Questão de Português — Outras Questões de Semântica — CESPE / CEBRASPE 2026
- Código
- ce387245
- Banca
- CESPE / CEBRASPE
- Órgão
- TCU
- Ano
- 2026
- Cargo
- AUFC ( )
- CCerto
- EErrado
GabaritoE — Errado
Gabarito: letra E (Errado). O trecho introduzido pelos dois-pontos após "autoridade" não explicita o termo elíptico em "o de maior autoridade"; ele apresenta a citação literal do argumento de São Tomás, que é o conteúdo do que foi dito. A elipse em "o de maior autoridade" refere-se a "doutor" (o doutor de maior autoridade), e não ao conteúdo citado.
A questão pede um julgamento sobre a função dos dois-pontos e a elipse em um trecho específico. É uma questão de gramática aplicada ao texto: não basta saber a definição de dois-pontos ou de elipse; é preciso identificar, no trecho, o que cada recurso faz. O comando afirma que o trecho após os dois-pontos "consiste na explicitação do termo que está elíptico em 'o de maior autoridade'". Para julgar, precisamos responder: (1) qual termo está elíptico em "o de maior autoridade"? (2) o que o trecho após os dois-pontos realmente explicita?
No sexto período, Vieira escreve:
"Mas por parte deste mesmo uso argumenta assim São Tomás, o qual é hoje o meu doutor, e nestas matérias o de maior autoridade: a rapina, ou roubo, é tomar o alheio violentamente contra vontade de seu dono: 'os príncipes tomam muitas cousas a seus vassalos violentamente, e contra sua vontade; logo, parece que o roubo é lícito em alguns casos, porque se dissermos que os príncipes pecam nisto, todos eles, ou quase todos se condenariam'."
Vamos decompor:
"o qual é hoje o meu doutor, e nestas matérias o de maior autoridade": aqui, "o" é um pronome demonstrativo que retoma "doutor". A expressão completa seria "o doutor de maior autoridade". O termo "doutor" está elíptico (omitido), mas é facilmente recuperável pelo contexto imediato. A elipse é um mecanismo de coesão que evita a repetição.
Os dois-pontos após "autoridade": introduzem a fala/citação de São Tomás. O verbo "argumenta" (de "argumenta assim São Tomás") anuncia que se seguirá o conteúdo do argumento. Os dois-pontos, aqui, têm a função clássica de introduzir uma citação direta ou uma enumeração/explicação do que foi anunciado. No caso, introduzem a citação literal do raciocínio de Tomás de Aquino.
A pegadinha está em confundir dois mecanismos diferentes: a elipse (omissão de um termo recuperável) e a citação (reprodução de uma fala). O trecho após os dois-pontos não "explicita" o termo elíptico "doutor"; ele traz o conteúdo do argumento de São Tomás. Se o autor quisesse explicitar o termo elíptico, escreveria algo como "o doutor de maior autoridade". Em vez disso, ele usa os dois-pontos para introduzir a citação que comprova o que foi dito.
A afirmação está errada por dois motivos:
O termo elíptico é "doutor", não o conteúdo citado. Em "o de maior autoridade", o pronome "o" retoma "doutor" (dito na oração anterior: "o qual é hoje o meu doutor"). A elipse é de "doutor", e não de algo que os dois-pontos explicitem.
Os dois-pontos introduzem uma citação, não uma explicitação do termo elíptico. O trecho "a rapina, ou roubo, é tomar o alheio violentamente contra vontade de seu dono: 'os príncipes tomam...'" é a fala de São Tomás (marcada inclusive por aspas), que Vieira transcreve para fundamentar seu argumento. A função dos dois-pontos é anunciar a citação, e não explicitar um termo omitido.
Ao julgar itens sobre elipse, pergunte-se: "qual termo foi omitido e é recuperável pelo contexto?". A elipse sempre remete a um termo já mencionado (anáfora) ou facilmente inferível. Já os dois-pontos podem introduzir citação, enumeração, explicação ou síntese — mas nunca "explicitam" um termo elíptico; eles introduzem um novo conteúdo.
Conclusão: a assertiva confunde a função dos dois-pontos (introduzir citação) com a elipse (omissão de termo). O termo elíptico é "doutor", e o trecho após os dois-pontos é a fala de São Tomás. Portanto, o item está errado.
Gabarito: letra E.
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