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Questão de Português — Tipologia e Gênero Textual — CESPE / CEBRASPE 2026

PortuguêsTipologia e Gênero Textual
Código
ce387225
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
UFAC
Ano
2026
Cargo
Vest ( )
O alienista

    Nisto chegou do Rio de Janeiro D. Evarista, esposa do alienista, a tia, a mulher do Crispim Soares, e toda a mais comitiva — ou quase toda — que algumas semanas antes partira de Itaguaí.
    (...)
    Três horas depois cerca de cinquenta convivas sentavam-se em volta da mesa de Simão Bacamarte; era o jantar das boas-vindas. D. Evarista foi o assunto obrigado dos brindes, discursos, versos de toda a casta, metáforas, amplificações, apólogos. Ela era a esposa do novo Hipócrates, a musa da ciência, anjo, divina, aurora, caridade, vida, consolação; trazia nos olhos duas estrelas segundo a versão modesta de Crispim Soares e dous sóis, no conceito de um vereador. (...) Um dos oradores, por exemplo, Martim Brito, rapaz de vinte e cinco anos, pintalegrete acabado, curtido de namoros e aventuras, declamou um discurso em que o nascimento de D. Evarista era explicado pelo mais singular dos reptos. “Deus”, disse ele, “depois de dar o universo ao homem e à mulher, esse diamante e essa pérola da coroa divina,” (e o orador arrastava triunfalmente esta frase de uma ponta a outra da mesa) “Deus quis vencer a Deus, e criou D. Evarista.” 
    D. Evarista baixou os olhos com exemplar modéstia. Duas senhoras, achando a cortesanice excessiva e audaciosa, interrogaram os olhos do dono da casa; e, na verdade, o gesto do alienista pareceu-lhes nublado de suspeitas, de ameaças e, provavelmente, de sangue. O atrevimento foi grande, pensaram as duas damas. (...) Mas o alienista sorria agora para o Martim Brito e, levantados todos, foi ter com ele e falou-lhe do discurso. Não lhe negou que era um improviso brilhante, cheio de rasgos magníficos. Seria dele mesmo a ideia relativa ao nascimento de D. Evarista ou tê-la-ia encontrado em algum autor que?... Não senhor; era dele mesmo; achou-a naquela ocasião e parecera-lhe adequada a um arroubo oratório. De resto, suas ideias eram antes arrojadas do que ternas ou jocosas. Dava para o épico. (...)
    “Pobre moço!”, pensou o alienista. E continuou consigo: “Trata-se de um caso de lesão cerebral: fenômeno sem gravidade, mas digno de estudo...”
    D. Evarista ficou estupefata quando soube, três dias depois, que o Martim Brito fora alojado na Casa Verde. Um moço que tinha ideias tão bonitas! As duas senhoras atribuíram o ato a ciúmes do alienista. Não podia ser outra cousa; realmente, a declaração do moço fora audaciosa demais.
    Ciúmes? Mas como explicar que, logo em seguida, fossem recolhidos José Borges do Couto Leme, pessoa estimável, o Chico das cambraias, folgazão emérito, o escrivão Fabrício e ainda outros? O terror acentuou-se. Não se sabia já quem estava são, nem quem estava doudo. 

Machado de Assis. O alienista. In: 50 contos de Machado de Assis.
São Paulo: Companhia das Letras, 2007, p.38; 55-56 (com adaptações).
O fragmento apresentado de O alienista, de Machado de Assis, caracteriza-se como predominantemente
  1. Acientífico, conforme se conclui do trecho ‘Trata-se de um caso de lesão cerebral’ (quarto parágrafo).
  2. Bépico, conforme se conclui do trecho “Dava para o épico” (final do terceiro parágrafo).
  3. Clírico, conforme se conclui do trecho “trazia nos olhos duas estrelas” (terceiro período do segundo parágrafo).
  4. Dsatírico, conforme se conclui do trecho “(e o orador arrastava triunfalmente esta frase de uma ponta a outra da mesa)” (último período do segundo parágrafo).
  5. Etrágico, conforme se conclui do trecho “o gesto do alienista pareceu-lhes nublado de suspeitas, de ameaças e, provavelmente, de
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GabaritoD — satírico, conforme se conclui do trecho “(e o orador arrastava triunfalmente esta frase de uma ponta a outra da mesa)” (último período do segundo parágrafo).

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Predominância satírica em O alienista

Gabarito: letra D. O fragmento caracteriza-se como predominantemente satírico, e a passagem que o comprova é o parêntese do narrador: “(e o orador arrastava triunfalmente esta frase de uma ponta a outra da mesa)”. O trecho expõe o ridículo da cena — o orador que se acha triunfante ao proferir um elogio absurdo —, e é exatamente esse deboche do narrador sobre a personagem que configura a sátira. As demais alternativas tomam trechos isolados fora de seu contexto irônico e os classificam por seu sentido literal, o que as torna incorretas.

O comando pede que se identifique a predominância do fragmento, ou seja, a intenção que atravessa o texto como um todo, e não o sentido de uma frase solta. Isso muda a resolução: não basta achar uma palavra que remeta a um gênero (como “épico” ou “ciência”); é preciso verificar se o tom geral do trecho sustenta aquela classificação. No fragmento, o narrador descreve uma cena de exagero e bajulação — D. Evarista é chamada de “musa da ciência, anjo, divina, aurora” — e, logo em seguida, o alienista interna o autor do elogio por “lesão cerebral”. A ironia machadiana está em tratar o absurdo com naturalidade, e é isso que a alternativa D captura.

A técnica decisiva aqui é distinguir o sentido literal do sentido irônico. As alternativas A, B e C citam trechos que, lidos fora do contexto, parecem científicos, épicos ou líricos, mas que, no conjunto, são paródias desses estilos. O narrador não está fazendo ciência ao dizer “lesão cerebral”; está ridicularizando a pretensão científica de Simão Bacamarte. Não está escrevendo um épico ao dizer “Dava para o épico”; está ironizando a autoimagem do orador. Não está fazendo lirismo ao dizer “duas estrelas”; está satirizando o exagero dos elogios. A sátira é o gênero que zomba de outros gêneros ou comportamentos, e é exatamente isso que o texto faz.

O gancho para resolver a questão é simples: pergunte-se se o trecho citado sustenta a classificação sozinho ou se ela depende de um tom irônico que o desmente. Se o trecho, no contexto, significa o oposto do que diz literalmente, a classificação literal é falsa. A única alternativa que aponta para o efeito de ridículo — e não para o sentido denotativo — é a D.

Predominância do fragmento
  • 1Sátira (gabarito)
    • Narrador zomba das personagens
    • Paródia de outros estilos
    • Ex.: "arrastava triunfalmente"
  • 2Falsas classificações
    • Científico (sentido literal)
    • Épico (autoimagem do orador)
    • Lírico (elogio exagerado)
    • Trágico (percepção das senhoras)
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Alternativa A — ❌ Incorreta

O trecho “Trata-se de um caso de lesão cerebral” é a fala do alienista, mas ela é irônica: Simão Bacamarte diagnostica como doença cerebral o fato de Martim Brito ter feito um elogio exagerado. O texto não está fazendo ciência; está satirizando a pretensão científica de transformar um elogio em patologia. A alternativa extrapola o sentido literal da frase e ignora o contexto irônico.

Alternativa B — ❌ Incorreta

O trecho “Dava para o épico” é a fala de Martim Brito sobre suas próprias ideias, e o narrador a apresenta com distanciamento crítico. A palavra “épico” aqui não classifica o texto, mas sim a autoimagem ridícula do orador. A alternativa contradiz o tom do fragmento, que é de deboche, não de exaltação épica.

Alternativa C — ❌ Incorreta

O trecho “trazia nos olhos duas estrelas” é um elogio exagerado feito por Crispim Soares, e o narrador o apresenta como parte da “cortesanice excessiva e audaciosa”. A linguagem é paródia do lirismo, não lirismo genuíno. A alternativa tangencia o tema ao tomar o sentido figurado literalmente, sem perceber a ironia.

Alternativa D — ✅ Correta ⟵ GABARITO

O parêntese “(e o orador arrastava triunfalmente esta frase de uma ponta a outra da mesa)” é a intervenção irônica do narrador, que expõe o ridículo da cena: o orador se acha triunfante ao proferir um elogio absurdo. Esse deboche é a marca da sátira, que zomba do comportamento humano. A alternativa captura o efeito de ridículo que predomina no fragmento.

Alternativa E — ❌ Incorreta

O trecho “o gesto do alienista pareceu-lhes nublado de suspeitas, de ameaças e, provavelmente, de sangue” descreve a percepção exagerada das duas senhoras, que imaginam ciúmes e violência. O texto não é trágico; ele satiriza o exagero das personagens, que transformam um elogio em ameaça de morte. A alternativa extrapola o sentido do trecho, atribuindo-lhe um tom que o contexto desmente.

NÃO CAIA NESSA!

A banca oferece trechos com palavras que remetem a gêneros (científico, épico, lírico, trágico) para tentar o candidato a classificá-los pelo sentido literal. A chave é perceber que todos esses trechos são paródias — o narrador os usa para ridicularizar, não para aderir ao estilo.

PEGA ESSA DICA!

Ao identificar a predominância de um texto, procure o tom do narrador. Se ele zomba das personagens ou dos estilos, o texto é satírico, mesmo que use palavras de outros gêneros.

Gabarito: letra D — a única alternativa que aponta para o efeito de ridículo, e não para o sentido literal dos trechos.

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