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Questão de Português — Conjunção — CESPE / CEBRASPE 2026

PortuguêsConjunção
Código
ce387243
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
TCU
Ano
2026
Cargo
AUFC ( )
        Suposta esta primeira verdade, certa e infalível; a segunda cousa que suponho com a mesma certeza é que a restituição do alheio sob pena da salvação não só obriga aos súditos e particulares, senão também aos cetros e às coroas. Cuidam, ou devem cuidar alguns príncipes que, assim como são superiores a todos, assim são senhores de tudo, e é engano. A lei da restituição é lei natural e lei divina. Enquanto lei natural, obriga aos reis, porque a natureza fez iguais a todos; e enquanto lei divina, também os obriga, porque Deus, que os fez maiores que os outros, é maior que eles. Esta verdade só tem contra si a prática e o uso. Mas por parte deste mesmo uso argumenta assim São Tomás, o qual é hoje o meu doutor, e nestas matérias o de maior autoridade: a rapina, ou roubo, é tomar o alheio violentamente contra vontade de seu dono: “os príncipes tomam muitas cousas a seus vassalos violentamente, e contra sua vontade; logo, parece que o roubo é lícito em alguns casos, porque se dissermos que os príncipes pecam nisto, todos eles, ou quase todos se condenariam”. Oh que terrível e temerosa consequência e quão digna de que a considerem profundamente os príncipes, e os que têm parte em suas resoluções e conselhos! Responde ao seu argumento o mesmo Doutor angélico (...). Respondo (diz S. Tomás) que, se os príncipes tiram dos súbditos o que segundo justiça lhes é devido para conservação do bem comum, ainda que o executem com violência, não é rapina ou roubo. Porém, se os príncipes tomarem por violência o que se lhes não deve, é rapina e latrocínio. Donde se segue que estão obrigados à restituição como os ladrões, e que pecam tanto mais gravemente que os mesmos ladrões, quanto mais perigoso e mais comum o dano com que ofendem a justiça pública, de que eles estão postos por defensores.

Padre António Vieira. Sermão do bom ladrão. Pregado na Igreja da Misericórdia de
Lisboa, no ano de 1655. Internet: <dominiopublico.com.br>  (com adaptações). 
Julgue o item a seguir, referentes a ideias e aspectos gramaticais do texto precedente.   No segmento “Enquanto lei natural” (quarto período), o termo “Enquanto” expressa circunstância de tempo concomitante.
  1. CCerto
  2. EErrado
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GabaritoE — Errado

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Valor semântico de “Enquanto” no texto

Gabarito: ERRADO. No segmento “Enquanto lei natural”, o termo “Enquanto” não expressa circunstância de tempo concomitante, mas sim uma ideia de proporcionalidade/condição — equivale a “na qualidade de”, “como”, “no que diz respeito a”. A banca tenta induzir o candidato a classificar a conjunção como temporal, mas o contexto mostra outro valor.

No trecho do sermão, Vieira escreve: “A lei da restituição é lei natural e lei divina. Enquanto lei natural, obriga aos reis, porque a natureza fez iguais a todos; e enquanto lei divina, também os obriga, porque Deus, que os fez maiores que os outros, é maior que eles.” Aqui, “enquanto” não marca simultaneidade de eventos no tempo; marca uma perspectiva — “considerada como lei natural” / “considerada como lei divina”. É o mesmo uso de “enquanto” em “enquanto aluno, você deve estudar” (na condição de aluno). Portanto, a afirmação do item está incorreta.

"Enquanto" (polissemia)
  • 1Temporal (concomitância)
    • "Enquanto chovia, eu lia"
  • 2Condicional/qualificação
    • "Enquanto lei natural, obriga"
    • Equivale a "na qualidade de"
    • Contexto desfaz ambiguidade
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Análise do item

O item afirma que “Enquanto” expressa circunstância de tempo concomitante. Isso seria verdadeiro em frases como “Enquanto chovia, eu lia” — aí há simultaneidade entre duas ações. Mas no texto, a estrutura é “Enquanto lei natural, obriga aos reis” — não há duas ações simultâneas; há uma qualificação do termo “lei”. A conjunção “enquanto” pode ter valor temporal, proporcional ou condicional, dependendo do contexto. Aqui, o valor é de conformidade/condição (equivale a “na medida em que”, “como”, “na qualidade de”).

PEGA ESSA DICA!

Ao analisar o valor de uma conjunção, substitua-a por outra de valor conhecido e veja se o sentido se mantém. Troque “enquanto” por “na qualidade de” — se fizer sentido, não é temporal.

Conclusão

O item está ERRADO, pois o valor de “Enquanto” no texto é de condição/qualificação, não de tempo concomitante. A banca explora a polissemia da conjunção, mas o contexto desfaz a ambiguidade.

Gabarito: E (Errado)

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