Pular para o conteúdo principal

Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — CESPE / CEBRASPE 2026

PortuguêsInterpretação de Textos (Compreensão)
Código
ce387486
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
SEDUC PI
Ano
2026
Cargo
Prof ( )

Alguém me falou de um anúncio institucional que a UNESCO publicou há tempos para uma campanha pela alfabetização. Consistia em uma frase escrita de trás para a frente — ideia talvez tirada de Alice através do espelho (1871), o livro de Lewis Carroll em que, por estar “do lado de lá” do espelho, Alice vê tudo ao contrário, inclusive um poema num livro sobre a mesa. É como um analfabeto vê um texto — uma sequência de símbolos cuja ordem não lhe quer dizer nada. Alice resolve o problema botando o poema diante de um espelho. O mundo, no entanto, exige mais: a alfabetização em massa.


No Brasil, 5,2% da população ainda continua analfabeta. Parece pouco, mas são mais de 10 milhões de pessoas, o equivalente à população de São Paulo. Some a isso os 29%, entre 15 e 64 anos, que são analfabetos funcionais (leem, mas não entendem uma notícia de jornal ou uma bula de remédio), e veja como o Brasil continua longe do século 21. Por sorte, alguns desses analfabetos sabem de sua condição e não querem que se estenda a seus filhos.


Três pessoas que prestam serviços ao meu redor, incapazes de ler ou escrever, são inspiradores exemplos. Uma manicure fez de seus três filhos um advogado, uma psicóloga e uma assistente social. Um porteiro, homem humilde e boníssimo, fez da filha engenheira, e chorou de comoção na cerimônia de formatura dela. E um encanador, que não sabe dizer a chave do seu PIX (mostra um papelzinho com o número), também formou a filha em direito. Dois desses jovens se beneficiaram de bolsas integrais da PUC.


Como pessoas que não sabem ler conseguem viver numa grande cidade, com sua desordem de cartazes, placas, luminosos, indicações, itinerários e manchetes? É um mundo de signos ocos, para elas sem significado. Que códigos não terão de criar para saber qual ônibus tomar? Como lidar com dinheiro ou cartão? Como receber uma mensagem por celular?


Sempre achei que o momento em que se aprende a ler representa mais que um segundo partoa. Talvez seja o verdadeiro ingresso no mundo.


Ruy Castro. Signos sem significado. Internet: <www1.folha.uol.com.br> (com adaptações).

Texto 12A4-I

 

Assinale a opção correta com base nas ideias do texto 12A4-I.

  1. AA alfabetização de adultos é metaforizada como “mais que um segundo parto” porque consiste em um processo biológico mais doloroso que o nascimento.
  2. BA situação de um analfabeto frente a um texto escrito se assemelha à visão da personagem Alice diante de um poema no “„lado de lá‟ do espelho” porque, nas duas situações, o leitor tem dificuldade de decifrar o código de escrita do texto.
  3. CO relato do caso do encanador que precisa de um “papelzinho” para informar sua chave PIX ilustra como o analfabetismo impede o acesso ao mundo digital moderno.
  4. DA expressão “um mundo de signos ocos” retoma o título do texto, confirmando a ideia do completo isolamento social das pessoas que não compreendem a escrita e não dominam a leitura formal nos tempos atuais.
  5. EOs analfabetos funcionais representam menos de 5% da população brasileira, considerados no grupo total de analfabetos no país.
Revelar gabarito e comentário

GabaritoB — A situação de um analfabeto frente a um texto escrito se assemelha à visão da personagem Alice diante de um poema no “„lado de lá‟ do espelho” porque, nas duas situações, o leitor tem dificuldade de decifrar o código de escrita do texto.

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

A analogia entre o analfabeto e Alice no espelho

Gabarito: letra B. A alternativa correta é a que estabelece a comparação entre a dificuldade do analfabeto em decifrar um texto e a visão de Alice diante do poema no "lado de lá" do espelho, pois ambas as situações envolvem a incapacidade de compreender o código escrito. O texto sustenta essa leitura ao afirmar que, para o analfabeto, o texto é "uma sequência de símbolos cuja ordem não lhe quer dizer nada", exatamente como o poema invertido para Alice.

O comando pede que se assinale a opção correta com base nas ideias do texto. Isso significa que a resposta deve ser uma paráfrase fiel do que está escrito, sem acréscimos de informação externa ou deduções que ultrapassem o que o autor afirma. É uma questão de compreensão (recorrência), não de inferência: a informação que sustenta a alternativa correta está explícita no texto.

O texto de Ruy Castro desenvolve uma comparação central: o analfabeto, diante de um texto, está na mesma situação de Alice diante do poema invertido em Alice através do espelho. O autor explica que, para Alice, o poema é uma "sequência de símbolos cuja ordem não lhe quer dizer nada" — e é exatamente assim que o analfabeto vê um texto. A diferença é que Alice resolve o problema com um espelho, enquanto o mundo exige a alfabetização em massa. Essa comparação é a espinha dorsal do primeiro parágrafo e é o que a alternativa B captura com precisão.

A técnica para resolver esta questão é simples: teste cada alternativa perguntando se o texto a autoriza integralmente. A alternativa correta é a única que não acrescenta, não restringe e não contradiz o que está escrito. As demais cometem erros típicos de interpretação: extrapolam o sentido de uma metáfora, atribuem ao texto conclusões que ele não sustenta, ou contradizem dados explícitos.

1Analfabeto
Texto = símbolos sem ordem
Não decifra o código escrito
2Alice
Poema invertido
Símbolos sem significado
3Diferença
Alice resolve com espelho
Analfabeto precisa de alfabetização
Analfabeto × Alice no espelho
LEVELsoulevel.com.br
Analfabeto × Alice no espelho: Analfabeto (Texto = símbolos sem ordem, Não decifra o código escrito); Alice (Poema invertido, Símbolos sem significado); Diferença (Alice resolve com espelho, Analfabeto precisa de alfabetização)

Alternativa A — ❌ Incorreta

A alternativa afirma que a alfabetização é metaforizada como "mais que um segundo parto" porque seria um "processo biológico mais doloroso que o nascimento". O texto, porém, não faz essa comparação. O autor apenas diz que aprender a ler "representa mais que um segundo parto" e que "talvez seja o verdadeiro ingresso no mundo". A ideia de "ingresso no mundo" sugere um renascimento simbólico, não um processo biológico doloroso. A alternativa extrapola o sentido da metáfora, atribuindo ao texto uma explicação que ele não oferece.

Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A alternativa B é uma paráfrase fiel do primeiro parágrafo. O texto diz que o anúncio da UNESCO consistia em "uma frase escrita de trás para a frente", e que, para Alice, o poema era "uma sequência de símbolos cuja ordem não lhe quer dizer nada". Em seguida, o autor afirma: "É como um analfabeto vê um texto". Ou seja, a comparação é explícita: tanto Alice quanto o analfabeto têm dificuldade de decifrar o código de escrita. A alternativa não acrescenta nada além do que o texto afirma.

Alternativa C — ❌ Incorreta

A alternativa afirma que o caso do encanador "ilustra como o analfabetismo impede o acesso ao mundo digital moderno". O texto, porém, não faz essa afirmação. O autor apenas relata que o encanador "não sabe dizer a chave do seu PIX (mostra um papelzinho com o número)". A expressão "mundo digital moderno" é uma extrapolação: o texto menciona o PIX como um exemplo concreto, mas não generaliza para o "mundo digital" nem afirma que o analfabetismo "impede" o acesso a ele.

Alternativa D — ❌ Incorreta

A alternativa afirma que a expressão "um mundo de signos ocos" confirma a ideia do "completo isolamento social" dos analfabetos. O texto diz que, para o analfabeto, o mundo é "um mundo de signos ocos, para elas sem significado" e que eles precisam criar códigos para sobreviver na cidade. No entanto, a ideia de "completo isolamento social" é uma extrapolação: o texto descreve dificuldades de navegação no mundo urbano, mas não afirma que os analfabetos estão socialmente isolados. Pelo contrário, o texto mostra exemplos de analfabetos que interagem socialmente (manicure, porteiro, encanador).

Alternativa E — ❌ Incorreta

A alternativa afirma que os analfabetos funcionais representam "menos de 5% da população brasileira". O texto, porém, diz o oposto: "Some a isso os 29%, entre 15 e 64 anos, que são analfabetos funcionais". A alternativa contradiz o texto ao inverter o dado numérico. O texto afirma que 29% são analfabetos funcionais, um número muito maior que 5%.

PEGA ESSA DICA!

Em questões de compreensão, desconfie de alternativas que usam palavras absolutas como "completo", "impede" ou "todos". Elas quase sempre restringem ou extrapolam o alcance do texto. A alternativa correta costuma ser a que parafraseia com precisão, sem exageros.

Gabarito: letra B — a única alternativa inteiramente sustentada pelo texto, que estabelece a comparação explícita entre a dificuldade de Alice e a do analfabeto diante do código escrito.

Link permanente: /questoes/ce387486