternativa extrapola ao inventar uma “contraposição” entre expectativa e realidade que o texto não estabelece.

Alternativa B — ❌ Incorreta

Metonímia é a substituição de um termo por outro com relação de proximidade (ex.: “li Machado” = obra pelo autor). No trecho, não há substituição — o Sol é nomeado diretamente. A alternativa tangencia o tema ao falar em “relação de proximidade”, que não se aplica aqui.

Alternativa C — ❌ Incorreta

Hipérbole é o exagero intencional (ex.: “morrer de rir”). No trecho, não há exagero: a descrição é contida, melancólica, sem intensificação dramática. A alternativa acrescenta um “drama exagerado” que o texto não apresenta — o clima é de apatia, não de exagero.

Alternativa D — ❌ Incorreta

Metáfora é a comparação implícita sem conectivo (ex.: “ele é um leão”). No trecho, há um conectivo comparativo (“como quem cumpre uma tarefa”), o que caracterizaria comparação (símile), não metáfora. Além disso, a ideia de “promessa de esperança” contradiz o texto, que fala em “sem entusiasmo” e “sem sentido”.

Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO

Personificação é exatamente o que ocorre: atribui-se ao Sol a capacidade de nascer sem entusiasmo e de cumprir uma tarefa sem sentido — ações e sentimentos humanos. Essa humanização do astro reforça o clima inicial de apatia do personagem, como se o mundo inteiro compartilhasse de seu vazio. A alternativa está inteiramente sustentada pelo trecho e pelo contexto da crônica.

NÃO CAIA NESSA!

Para identificar personificação, pergunte: “o ser inanimado está fazendo algo que só humano faz?”. Se sim, é prosopopeia. Não confunda com metáfora, que exige substituição de termos.

Gabarito: letra E.

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