Questão de Português — Reescrita de Frases. Substituição de Palavras ou Trechos de Texto. — CESPE / CEBRASPE 2026
Português›Reescrita de Frases. Substituição de Palavras ou Trechos de Texto.
Código
ce387472
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
SEDUC PI
Ano
2026
Cargo
Prof ( )
Ao lado estava a caixinha de costura, o novelo de linha, o papel com agulhas — a tesoura enferrujada da avó mal cortava os trapos. Mordia a língua, caprichando, entortava a cabeça, mas acabava rasgando os pedaços de pano. Precisava mandar amolar a tesoura, precisava mandar amolar a tesoura, “está cheia de dente, um serrote”. Há muito tempo pensava em amolar aquele traste.
A boneca Ceci esperava de olhos duros o vestido novo — porque em nova forma — se ajeitando nos retalhos furta-cores roubados da avó, da mãe, e até mesmo de Mundoca, que não queria saber de brincadeira.
— O tempo todo com essa boneca, está doida? “Se ela soubesse como Ceci consola a gente.”
As tardes sempre paradas quando o rio baixava, sentava-se na beira do cais, a água no tornozelo, fria e suave, mais tarde a tocar a ponta dos dedos, até ficar a um palmo ou dois de distância, espumando, correndo.
O rio enchia e secava, e ela nas pedras mornas — o barulho de tudo sem uma identificação precisa. Quantos vestidinhos ganhou Ceci naquelas tardes sem conta? Quando não tinha mais retalhos, virava o último vestido pelo avesso, o sujo sumia, Ceci não tinha mais queixas, “agora você está nova em folha”.
Francisco de Assis Almeida Brasil. Beira rio, beira vida. 15.ª edição, Teresina: Edições do Autor, 2013, p. 19.
Texto 12A1-I
Em cada uma das opções a seguir, é apresentada uma proposta de reescrita para o trecho “Quando não tinha mais retalhos”, no último período do texto 12A1-I. Assinale a opção em que a proposta de reescrita apresentada preserva a correção gramatical e os sentidos do texto.
ANão tendo mais retalhos
BPorque não tinha mais retalhos
CAinda que não tivesse mais retalhos
DPor não ter mais retalhos
EComo não tivesse mais retalhos
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GabaritoA — Não tendo mais retalhos
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Reescrita de trecho: oração temporal e oração reduzida de gerúndio
Gabarito: letra A. A reescrita "Não tendo mais retalhos" preserva a correção gramatical e o sentido do trecho original "Quando não tinha mais retalhos" porque transforma a oração subordinada adverbial temporal desenvolvida em oração reduzida de gerúndio, mantendo a mesma relação de tempo (circunstância em que a ação ocorre). As demais alternativas alteram o valor semântico: introduzem ideia de causa (B, D), concessão (C) ou comparação/conformidade (E), o que não corresponde ao sentido original.
O comando: o que a banca pede
A questão pede uma reescrita que preserve dois requisitos: (1) a correção gramatical — ou seja, a frase deve estar de acordo com a norma culta, sem erro de concordância, regência ou pontuação; e (2) os sentidos do texto — ou seja, a reescrita deve manter a mesma relação lógica expressa no trecho original. Não basta ser gramaticalmente correta; é preciso que o valor semântico do conectivo seja mantido. Esse é o ponto central: a banca testa se você reconhece o valor da conjunção "quando" e se sabe que uma oração reduzida de gerúndio pode substituí-la sem alterar o sentido.
O texto: onde mora a resposta
No trecho original, "Quando não tinha mais retalhos" é uma oração subordinada adverbial temporal: indica o momento em que a ação da oração principal ocorre — "virava o último vestido pelo avesso". O texto narra que, no tempo em que os retalhos acabavam, a personagem virava o vestido pelo avesso. A relação é de simultaneidade/ocorrência no tempo, não de causa, concessão ou comparação. Veja o trecho:
"Quando não tinha mais retalhos, virava o último vestido pelo avesso, o sujo sumia, Ceci não tinha mais queixas"
A oração "quando não tinha mais retalhos" responde à pergunta "em que momento?" — e não "por quê?", "apesar de quê?" ou "como?". Essa é a pista decisiva.
A técnica: oração desenvolvida × oração reduzida
Uma oração desenvolvida é aquela introduzida por um conectivo (conjunção ou locução) e com verbo no modo indicativo ou subjuntivo. Uma oração reduzida é aquela sem conectivo, com verbo numa forma nominal: infinitivo, gerúndio ou particípio. A redução é um recurso de concisão que preserva o valor semântico da oração original, desde que a forma nominal escolhida seja compatível.
No caso, "quando não tinha mais retalhos" (temporal, desenvolvida) pode ser reduzida de gerúndio: "não tendo mais retalhos". O gerúndio, nesse contexto, expressa uma circunstância temporal — equivale a "quando não tinha". Essa equivalência é clássica: o gerúndio pode indicar tempo, condição, causa, modo etc., dependendo do contexto. Aqui, o contexto é claramente temporal, pois a oração principal descreve uma ação que ocorre naquele momento.
PEGA ESSA DICA!
Para testar se uma reescrita preserva o sentido, substitua a oração reduzida pela desenvolvida correspondente e veja se a relação lógica se mantém. "Não tendo mais retalhos" → "Quando não tinha mais retalhos" (temporal). "Por não ter mais retalhos" → "Porque não tinha mais retalhos" (causal). A relação muda, logo o sentido muda.
Análise das alternativas
Oração subordinada adverbial: Temporal (quando) (✅ Reduzida de gerúndio: "não tendo"); Causal (porque/por) (❌ "Porque não tinha", ❌ "Por não ter", ❌ "Como não tivesse"); Concessiva (ainda que) (❌ "Ainda que não tivesse")
Alternativa A — ✅ Correta ⟵ GABARITO
"Não tendo mais retalhos" é uma oração reduzida de gerúndio que mantém o valor temporal do original. O gerúndio "tendo" com a negação "não" expressa a circunstância de tempo: "no momento em que não tinha". A correção gramatical está perfeita: o sujeito é o mesmo (a personagem, elíptico), e a forma "tendo" concorda com o sujeito oculto. A reescrita é concisa e fiel ao sentido.
Alternativa B — ❌ Incorreta
"Porque não tinha mais retalhos" introduz uma relação de causa: a falta de retalhos seria a razão de virar o vestido. No original, a falta de retalhos é apenas uma circunstância temporal, não uma causa. O texto não diz que a personagem virava o vestido porque não tinha retalhos; diz que virava quando não tinha. A banca troca o valor temporal por causal — erro clássico de troca de conectivo.
Alternativa C — ❌ Incorreta
"Ainda que não tivesse mais retalhos" introduz uma relação de concessão (oposição/ressalva): "mesmo que não tivesse". Isso implicaria que a ação de virar o vestido ocorreria apesar de não haver retalhos — o que é ilógico no contexto e, principalmente, não é o que o texto diz. O original não expressa nenhuma ideia de concessão; a reescrita contradiz a relação temporal.
Alternativa D — ❌ Incorreta
"Por não ter mais retalhos" é uma oração reduzida de infinitivo com valor causal (equivale a "porque não tinha"). Assim como a B, introduz uma relação de causa que não existe no original. A forma "por + infinitivo" é típica de causa, não de tempo. A banca explora a confusão entre gerúndio e infinitivo: ambas são formas nominais, mas com valores semânticos diferentes.
Alternativa E — ❌ Incorreta
"Como não tivesse mais retalhos" pode introduzir valor causal ("já que não tinha") ou comparativo/conformativo ("assim como"), dependendo do contexto. Em qualquer leitura, não é temporal. O "como" com verbo no subjuntivo ("tivesse") frequentemente indica causa ou comparação, nunca tempo. A reescrita altera o sentido original, que é puramente temporal.
Tabela comparativa: valor semântico de cada reescrita
Reescrita
Valor semântico
Preserva o sentido?
A) Não tendo mais retalhos
Temporal (gerúndio)
✅ Sim
B) Porque não tinha mais retalhos
Causal
❌ Não
C) Ainda que não tivesse mais retalhos
Concessiva
❌ Não
D) Por não ter mais retalhos
Causal
❌ Não
E) Como não tivesse mais retalhos
Causal/comparativa
❌ Não
NÃO CAIA NESSA!
A banca adora trocar o valor temporal por causal, usando conectivos como "porque", "por" e "como". Fique atento: "quando" é temporal; "porque"/"por" é causal; "ainda que" é concessivo; "como" pode ser causal ou comparativo. Identifique a relação original antes de testar as reescritas.
Conclusão
A única reescrita que preserva a correção gramatical e o sentido é a letra A, pois mantém a relação temporal por meio do gerúndio. As demais alteram o valor semântico, introduzindo causa, concessão ou comparação. Lembre-se: em questões de reescrita, o que importa é manter a relação lógica entre as orações, não apenas a correção gramatical.