Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — CESPE / CEBRASPE 2026
- Código
- ce387240
- Banca
- CESPE / CEBRASPE
- Órgão
- TCU
- Ano
- 2026
- Cargo
- AUFC ( )
- CCerto
- EErrado
GabaritoC — Certo
Gabarito: ✅ CERTO. O texto de Padre Antônio Vieira não defende que o poder real se justifica pelo direito divino dos reis; pelo contrário, ele critica essa concepção, mostrando que os reis, embora superiores aos súditos, estão submetidos à lei natural e divina, e que o poder absoluto é um engano. A passagem que ancora essa leitura é:
"Cuidam, ou devem cuidar alguns príncipes que, assim como são superiores a todos, assim são senhores de tudo, e é engano."
O autor afirma que os príncipes que se julgam senhores de tudo estão em engano, e que a lei da restituição (lei natural e divina) obriga também aos reis. Portanto, a afirmação do item — de que o texto evidencia a concepção de que o poder real se justificava pelo direito divino — contradiz a tese central do sermão.
O comando pede que se julgue se o texto evidencia a concepção de que o poder real se justificava pelo direito divino dos reis. Trata-se de uma questão de compreensão (o que o texto afirma) e, ao mesmo tempo, de inferência (o que se pode concluir das pistas textuais). A resposta correta exige que se perceba a tese do autor: Vieira não está defendendo o absolutismo, mas refutando a ideia de que os reis são senhores de tudo.
O texto começa com uma "primeira verdade" — a restituição do alheio é obrigatória sob pena de salvação — e estende essa obrigação aos reis. Em seguida, Vieira critica a suposição de que os príncipes, por serem superiores, seriam senhores de tudo: "é engano". Ele fundamenta essa crítica na lei natural (que faz iguais a todos) e na lei divina (que submete os reis a Deus). A passagem decisiva é:
"A lei da restituição é lei natural e lei divina. Enquanto lei natural, obriga aos reis, porque a natureza fez iguais a todos; e enquanto lei divina, também os obriga, porque Deus, que os fez maiores que os outros, é maior que eles."
Aqui, Vieira reconhece que Deus fez os reis maiores que os outros, mas isso não os torna senhores de tudo; pelo contrário, os submete à lei divina. O poder real, portanto, não é absoluto nem se justifica por si mesmo — ele está limitado pela justiça e pela obrigação de restituir o que foi tomado injustamente.
A técnica para resolver: não confundir a tese do autor com a opinião que ele combate. Vieira cita a concepção de que os príncipes são senhores de tudo para refutá-la ("é engano"). O item, ao afirmar que o texto evidencia essa concepção, inverte a posição do autor. A banca explora a extrapolação: o candidato pode ler a menção a Deus e aos reis e concluir que o texto defende o direito divino, mas o texto faz exatamente o oposto.
A afirmação de que "no texto, é evidente a concepção de que o poder real se justificava pelo direito divino dos reis" não encontra respaldo no texto. Pelo contrário, o texto refuta essa concepção. Vejamos as evidências:
O autor chama de engano a ideia de que os príncipes são senhores de tudo: "Cuidam, ou devem cuidar alguns príncipes que, assim como são superiores a todos, assim são senhores de tudo, e é engano."
A lei da restituição obriga aos reis, tanto pela lei natural quanto pela divina: "obriga aos reis, porque a natureza fez iguais a todos; e enquanto lei divina, também os obriga, porque Deus, que os fez maiores que os outros, é maior que eles."
Vieira conclui que os príncipes que tomam o que não lhes é devido cometem rapina e latrocínio e estão obrigados à restituição: "se os príncipes tomarem por violência o que se lhes não deve, é rapina e latrocínio."
Portanto, o texto não defende o direito divino dos reis como justificativa do poder absoluto; ao contrário, limita o poder real pela lei divina e natural. A afirmação do item é uma extrapolação (acrescenta uma ideia que o texto não sustenta) e, na verdade, contradiz a tese central.
A banca explora a confusão entre a tese do autor (que critica o poder absoluto) e a ideia de que o texto defende o direito divino. O texto menciona Deus e os reis, mas para submetê-los à lei, não para justificar o poder absoluto.
Em questões de compreensão, identifique a tese do autor (geralmente na introdução ou conclusão) e verifique se a alternativa a parafraseia ou a inverte. Desconfie de afirmações que soam plausíveis mas que o texto não sustenta — muitas vezes são extrapolações.
Conclusão: o item está ERRADO, pois o texto de Vieira refuta a concepção de que o poder real se justifica pelo direito divino dos reis, submetendo os monarcas à lei natural e divina. A resposta correta é ERRADO.
Gabarito: ERRADO.
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