Costuma-se descrever a ciência como uma sucessão de descobertas, cada uma atribuída a uma mente excepcional. Essa descrição é mais simples e, por isso, mais confortável. Porém, é incompleta. Ideias científicas não emergem no vazio. Elas dependem de um sistema que contém instrumentos, linguagem e dados acumulados, bem como de comunidades capazes de reconhecer e, principalmente, criticar seus significados. Para que haja um desfecho por orientação vetorial que conduza ao que conhecemos como a consagração de uma teoria, é preciso haver, sobretudo, convergência.
Uma nova ideia pode se aproximar mais da verdade e, ainda assim, permanecer estéril se os vetores do sistema científico não estiverem suficientemente acoplados para absorvê-la. Por outro lado, quando múltiplas linhas de evidência passam a operar de forma coerente, mesmo ideias inicialmente controversas tornam-se inevitáveis.
A consequência é que a história da ciência é menos uma sucessão de lampejos isolados e mais a de sincronizações oriundas de massas de dados e ideias que vão gradualmente se articulando até que o peso de um novo paradigma se torne insustentável.
Marcos Buckeridge. Quando as ideias encontram (ou não) o seu tempo. Internet: <jornal.usp.br> (com adaptações).
Julgue o item seguinte, com base nas ideias e construções linguísticas do texto precedente. Na oração “Uma nova ideia pode se aproximar mais da verdade”, o emprego do pronome “se” entre as formas verbais “pode” e “aproximar” é típico de textos informais, de modo que, para garantir a formalidade e a correção gramatical do texto, tal pronome deveria ser deslocado para a posição enclítica à forma verbal “aproximar”.
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GabaritoE — Errado
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Colocação pronominal em locução verbal: próclise facultativa com infinitivo
Gabarito: ERRADO (letra E). A afirmação está incorreta porque o emprego do pronome "se" entre as formas verbais "pode" e "aproximar" não é típico de textos informais e não precisa ser deslocado para a posição enclítica. Na verdade, a construção "pode se aproximar" é perfeitamente formal e gramatical, pois, em locuções verbais com verbo principal no infinitivo, a próclise ao verbo principal é facultativa, mesmo sem palavra atrativa. O texto-base, inclusive, utiliza essa construção em um contexto claramente formal, como se lê no 2º parágrafo: "Uma nova ideia pode se aproximar mais da verdade".
O comando da questão
O enunciado pede um julgamento Certo/Errado sobre uma afirmação que mistura duas coisas: (1) uma suposta característica de informalidade da próclise e (2) uma suposta necessidade de correção gramatical. Para resolver, é preciso separar o que é fato gramatical do que é opinião infundada.
A banca não está cobrando interpretação de texto, mas sim conhecimento de colocação pronominal aplicado a um trecho do texto. O comando "Julgue o item seguinte, com base nas ideias e construções linguísticas do texto" indica que a resposta deve considerar tanto a gramática quanto o uso efetivo no texto.
A regra que decide a questão
Em locuções verbais (verbo auxiliar + verbo principal no infinitivo, gerúndio ou particípio), o pronome oblíquo átono pode ocupar três posições:
Próclise ao auxiliar: "pode se aproximar" (o pronome vem antes do auxiliar)
Ênclise ao auxiliar: "pode-se aproximar" (o pronome vem depois do auxiliar)
Ênclise ao principal: "pode aproximar-se" (o pronome vem depois do principal)
Quando não há palavra atrativa, todas essas posições são corretas e formais. A escolha entre elas é uma questão de estilo, não de correção gramatical.
No trecho "Uma nova ideia pode se aproximar mais da verdade", temos:
"pode" = verbo auxiliar
"aproximar" = verbo principal no infinitivo
"se" = pronome oblíquo átono (parte integrante do verbo pronominal "aproximar-se")
Como não há palavra atrativa (como "não", "que", "quando", advérbio etc.) antes do verbo, a próclise "pode se aproximar" é perfeitamente aceitável. A forma "pode aproximar-se" (ênclise ao infinitivo) também seria correta, mas isso não torna a primeira errada ou informal.
PEGA ESSA DICA!
Em locuções verbais com infinitivo, a próclise ao verbo principal é sempre aceitável, mesmo sem palavra atrativa. A ênclise ao infinitivo também é correta. A única posição proibida seria após o particípio (ex.: "tinha aproximado-se" é errado; o correto é "tinha se aproximado" ou "tinha aproximado-se" — na verdade, com particípio, só próclise ao auxiliar ou ênclise ao auxiliar).
Por que a afirmação está errada
A afirmação comete dois erros:
Afirma que a próclise é "típica de textos informais" — isso é falso. A próclise é uma construção formal e culta, usada amplamente em textos acadêmicos, jornalísticos e oficiais. O próprio texto-base, que é um artigo científico adaptado do Jornal da USP, utiliza essa construção.
Afirma que o pronome "deveria ser deslocado" para a posição enclítica — isso é falso. Não há obrigatoriedade de deslocamento. A forma "pode se aproximar" é gramaticalmente correta e não precisa de ajuste.
A banca tenta fazer o candidato acreditar que a próclise em locução verbal é um erro de informalidade, quando na verdade é uma das posições legítimas.
Análise da alternativa
Colocação pronominal em locução verbal
1Posições possíveis (sem palavra atrativa)
Próclise ao auxiliar: "pode se aproximar"
Ênclise ao auxiliar: "pode-se aproximar"
Ênclise ao principal: "pode aproximar-se"
2Com palavra atrativa
Próclise obrigatória
3Com particípio
Ênclise ao particípio (ex.: "tinha aproximado-se")
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Alternativa E — ❌ ERRADO ⟵ GABARITO
A afirmação é incorreta porque:
A próclise "pode se aproximar" é formal e gramatical, não informal.
Não há obrigatoriedade de deslocar o pronome para a ênclise.
A construção está em conformidade com a norma culta, como demonstra o próprio texto-base.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre o que é facultativo (posição do pronome em locução verbal sem palavra atrativa) e o que é obrigatório (próclise com palavra atrativa). Ela tenta fazer o candidato acreditar que a próclise é um erro de informalidade, quando é apenas uma das opções corretas.
Conclusão
A questão testa o conhecimento de colocação pronominal em locuções verbais. A regra de ouro: sem palavra atrativa, o pronome pode ficar antes do auxiliar, depois do auxiliar ou depois do principal — todas as posições são corretas. A próclise não é informal; é uma escolha estilística legítima. Portanto, a afirmação está errada.