Pular para o conteúdo principal

Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — CESPE / CEBRASPE 2026

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
ce387390
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
CAM DEP
Ano
2026
Cargo
TL ( )

Medos e fobias compõem uma lista breve e universal. Cobras e aranhas sempre amedrontam. São o que mais comumente provoca medo e asco em estudantes universitários cujas fobias foram estudadas; isso tem sido assim por muito tempo em nossa história evolutiva. Donald Hebb constatou que chimpanzés nascidos em cativeiro gritam aterrorizados quando veem uma cobra pela primeira vez. Mesmo nas culturas que veneram as serpentes, as pessoas as tratam com muita cautela.

 

Os outros medos comuns são de altura, tempestades, grandes carnívoros, escuridão, sangue, estranhos, confinamento, águas profundas, escrutínio social e deixar a casa sozinha. A linha comum é óbvia: essas são as situações que punham em perigo nossos ancestrais. Aranhas e cobras frequentemente são venenosas, em especial na África, e a maioria dos outros medos representa perigos evidentes para a saúde de um coletor de alimentos ou, no caso do escrutínio social, para o status. O medo é a emoção que motivava nossos ancestrais a lidar com os perigos que tendiam a encontrar.

 

O medo provavelmente consiste em várias emoções. Fobias de coisas físicas, de escrutínio social e de deixar a casa sozinha reagem a diferentes tipos de drogas, o que é um indício de que são computadas por circuitos cerebrais distintos. O psiquiatra Isaac Marks demonstrou que as pessoas reagem de modos diferentes a diferentes estímulos atemorizantes, sendo cada reação apropriada ao perigo. Um animal desencadeia o ímpeto de fugir, mas um precipício faz a pessoa ficar petrificada. Ameaças sociais conduzem à timidez e a gestos de apaziguamento. Há pessoas que realmente desmaiam ao ver sangue, pois sua pressão sanguínea cai, presumivelmente uma reação que minimizaria uma perda adicional de sangue.

 

A melhor evidência de que medos são adaptações, e não apenas erros do sistema nervoso, é que os animais que evoluíram em ilhas sem predadores perdem o medo e se tornam presas fáceis para qualquer invasor. Os medos dos atuais habitantes das cidades protegem-nos de perigos que não existem mais e deixam de nos proteger dos perigos do mundo que nos cerca. Deveríamos ter medo de armas de fogo, de dirigir em alta velocidade, de andar de carro sem cinto de segurança, de fluido de isqueiro e do secador de cabelo perto da banheira, e não de cobras e aranhas. Os responsáveis pela segurança pública tentam incutir o medo no coração dos cidadãos usando todos os recursos, das estatísticas às fotografias chocantes, geralmente em vão. Os pais gritam e castigam os filhos para impedi-los de brincar com fósforos ou de correr atrás da bola na rua, mas, quando se perguntou a estudantes de séries iniciais em Chicago o que eles mais temiam, as crianças citaram leões, tigres e cobras — perigos improváveis naquela cidade.

 

Steven Pinker. O cheiro do medo. In: Como a mente funciona. Laura Motta (Trad.). São Paulo: Companhia das Letras, 1998 (com adaptações)

Julgue o item a seguir, referentes às ideias e a aspectos linguísticos do texto precedente.   De acordo com o texto, os medos do ser humano permanecem os mesmos desde a época de seus ancestrais, mas passaram por processo gradativo de adaptação para a proteção da espécie contra novos perigos.
  1. CCerto
  2. EErrado
Revelar gabarito e comentário

GabaritoE — Errado

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Medos ancestrais e adaptação: o que o texto realmente afirma

Gabarito: ERRADO. A afirmativa inverte a tese central do texto: os medos do ser humano não passaram por adaptação para proteger a espécie contra novos perigos; ao contrário, o texto afirma que eles permanecem os mesmos e não se adaptaram aos perigos modernos. Como se lê no 4º parágrafo: "Os medos dos atuais habitantes das cidades protegem-nos de perigos que não existem mais e deixam de nos proteger dos perigos do mundo que nos cerca."

O comando pede uma compreensão do texto ("De acordo com o texto"), ou seja, a resposta deve ser uma paráfrase fiel do que está escrito, sem acréscimos. A banca, porém, construiu uma afirmativa que contradiz o texto ao trocar a direção da adaptação: o texto diz que os medos são adaptações antigas que não acompanharam os novos perigos; a afirmativa diz que eles passaram por um processo gradativo de adaptação para proteger contra novos perigos. Isso é exatamente o oposto.

O texto, de Steven Pinker, defende que os medos humanos são adaptações evolutivas — ou seja, foram selecionados porque protegiam nossos ancestrais de perigos reais do ambiente ancestral. No 2º parágrafo, o autor afirma: "A linha comum é óbvia: essas são as situações que punham em perigo nossos ancestrais." E no 4º parágrafo, a tese central: os medos não se adaptaram aos perigos modernos — "Deveríamos ter medo de armas de fogo, de dirigir em alta velocidade, de andar de carro sem cinto de segurança, de fluido de isqueiro e do secador de cabelo perto da banheira, e não de cobras e aranhas."

A técnica para resolver: confronte cada afirmação com o texto. A afirmativa tem duas partes: (1) "os medos permanecem os mesmos desde a época de seus ancestrais" — isso o texto confirma (os medos são os mesmos, como mostram as crianças de Chicago que temem leões e tigres); (2) "mas passaram por processo gradativo de adaptação para a proteção da espécie contra novos perigos" — isso o texto nega explicitamente. Como a afirmativa é composta por duas ideias ligadas por "mas", e a segunda é falsa, o item inteiro é ERRADO.

NÃO CAIA NESSA!

A banca inverte a relação de causa e efeito. O texto diz que os medos são adaptações antigas que não se adaptaram aos perigos modernos; a afirmativa diz que eles passaram por adaptação para novos perigos. É uma troca de vocábulo ("não se adaptaram" vira "passaram por adaptação") que inverte o sentido.

PEGA ESSA DICA!

Em itens do tipo "de acordo com o texto", desconfie de palavras como "gradativo", "sempre", "nunca", "apenas" — elas costumam marcar uma generalização ou inversão do que o texto afirma. Confira sempre o trecho exato.

Item — ❌ ERRADO ⟵ GABARITO

A afirmativa está errada porque contradiz o texto. Vejamos os dois trechos decisivos:

"Os medos dos atuais habitantes das cidades protegem-nos de perigos que não existem mais e deixam de nos proteger dos perigos do mundo que nos cerca."

Aqui o autor afirma que os medos não se adaptaram: eles protegem de perigos antigos (que não existem mais) e não protegem dos perigos modernos. Isso é o oposto de "passaram por processo gradativo de adaptação para a proteção da espécie contra novos perigos".

"Deveríamos ter medo de armas de fogo, de dirigir em alta velocidade, de andar de carro sem cinto de segurança, de fluido de isqueiro e do secador de cabelo perto da banheira, e não de cobras e aranhas."

O autor diz que deveríamos ter medo dos perigos modernos, mas não temos — o que prova que os medos não se adaptaram. A afirmativa, ao dizer que eles "passaram por processo gradativo de adaptação", inverte essa ideia.

Além disso, a primeira parte da afirmativa ("os medos permanecem os mesmos desde a época de seus ancestrais") é verdadeira segundo o texto — o autor mostra que as crianças de Chicago temem leões, tigres e cobras, perigos improváveis na cidade. Mas a segunda parte ("mas passaram por processo gradativo de adaptação") é falsa. Como o item é composto por duas ideias ligadas por "mas", e a segunda é falsa, o item inteiro é ERRADO.

Conclusão: a banca trocou a direção da adaptação: o texto diz que os medos não se adaptaram aos novos perigos; a afirmativa diz que passaram por adaptação. Por isso, o item é ERRADO.

Gabarito: ERRADO

Link permanente: /questoes/ce387390