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Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — CESPE / CEBRASPE 2026

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
ce387482
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
SEDUC PI
Ano
2026
Cargo
Prof ( )

Escrevendo no dia 19 último sobre a morte de Mario Vargas Llosa, meu amigo Álvaro Costa e Silva observa que o escritor peruano nunca tuitou na vida. “Não precisava”, disse. “Qualquer declaração sua, artigo de opinião e entrevista logo estavam nas redes, provocando admiração ou rechaço.” Como todos que vivem de escrever, Vargas Llosa produziu verdades e sandices. O espantoso é que suas palavras tenham tido tanto alcance sem essa “ferramenta”, hoje essencial para milhões.

 

Modestamente, também nunca escrevi um tuíte na vida. Assim, deixo de atingir as multidões que se comunicam pelo Twitter, mas, como isso não lhes altera a cotação do dólar, deduzo que ninguém tem saído perdendo.

 

Assim como nunca tuitei, também nunca orkutei, bloguei, fotologuei, flickerei ou messengerei. E, assim como eu, muita gente deixou de fazer isso quando essas tecnologias ficaram fora de moda — você conhece alguém que ainda orkuta? Portanto, apenas me antecipei. Da mesma forma, nunca instagramei, facebookei, telegramei, tik-tokei, skypei, linkedinei ou snapchatei. O máximo que faço é whatsappar e, mesmo assim, pelo computador. Algumas pessoas se preocupam por terem um excesso de vida digital. Eu tenho de menos. Mas, como sou um homem de necessidades simples, vou me virando sem essas maravilhas.

 

Sei que parece esdrúxulo viver no século 21 e ainda usar a tecnologia do século 20. Mas alguns dos maiores escritores do século 20 criaram obras-primas usando a tecnologia do século 19. Marcel Proust, James Joyce e F. Scott Fitzgerald não escreveram, respectivamente, Em Busca do Tempo Perdido, Ulisses e O Grande Gatsby à máquina. Usaram a velha pena embebida no tinteiro.

E também nunca tuitaram.

 

Rui Castro. Também nunca tuitei. Internet: <folha.uol.com.br> (com adaptações).

Texto 12A3-II

 

Da leitura do texto 12A3-II infere-se que o autor

  1. Aconsidera como ética e moralmente superiores os indivíduos que optam por se abster das inovações tecnológicas de sua época, como se percebe pela menção a grandes escritores no penúltimo parágrafo.
  2. Bcompara a qualidade da sua produção escrita àquela do peruano Mario Vargas Llosa e de alguns dos maiores escritores do século 20, que criaram obras-primas usando tecnologia do século 19.
  3. Creflete sobre a produção de conteúdo significativo e sobre a influência cultural, independentemente das modas tecnológicas digitais, utilizando, para esse fim, humor e exemplos históricos.
  4. Dadota um estilo jornalístico-informativo para noticiar ao leitor que, embora seja um comunicador do século 20, não utiliza o Twitter em suas práticas profissionais cotidianas.
  5. Edefende a ideia de que o Twitter é uma ferramenta de comunicação de grande alcance na contemporaneidade e, por isso, todos os escritores devem utilizá-lo para interagir com os leitores de forma mais eficiente.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoC — reflete sobre a produção de conteúdo significativo e sobre a influência cultural, independentemente das modas tecnológicas digitais, utilizando, para esse fim, humor e exemplos históricos.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Interpretação do texto "Também nunca tuitei" — Rui Castro

Gabarito: letra C. Da leitura, infere-se que o autor reflete sobre a produção de conteúdo significativo e sobre a influência cultural, independentemente das modas tecnológicas digitais, usando humor e exemplos históricos. A alternativa C é a única que captura a tese central do texto: a ideia de que a qualidade e o alcance do que se escreve não dependem da ferramenta digital da moda — como prova a menção a Vargas Llosa, que "nunca tuitou" e ainda assim tinha suas palavras espalhadas pelas redes, e a referência a Proust, Joyce e Fitzgerald, que criaram obras-primas "usando a tecnologia do século 19".

O comando: "infere-se"

O verbo "infere-se" pede uma inferência — ou seja, uma conclusão que não está literalmente escrita, mas que é obrigatoriamente sustentada por pistas do texto. Não se trata de repetir uma frase do autor (isso seria compreensão literal), nem de acrescentar ideias de fora (isso seria extrapolação). A resposta certa precisa ser uma dedução ancorada no que está dito. As alternativas erradas, veremos, ou extrapolam, ou contradizem, ou tangenciam o texto.

O texto: tema, tese e movimento argumentativo

O texto de Rui Castro é uma crônica de tom humorístico e reflexivo. O tema é a relação do autor com as redes sociais e a tecnologia digital. A tese — a ideia central — é que não usar essas ferramentas não o impede de produzir conteúdo relevante nem de ter influência, pois o que importa é a qualidade do que se escreve, não o meio. Veja o movimento:

  • No 1º parágrafo, ele cita Vargas Llosa, que "nunca tuitou", mas cujas declarações "logo estavam nas redes, provocando admiração ou rechaço". Ou seja: o alcance não dependia do Twitter.

  • Nos parágrafos seguintes, ele brinca com os neologismos ("orkutei", "bloguei", "instagramei"...) e afirma: "Eu tenho de menos. Mas, como sou um homem de necessidades simples, vou me virando sem essas maravilhas." — tom irônico e despretensioso.

  • No penúltimo parágrafo, o exemplo histórico decisivo: Proust, Joyce e Fitzgerald "não escreveram... à máquina. Usaram a velha pena embebida no tinteiro. E também nunca tuitaram."

A conclusão implícita é exatamente a da alternativa C: produzir conteúdo significativo e ter influência cultural independe das modas tecnológicas.

A técnica que decide: inferência com pista × extrapolação

A banca adora montar distratores que extrapolam — pegam uma pista real do texto e a inflam com um juízo que o autor não emitiu. É o caso das alternativas A e B. A alternativa C, ao contrário, sintetiza o que o texto inteiro demonstra, sem acrescentar nada de fora. Para testar cada alternativa, pergunte: o texto AUTORIZA esta conclusão, ou ela exige que eu acrescente algo que não está escrito?

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a extrapolação com aparência de verdade. As alternativas A e B usam elementos reais do texto (os escritores, a comparação) e os distorcem com um juízo de valor ("ética e moralmente superiores") ou com uma comparação que o autor jamais fez (qualidade da própria produção). A pegadinha está em aceitar uma conclusão que "parece" razoável, mas que o texto não sustenta.

Inferência (o que o texto autoriza concluir)
  • 1Tese central
    • Conteúdo significativo independe da ferramenta
    • Influência cultural não depende da moda digital
  • 2Pistas que sustentam
    • Vargas Llosa nunca tuitou e tinha alcance
    • Proust, Joyce e Fitzgerald usaram pena
  • 3Tom do texto
    • Humor (neologismos, ironia)
    • Reflexão pessoal
  • 4Erros típicos da banca
    • Extrapolação (juízo de valor que o autor não fez)
    • Contradição (inverter a tese)
    • Tangência (fugir ao tema)
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Alternativa A — ❌ Incorreta

Erro: extrapolação (acrescenta opinião). O texto menciona os grandes escritores, mas não diz que quem se abstém de tecnologia é "ética e moralmente superior". Essa é uma opinião embutida que o autor não externou. Ele apenas observa, com humor, que é possível produzir obras-primas sem a tecnologia da época — não faz um julgamento moral de superioridade. A palavra "superiores" é a pista do erro: ela restringe e valoriza algo que o texto apenas constata.

Alternativa B — ❌ Incorreta

Erro: contradiz o texto (troca de referente). O autor não compara a qualidade da sua produção escrita à de Vargas Llosa ou dos grandes escritores. Ele se compara apenas no aspecto de não usar a tecnologia — "também nunca escrevi um tuíte na vida". A menção a Proust, Joyce e Fitzgerald serve para mostrar que obras-primas foram feitas sem tecnologia moderna, não para equiparar a qualidade da escrita do autor à deles. A alternativa troca o referente da comparação: o texto compara o meio (pena × máquina × Twitter), não a qualidade do resultado.

Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO

Inferência legítima, ancorada no texto. O autor reflete sobre a produção de conteúdo significativo e a influência cultural independentemente das modas tecnológicas. As pistas:

"Qualquer declaração sua, artigo de opinião e entrevista logo estavam nas redes, provocando admiração ou rechaço."

"Marcel Proust, James Joyce e F. Scott Fitzgerald não escreveram... à máquina. Usaram a velha pena embebida no tinteiro. E também nunca tuitaram."

O texto inteiro demonstra que o alcance e a relevância do que se escreve não dependem da ferramenta. O humor está nos neologismos e na ironia ("vou me virando sem essas maravilhas"); os exemplos históricos estão no penúltimo parágrafo. A alternativa C sintetiza exatamente essa tese, sem acrescentar nada de fora.

Alternativa D — ❌ Incorreta

Erro: tangencia o tema (fuga ao objetivo). O texto não é jornalístico-informativo; é uma crônica opinativa e humorística. O autor não está "noticiando" que não usa Twitter — está refletindo sobre isso, com tom pessoal e irônico. A alternativa erra ao classificar o gênero e ao reduzir o texto a uma mera informação factual, ignorando a tese reflexiva.

Alternativa E — ❌ Incorreta

Erro: contradiz o texto (inverte a tese). O autor não defende que todos os escritores devam usar o Twitter. Pelo contrário: ele mostra que é possível ter alcance e produzir obras-primas sem a ferramenta. A alternativa inverte completamente a posição do autor, transformando-o em defensor do Twitter — quando o texto celebra justamente o oposto.

Conclusão

A questão testa a habilidade de distinguir inferência legítima de extrapolação. A alternativa C é a única que sintetiza a tese do texto sem acrescentar juízos de valor, sem inverter posições e sem fugir do tema. As demais ou extrapolam (A), ou contradizem (B, E), ou tangenciam (D).

PEGA ESSA DICA!

Em questões de "infere-se", desconfie de alternativas que usam palavras absolutas ou juízos de valor ("superiores", "todos", "devem"). A inferência correta é sempre modesta: ela diz apenas o que o texto permite concluir, nada além.

Gabarito: letra C

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