Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — CESPE / CEBRASPE 2026
Português›Interpretação de Textos (Compreensão)
Código
ce387415
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
TCE RN
Ano
2026
Cargo
Ana Adm ( )
Comparações são de grande valor, uma vez que remetem uma relação desconhecida a uma conhecida. Também as comparações mais detalhadas, que evoluem para parábolas ou alegorias, são apenas a referência de alguma relação à sua apresentação mais simples, explícita e palpável.
No fundo, toda formação de conceitos se baseia em comparações, já que seu ponto de partida é a compreensão da semelhança e o abandono da dessemelhança nas coisas. Além disso, em última instância, todo entendimento propriamente dito consiste numa compreensão de relações, mas cada relação será compreendida de maneira mais clara e mais pura quando for reconhecida em casos muito diversificados e entre coisas inteiramente heterogêneas. Assim, enquanto só conheço uma relação num único caso particular, tenho dela somente um conhecimento individual, portanto apenas intuitivo. Porém, logo que identifico a mesma relação em pelo menos dois casos distintos, tenho um conceito de toda a sua espécie, portanto um conhecimento mais profundo e mais perfeito.
Justamente porque as comparações são uma alavanca tão poderosa para o conhecimento, a formulação de comparações surpreendentes e, ao mesmo tempo, apropriadas dá mostras de um entendimento profundo.
Arthur Schopenhauer. A arte de escrever. Tradução: Pedro Süssekind. Porto Alegre: L&PM, 2009 (com adaptações).
Texto CG1A1
Considerando os sentidos do texto CG1A1 e as relações de coesão e coerência nele estabelecidas, julgue o item a seguir.
No trecho "enquanto só conheço uma relação num único caso particular, tenho dela somente um conhecimento individual, portanto apenas intuitivo. Porém, logo que identifico a mesma relação em pelo menos dois casos distintos, tenho um conceito de toda a sua espécie" (segundo parágrafo), o emprego das formas verbais flexionadas na primeira pessoa do singular consiste em uma estratégia narrativa para relatar experiências subjetivas vivenciadas especificamente pelo autor do texto.
CCerto
EErrado
Revelar gabarito e comentário▾
GabaritoE — Errado
Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.
O uso da 1ª pessoa do singular no texto de Schopenhauer
Gabarito: Errado. O emprego das formas verbais na primeira pessoa do singular no trecho citado não consiste em uma estratégia narrativa para relatar experiências subjetivas do autor; trata-se, na verdade, de um recurso de generalização — o "eu" é usado como um sujeito universal para expor um raciocínio que se aplica a qualquer pessoa, não a Schopenhauer especificamente. Como se lê no segundo parágrafo: "enquanto só conheço uma relação num único caso particular, tenho dela somente um conhecimento individual, portanto apenas intuitivo. Porém, logo que identifico a mesma relação em pelo menos dois casos distintos, tenho um conceito de toda a sua espécie". O "eu" aqui é um sujeito genérico, equivalente a "quando alguém conhece...", e não um relato de vivências pessoais do autor.
O comando da questão
O enunciado pede que se julgue a afirmação sobre o sentido e as relações de coesão e coerência do texto. A banca quer saber se o uso da 1ª pessoa do singular tem função narrativa (relatar experiências subjetivas) ou se tem outra função. Isso é uma questão de interpretação — não de gramática pura, mas de efeito de sentido no texto. O verbo "consiste" indica que se deve avaliar a função discursiva do recurso linguístico.
O texto e a tese
O texto de Schopenhauer é um texto dissertativo-argumentativo: defende a tese de que as comparações são fundamentais para o conhecimento. No segundo parágrafo, o autor explica como se formam os conceitos: primeiro conhecemos uma relação em um caso particular (conhecimento individual/intuitivo); depois, identificando a mesma relação em dois casos distintos, formamos um conceito geral (conhecimento mais profundo). O trecho citado é o núcleo do argumento.
A técnica que decide
A chave está em perceber que o "eu" do trecho não é o autor empírico (Arthur Schopenhauer), mas um sujeito universal — um recurso comum em textos filosóficos e científicos para universalizar a afirmação. Quando o autor escreve "enquanto só conheço uma relação...", ele não está contando uma experiência pessoal; está dizendo que qualquer pessoa que conheça uma relação em um único caso terá um conhecimento individual. O uso da 1ª pessoa do singular aqui é uma estratégia de aproximação com o leitor e de generalização do raciocínio, não uma narrativa subjetiva.
"enquanto só conheço uma relação num único caso particular, tenho dela somente um conhecimento individual, portanto apenas intuitivo. Porém, logo que identifico a mesma relação em pelo menos dois casos distintos, tenho um conceito de toda a sua espécie"
A passagem mostra que o "eu" é intercambiável: poderia ser "alguém", "a pessoa", "nós". O texto não relata nenhuma experiência concreta do autor; é um raciocínio lógico sobre o processo de formação de conceitos. Portanto, a afirmação de que se trata de "estratégia narrativa para relatar experiências subjetivas vivenciadas especificamente pelo autor" é falsa.
Análise da alternativa
Uso da 1ª pessoa do singular
1Função no texto
Narrativa subjetiva (relato pessoal)
Sujeito universal (generalização)
2Características do "eu" genérico
Intercambiável (alguém, a pessoa, nós)
Raciocínio aplicável a qualquer um
Recurso de aproximação com o leitor
3Contexto
Texto dissertativo-argumentativo
Formação de conceitos (particular → geral)
LEVEL · soulevel.com.br
Alternativa C — ❌ Incorreta (afirmação falsa)
A alternativa afirma que o uso da 1ª pessoa do singular é uma "estratégia narrativa para relatar experiências subjetivas vivenciadas especificamente pelo autor". Isso está errado por três motivos:
Não é narrativa: o texto é dissertativo-argumentativo, não há narração de fatos ou experiências.
Não é subjetivo: o "eu" é genérico, universal — não expressa sentimentos ou vivências particulares de Schopenhauer.
Não é específico do autor: o raciocínio se aplica a qualquer pessoa; o "eu" poderia ser substituído por "nós" ou "alguém" sem alterar o sentido.
O erro é de extrapolação: a banca tenta fazer o candidato acreditar que a 1ª pessoa do singular sempre indica subjetividade, mas no contexto ela tem função de generalização. A alternativa contradiz o texto, pois atribui uma função narrativa a um trecho claramente argumentativo.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre o uso da 1ª pessoa do singular como marca de subjetividade (comum em narrativas pessoais) e seu uso como sujeito universal em textos argumentativos. No texto, o "eu" é um recurso de generalização, não de relato pessoal.
Conclusão
A alternativa está errada porque o trecho citado não relata experiências subjetivas do autor; o "eu" é um sujeito genérico que universaliza o argumento. Portanto, o item deve ser julgado Errado.