De acordo com o humanismo, as experiências ocorrem dentro de nós e devemos encontrar em nosso interior o sentido de tudo o que acontece, impregnando desse modo o universo de significado. Os dataístas acreditam que experiências não têm valor se não forem compartilhadas e que não precisamos — na verdade não podemos — encontrar significado em nosso interior. Só precisamos gravar e conectar nossa experiência ao grande fluxo de dados, e os algoritmos vão descobrir seu significado e nos dizer o que fazer.
À pergunta “o que faz os humanos serem superiores aos outros animais?” o dataísmo apresenta uma resposta inédita e simples. Em si mesmas, as experiências humanas não são superiores às dos lobos ou elefantes. Cada bit de dados é tão bom num caso como no outro. Contudo, um humano pode escrever um poema sobre sua experiência e postá-lo online, enriquecendo com isso o sistema global de processamento de dados. Isso confere valor aos seus bits. Um lobo não é capaz de fazer isso. Daí que todas as experiências do lobo — por mais profundas e complexas que possam ser — resultam inúteis. Não é de admirar que nos ocupemos tanto em converter nossas experiências em dados. Não é uma questão de tendência ou moda. É uma questão de sobrevivência. Temos de provar a nós mesmos e ao sistema que ainda temos valor. E o valor reside não em ter tido experiências, e sim em fazer delas um fluxo livre de dados.
Yuval Noah Harari. Homo Deus: uma breve história do amanhã. Paulo Geiger (Trad.).
1.ª ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2016, p. 389 (com adaptações).
Em relação às ideias e aos aspectos linguísticos do texto apresentado, julgue o item a seguir. A oração que compõe o segundo período do segundo parágrafo classifica-se como subordinada adverbial comparativa.
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Oração subordinada adverbial comparativa no segundo período do segundo parágrafo
Gabarito: ERRADO. A oração que compõe o segundo período do segundo parágrafo — "Em si mesmas, as experiências humanas não são superiores às dos lobos ou elefantes" — não é uma subordinada adverbial comparativa, pois não há nela conjunção comparativa (como, do que, qual, tal qual, assim como, que nem) nem uma estrutura que estabeleça comparação entre duas orações. O que existe é uma comparação implícita no predicativo "superiores às dos lobos ou elefantes", mas isso não torna a oração subordinada adverbial comparativa. A classificação correta é de oração absoluta (período simples), pois contém apenas um verbo.
O enunciado pede um julgamento sobre a classificação sintática de uma oração específica. Para resolver, é preciso identificar o período, localizar a oração e verificar se ela é introduzida por uma conjunção subordinativa adverbial comparativa. A banca explora a confusão entre comparação semântica (presente no texto) e oração subordinada adverbial comparativa (estrutura sintática específica).
Desenvolvimento: a técnica de análise
1. O comando: a questão é de gramática aplicada ao texto — pede para julgar a classificação de uma oração. Não se trata de interpretação de ideias, mas de análise sintática de um trecho específico. O verbo "classifica-se" indica que a resposta depende da estrutura da oração, não do sentido global do parágrafo.
2. O texto: o segundo parágrafo apresenta a resposta do dataísmo à pergunta sobre a superioridade humana. O segundo período é: "Em si mesmas, as experiências humanas não são superiores às dos lobos ou elefantes." Esse período tem um único verbo ("são"), portanto é um período simples, formado por uma oração absoluta. Não há oração subordinada alguma — muito menos adverbial comparativa.
3. A regra que decide: a oração subordinada adverbial comparativa é aquela que estabelece uma comparação entre dois elementos e é introduzida por conjunções comparativas (como, do que, que, qual, tal qual, assim como, que nem, quanto). Exemplo: "Ela é mais alta do que eu sou." No trecho do texto, a palavra "superiores" expressa uma comparação, mas ela está dentro do predicativo do sujeito ("superiores às dos lobos ou elefantes"), funcionando como um adjunto adnominal ou complemento nominal — não como uma oração. A comparação é feita por um termo, não por uma oração.
"Em si mesmas, as experiências humanas não são superiores às dos lobos ou elefantes."
A expressão "às dos lobos ou elefantes" é um termo que completa o sentido de "superiores" — não há verbo, logo não há oração. Para ser subordinada adverbial comparativa, seria necessário algo como: "as experiências humanas não são superiores do que são as dos lobos" (com verbo "são" explícito ou elíptico e conjunção comparativa).
4. O gancho: ao julgar a classificação de uma oração, pergunte: há conjunção subordinativa? há verbo na oração? Se a resposta for não, não pode ser oração subordinada. A banca tentou confundir a comparação de sentido (presente no texto) com a estrutura sintática de oração comparativa.
Análise da assertiva
Oração subordinada adverbial comparativa
1Exige conjunção comparativa
como, do que, que, tal qual
2Exige verbo na oração
Ex.: "mais alta do que eu sou"
3Comparação semântica ≠ oração
Termo comparativo sem verbo
Ex.: "superiores às dos lobos"
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Assertiva — ❌ ERRADO
A afirmação de que a oração "classifica-se como subordinada adverbial comparativa" é falsa. O segundo período do segundo parágrafo é um período simples (oração absoluta), pois possui apenas um verbo ("são"). Não há conjunção comparativa nem uma segunda oração que estabeleça a comparação. A comparação está expressa por um termo ("às dos lobos ou elefantes"), não por uma oração.
PEGA ESSA DICA!
Para identificar uma oração subordinada adverbial comparativa, procure a conjunção comparativa (como, do que, que, tal qual) e um verbo na oração. Se houver apenas um termo comparativo (sem verbo), não é oração — é adjunto adverbial ou complemento nominal.
Conclusão: a assertiva está errada porque classifica como oração subordinada adverbial comparativa um período que é, na verdade, um período simples. A comparação presente no texto é semântica, não sintática. Gabarito: ERRADO.