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Questão de Português — Coerência. Coesão (Anáfora, Catáfora, Uso dos Conectores - Pronomes Relativos, Conjunções, etc) — CESPE / CEBRASPE 2026

PortuguêsCoerência. Coesão (Anáfora, Catáfora, Uso dos Conectores - Pronomes Relativos, Conjunções, etc)
Código
ce387283
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
IRBr
Ano
2026
Cargo
Diplomata

Ainda antes do dia de São José, o prefeito inaugurou a escola, que teve a construção — com telhas de cerâmica que nenhuma casa de trabalhador poderia ter — concluída no verão. O prédio recebeu o nome de Antônio Peixoto, pai dos Peixoto. Homem que, diziam, foi proprietário da fazenda, mas nunca havia posto os pés ali. Todos os moradores estiveram presentes à inauguração: as mulheres de lenço na cabeça; os homens de chapéu e enxada na mão; as crianças rindo da novidade, um pequeno prédio de três salas, e sem o tal banheiro que ninguém tinha mesmo. Da família Peixoto se fez presente também a irmã mais velha, que nunca havia visto por ali. (...) Quando retiraram o papel que cobria a placa com o nome de seu pai falecido, ela quase caiu, num choro convulsivo que fez com que seus irmãos a amparassem para que não desabasse de vez no chão. Nenhuma palavra de agradecimento a meu pai, que, na noite em que celebrava o jerê de santa Bárbara, havia pedido, quase ordenado, o cumprimento da promessa de construção da escola feita à santa no passado. Mas ele estava lá, em pé, um dos primeiros da audiência, segurando a mão de Domingas, e ao lado de minha mãe, com o rosto satisfeito. Pouco importava, poderia ver em seu semblante a luta que havia travado com as forças da encantada santa Bárbara para que tivéssemos um destino diferente do seu, para que não fôssemos analfabetos. Meu pai não sabia nem mesmo assinar o nome, e fez o que estava ao seu alcance para trazer uma escola para a fazenda, para que aprendêssemos letra e matemática.


Itamar Vieira Júnior. Torto arado. São Paulo: Todavia, 2018, p. 95-96.

Julgue o item a seguir, em relação ao texto precedente.   No texto, o foco narrativo na primeira pessoa, identificado tanto na flexão verbal quanto no sistema pronominal, evidencia a ênfase na função emotiva da linguagem, sendo o ponto de vista de um personagem interno à narrativa recurso argumentativo que confere veracidade aos acontecimentos narrados.
  1. CCerto
  2. EErrado
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GabaritoE — Errado

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Foco narrativo em primeira pessoa e função emotiva

Gabarito: ERRADO. O item está errado porque, embora o texto apresente narrador em primeira pessoa ("meu pai", "minha mãe", "tivéssemos"), a função de linguagem predominante não é a emotiva, e sim a referencial (informativa/narrativa), centrada nos fatos da inauguração da escola e na história da família Peixoto. O texto narra acontecimentos objetivos — a inauguração, a reação da irmã, o papel do pai — sem que o narrador exponha diretamente seus próprios sentimentos ou opiniões de forma subjetiva. A passagem que melhor comprova isso é a descrição factual dos eventos: "Todos os moradores estiveram presentes à inauguração: as mulheres de lenço na cabeça; os homens de chapéu e enxada na mão; as crianças rindo da novidade".

O comando da questão

O enunciado pede um julgamento (Certo/Errado) sobre uma afirmação interpretativa que combina dois elementos: (1) a identificação do foco narrativo em primeira pessoa e (2) a consequência atribuída a esse foco — a ênfase na função emotiva e o uso do ponto de vista interno como "recurso argumentativo que confere veracidade". Para resolver, é preciso separar o que o texto realmente apresenta do que a afirmação acrescenta.

O texto: narração em primeira pessoa, mas com função referencial

O texto é um trecho de Torto Arado, romance narrado em primeira pessoa por uma personagem (a filha do homem que pediu a construção da escola). A narração é predominantemente referencial: o narrador relata fatos — a inauguração, a placa, o choro da irmã, a presença do pai — com foco nos acontecimentos e nas personagens, não em seus próprios sentimentos. Veja o trecho que comprova o tom objetivo:

"Quando retiraram o papel que cobria a placa com o nome de seu pai falecido, ela quase caiu, num choro convulsivo que fez com que seus irmãos a amparassem para que não desabasse de vez no chão."

Aqui, o narrador descreve a cena de fora, como um observador que relata o que viu. Não há expressão direta de emoção do narrador (como "fiquei emocionado" ou "senti orgulho"). A função emotiva, por definição, centra-se no emissor e em seus estados interiores; no texto, o centro é o referente (os fatos narrados).

A técnica que decide: função emotiva × função referencial

A função emotiva (ou expressiva) ocorre quando a mensagem está centrada no emissor, com marcas de subjetividade: interjeições, adjetivos avaliativos, verbos em primeira pessoa que expressam sentimentos, opiniões. A função referencial centra-se no contexto, no assunto, nos dados objetivos. No trecho, o narrador usa a primeira pessoa para contar uma história, não para expor suas emoções. Mesmo quando menciona o pai ("Meu pai não sabia nem mesmo assinar o nome"), o faz para informar sobre a condição dele, não para desabafar.

Além disso, o item comete um segundo erro: chama o ponto de vista interno de "recurso argumentativo que confere veracidade". O texto é narrativo, não argumentativo. Não há tese, não há defesa de um ponto de vista; há relato de acontecimentos. A primeira pessoa, em narrativas, é um recurso de focalização (quem conta a história), não um mecanismo de argumentação. A veracidade, em ficção, não é um objetivo — o narrador conta uma história, não prova um fato.

Análise do item

Funções da linguagem
  • 1Emotiva
    • Centrada no emissor
    • Marcas de subjetividade
  • 2Referencial
    • Centrada no assunto
    • Dados objetivos
  • 3Apelativa
    • Centrada no receptor
  • 4Poética
    • Centrada na mensagem
  • 5Foco narrativo
    • 1ª pessoa (narrador-personagem)
      • Recurso de focalização
      • Não é sinônimo de emotiva
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Item — ❌ ERRADO

O item afirma que o foco narrativo em primeira pessoa "evidencia a ênfase na função emotiva da linguagem". Isso contradiz o texto, que é predominantemente referencial. O narrador relata os fatos da inauguração com distanciamento descritivo, sem expor seus próprios sentimentos. A passagem "Nenhuma palavra de agradecimento a meu pai" revela uma constatação do narrador, não uma emoção expressa. Além disso, o item classifica o ponto de vista interno como "recurso argumentativo", o que é inadequado: o texto é narrativo, e a primeira pessoa é um recurso de focalização, não de argumentação. O erro central é a troca de conceito: confundir narrador-personagem (primeira pessoa) com função emotiva, e narrativa com argumentação.

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a confusão entre foco narrativo (quem conta) e função de linguagem (o que a mensagem prioriza). Primeira pessoa não é sinônimo de função emotiva — um narrador em primeira pessoa pode ser impessoal e objetivo, como neste texto.

PEGA ESSA DICA!

Ao julgar itens sobre funções da linguagem, pergunte: "o texto está centrado no emissor (emotiva), no receptor (apelativa), no assunto (referencial) ou na mensagem (poética)?" Aqui, o assunto (a inauguração) domina.

Conclusão: o item está ERRADO porque atribui ao texto uma função emotiva que ele não prioriza e classifica a narrativa como argumentativa. A primeira pessoa, no trecho, é um recurso de focalização narrativa, não de expressão subjetiva. Gabarito: ERRADO.

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