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Questão de Português — Função Sintática dos Pronomes Pessoais Átonos — CESPE / CEBRASPE 2026

PortuguêsFunção Sintática dos Pronomes Pessoais Átonos
Código
ce387244
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
TCU
Ano
2026
Cargo
AUFC ( )
        Suposta esta primeira verdade, certa e infalível; a segunda cousa que suponho com a mesma certeza é que a restituição do alheio sob pena da salvação não só obriga aos súditos e particulares, senão também aos cetros e às coroas. Cuidam, ou devem cuidar alguns príncipes que, assim como são superiores a todos, assim são senhores de tudo, e é engano. A lei da restituição é lei natural e lei divina. Enquanto lei natural, obriga aos reis, porque a natureza fez iguais a todos; e enquanto lei divina, também os obriga, porque Deus, que os fez maiores que os outros, é maior que eles. Esta verdade só tem contra si a prática e o uso. Mas por parte deste mesmo uso argumenta assim São Tomás, o qual é hoje o meu doutor, e nestas matérias o de maior autoridade: a rapina, ou roubo, é tomar o alheio violentamente contra vontade de seu dono: “os príncipes tomam muitas cousas a seus vassalos violentamente, e contra sua vontade; logo, parece que o roubo é lícito em alguns casos, porque se dissermos que os príncipes pecam nisto, todos eles, ou quase todos se condenariam”. Oh que terrível e temerosa consequência e quão digna de que a considerem profundamente os príncipes, e os que têm parte em suas resoluções e conselhos! Responde ao seu argumento o mesmo Doutor angélico (...). Respondo (diz S. Tomás) que, se os príncipes tiram dos súbditos o que segundo justiça lhes é devido para conservação do bem comum, ainda que o executem com violência, não é rapina ou roubo. Porém, se os príncipes tomarem por violência o que se lhes não deve, é rapina e latrocínio. Donde se segue que estão obrigados à restituição como os ladrões, e que pecam tanto mais gravemente que os mesmos ladrões, quanto mais perigoso e mais comum o dano com que ofendem a justiça pública, de que eles estão postos por defensores.

Padre António Vieira. Sermão do bom ladrão. Pregado na Igreja da Misericórdia de
Lisboa, no ano de 1655. Internet: <dominiopublico.com.br>  (com adaptações). 
Julgue o item a seguir, referentes a ideias e aspectos gramaticais do texto precedente.   Pela construção dos sentidos do trecho “Respondo (diz S. Tomás) que, se os príncipes tiram dos súbditos o que segundo justiça lhes é devido para conservação do bem comum, ainda que o executem com violência, não é rapina ou roubo” (antepenúltimo período), é correto concluir que o termo “lhes” remete a “príncipes”.
  1. CCerto
  2. EErrado
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GabaritoC — Certo

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Referência do pronome "lhes" no Sermão do Bom Ladrão

Gabarito: letra C (CERTO). O pronome "lhes", no trecho citado, remete a "príncipes", pois retoma o termo plural mencionado anteriormente na oração "se os príncipes tiram dos súbditos o que segundo justiça lhes é devido". A pista decisiva está na própria estrutura do período: o pronome "lhes" é o objeto indireto de "é devido" (algo é devido a eles, os príncipes), e o único antecedente plural compatível é "príncipes".

O comando pede uma análise de coesão referencial: identificar o antecedente de um pronome oblíquo átono dentro do período. Isso não é uma questão de interpretação ampla do texto, mas de gramática aplicada ao contexto — a resposta se prova pela substituição do pronome pelo termo que ele retoma, sem alterar o sentido.

No trecho, temos a seguinte estrutura:

"se os príncipes tiram dos súbditos o que segundo justiça lhes é devido para conservação do bem comum"

O verbo "devido" (no sentido de "devido a alguém") rege objeto indireto: o que é devido a alguém. O pronome "lhes" exerce exatamente essa função — é o objeto indireto de "é devido". A pergunta é: a quem é devido? A resposta está no próprio período: é devido aos príncipes, que são os que "tiram dos súbditos" aquilo que lhes é devido. O pronome "lhes" retoma "os príncipes", evitando a repetição do termo.

A técnica para confirmar é a substituição: troque "lhes" pelo termo que se supõe ser o antecedente e veja se a frase mantém o sentido. "...o que segundo justiça é devido aos príncipes para conservação do bem comum" — a frase permanece coerente e fiel ao texto. Se tentássemos outro antecedente, como "súbditos", a frase ficaria ilógica: "o que é devido aos súbditos para conservação do bem comum" não faz sentido no contexto, pois são os príncipes que tomam dos súbditos aquilo que lhes (aos príncipes) é devido.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a confusão entre o referente do pronome e o termo mais próximo ou mais saliente do período. O candidato apressado pode pensar que "lhes" se refere a "súbditos" (por estarem mais próximos), mas a regência do verbo "devido" e a lógica do período apontam para "príncipes".

PEGA ESSA DICA!

Para resolver questões de referência pronominal, substitua o pronome pelo suposto antecedente e verifique se a frase mantém o sentido. Se a substituição gerar incoerência, o antecedente está errado.

Referência do pronome "lhes"
  • 1Antecedente correto
    • "os príncipes"
    • Prova: substituição mantém o sentido
  • 2Função sintática
    • Objeto indireto de "é devido"
  • 3Pegadinha da banca
    • Confundir com "súbditos" (mais próximo)
    • Substituição gera incoerência
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Item — ✅ CERTO

A afirmação está correta. O pronome "lhes" é um pronome pessoal oblíquo átono de 3ª pessoa do plural, que exerce função de objeto indireto. No trecho, ele retoma "os príncipes", termo plural que aparece na oração condicional "se os príncipes tiram dos súbditos". A prova está na substituição: "o que segundo justiça é devido aos príncipes" — a frase mantém o sentido original. O pronome "lhes" evita a repetição de "aos príncipes", funcionando como elemento coesivo anafórico.

Conclusão: como o pronome "lhes" retoma corretamente "príncipes", o item está CERTO. A chave da questão é identificar o antecedente pelo contexto e pela regência verbal: "devido" exige objeto indireto, e o único termo plural compatível no período é "príncipes".

Gabarito: letra C (CERTO).

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