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Questão de Português — Figuras de Linguagem — CESPE / CEBRASPE 2026

PortuguêsFiguras de Linguagem
Código
ce387490
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
SEDUC PI
Ano
2026
Cargo
Prof ( )

Senhor! Quando avistou o peru, no centro do terreiro, entre a casa e as árvores da mata. O peru, imperial, dava-lhe as costas, para receber sua admiração. Estalara a cauda, e se entufou, fazendo roda: o rapar das asas no chão — brusco, rijo, — se proclamara. Grugulejou, sacudindo o abotoado grosso de bagas rubras; e a cabeça possuía laivos de um azul-claro, raro, de céu e sanhaços; e ele, completo, torneado, redondoso, todo em esferas e planos, com reflexos de verdes metais em azul-e-preto — o peru para sempre. Belo, belo! Tinha qualquer coisa de calor, poder e flor, um transbordamento. Sua ríspida grandeza tronitruante. Sua colorida empáfia. Satisfazia os olhos, era de tanger trombeta. Colérico, encachiado, andando, gruziou outro gluglo. O Menino riu, com todo o coração. Mas só bis-viu. Já o chamavam, para passeio.


João Guimarães Rosa. As margens da alegria.

In: Primeiras estórias / João Guimarães Rosa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2005.

Texto 12A4-II

 

Assinale a opção correta a respeito da técnica descritiva no texto 12A4-II.

  1. AA pontuação do texto colabora para a descrição detalhada do peru, o que se evidencia pela separação de frases nominais curtas, que imitam o olhar minucioso do Menino para a ave, a exemplo de “Estalara a cauda, e se entufou, fazendo roda: o rapar das asas no chão”.
  2. BA subjetividade da descrição do peru é acentuada pelo registro do olhar infantil na voz de um narrador personagem, “o Menino”, e suas falas e emoções diante da ave: “Senhor!”, “Belo, belo!”, “com todo o coração”.
  3. CA descrição do peru evolui da admiração — “O peru, imperial, dava-lhe as costas, para receber sua admiração.” — para o desencanto diante do olhar curioso do Menino: “Colérico, encachiado, andando, gruziou outro gluglo. O Menino riu...”.
  4. DA aparência da ave é enriquecida por detalhes técnicos traduzidos em formas geométricas e cores incomuns, como em “completo, torneado, redondoso, todo em esferas e planos, com reflexos de verdes metais em azul-e-preto”, que compõem uma descrição biológica precisa e objetiva.
  5. EA linguagem empregada na descrição do peru mescla diferentes percepções sensoriais para expressar o impacto emocional da visão da ave, a exemplo dos trechos “Grugulejou, sacudindo o abotoado grosso de bagas rubras” e “Tinha qualquer coisa de calor, poder e flor, um transbordamento.”
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GabaritoE — A linguagem empregada na descrição do peru mescla diferentes percepções sensoriais para expressar o impacto emocional da visão da ave, a exemplo dos trechos “Grugulejou, sacudindo o abotoado grosso de bagas rubras” e “Tinha qualquer coisa de calor, poder e flor, um transbordamento.”

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Técnica descritiva em "As margens da alegria"

Gabarito: letra E. A alternativa correta afirma que a linguagem da descrição do peru mescla diferentes percepções sensoriais para expressar o impacto emocional da visão da ave. Isso se comprova nos trechos citados: "Grugulejou, sacudindo o abotoado grosso de bagas rubras" (audição + visão) e "Tinha qualquer coisa de calor, poder e flor, um transbordamento" (tato, visão, olfato, emoção). O texto não é uma descrição objetiva e biológica, mas uma descrição subjetiva e impressionista, carregada de sensações e emoções do Menino.

O comando pede que se assinale a opção correta a respeito da técnica descritiva. Isso significa que devemos identificar qual alternativa descreve com fidelidade o que o texto faz, sem acrescentar informações de fora nem contradizer o que está escrito. A banca mistura alternativas que parecem plausíveis, mas que extrapolam ou restringem o sentido do texto.

O texto é um trecho de Guimarães Rosa, em que o narrador descreve o peru visto pelo Menino. A descrição é subjetiva, pois reflete o olhar encantado da criança, e sensorial, pois explora sons, cores, formas e sensações táteis. O autor não descreve o peru como um biólogo faria; ele usa uma linguagem poética, com metáforas e sinestesias, para transmitir a emoção do momento.

A técnica central é a sinestesia — a mistura de sensações de diferentes sentidos. Por exemplo, "calor, poder e flor" mistura tato (calor), visão (flor) e uma sensação abstrata de poder. "Abotoado grosso de bagas rubras" mistura visão (bagas rubras) e tato (grosso). Essa mistura é típica da prosa poética de Rosa e serve para expressar o impacto emocional da visão da ave.

A pegadinha da banca está em alternativas que generalizam ou extrapolam o texto. Por exemplo, a letra D fala em "descrição biológica precisa e objetiva", mas o texto é claramente subjetivo e poético. A letra C fala em "desencanto", mas o texto mostra admiração e alegria. A letra B fala em "narrador personagem", mas o narrador é observador, não o Menino. A letra A fala em "olhar minucioso do Menino", mas a pontuação reflete o ritmo da descrição, não necessariamente o olhar do Menino.

1Subjetiva e impressionista
Sinestesia (mistura de sentidos)
Impacto emocional do Menino
2Recursos
Audição (grugulejou)
Visão (bagas rubras)
Tato (calor, grosso)
Emoção (poder, transbordamento)
3O que NÃO é
Descrição biológica objetiva
Desencanto
Narrador personagem
Técnica descritiva
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Técnica descritiva: Subjetiva e impressionista (Sinestesia (mistura de sentidos), Impacto emocional do Menino); Recursos (Audição (grugulejou), Visão (bagas rubras), Tato (calor, grosso), Emoção (poder, transbordamento)); O que NÃO é (Descrição biológica objetiva, Desencanto, Narrador personagem)

Alternativa A — ❌ Incorreta

A alternativa afirma que a pontuação colabora para a descrição detalhada do peru, imitando o olhar minucioso do Menino. O texto realmente usa frases nominais curtas e pontuação expressiva, mas a justificativa de que isso imita o olhar do Menino é uma extrapolação. O texto não diz que o Menino está olhando minuciosamente; ele apenas descreve o peru. A pontuação cria ritmo e destaca os detalhes, mas não há evidência de que isso represente o olhar do Menino. Além disso, o trecho citado é uma descrição do peru, não do olhar do Menino.

Alternativa B — ❌ Incorreta

A alternativa afirma que a subjetividade é acentuada pelo registro do olhar infantil na voz de um narrador personagem, "o Menino", e suas falas e emoções. O texto tem um narrador em 3ª pessoa, que observa o Menino, mas não é o Menino que narra. As expressões "Senhor!", "Belo, belo!" e "com todo o coração" são do narrador, não falas do Menino. O narrador descreve as emoções do Menino, mas não é um narrador personagem. A alternativa confunde o narrador observador com o personagem.

Alternativa C — ❌ Incorreta

A alternativa afirma que a descrição evolui da admiração para o desencanto diante do olhar curioso do Menino. O texto mostra admiração e alegria, não desencanto. O trecho "Colérico, encachiado, andando, gruziou outro gluglo" descreve o peru, não o desencanto do Menino. O Menino ri "com todo o coração", o que indica alegria, não desencanto. A alternativa contradiz o texto ao afirmar que há desencanto.

Alternativa D — ❌ Incorreta

A alternativa afirma que a aparência da ave é enriquecida por detalhes técnicos que compõem uma descrição biológica precisa e objetiva. O texto usa formas geométricas e cores, mas de forma poética e subjetiva, não técnica ou biológica. Expressões como "todo em esferas e planos" e "reflexos de verdes metais" são metafóricas, não descrições científicas. A alternativa extrapola ao chamar de "descrição biológica precisa e objetiva" o que é uma descrição impressionista.

Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A alternativa afirma que a linguagem mescla diferentes percepções sensoriais para expressar o impacto emocional da visão da ave. Isso é exatamente o que o texto faz. Vejamos os trechos citados:

"Grugulejou, sacudindo o abotoado grosso de bagas rubras"

Aqui temos audição (grugulejou) e visão/tato (bagas rubras, grosso).

"Tinha qualquer coisa de calor, poder e flor, um transbordamento"

Aqui temos tato (calor), visão (flor) e uma sensação emocional (poder, transbordamento).

Essa mistura de sentidos é a sinestesia, recurso típico da prosa poética de Guimarães Rosa. O objetivo é transmitir o impacto emocional que o peru causa no Menino, não fazer uma descrição objetiva. A alternativa está inteiramente sustentada pelo texto.

NÃO CAIA NESSA!

A banca tenta fazer você acreditar que a descrição é objetiva e técnica (letra D) ou que há desencanto (letra C). Mas o texto é subjetivo e sensorial, e o Menino está encantado. Desconfie de palavras como "objetiva", "precisa", "desencanto" — elas geralmente indicam extrapolação.

PEGA ESSA DICA!

Ao analisar descrições literárias, pergunte: o texto descreve o objeto em si (objetivo) ou as sensações e emoções que ele provoca (subjetivo)? Aqui, a resposta é clara: subjetivo e sensorial.

Conclusão: a única alternativa que descreve corretamente a técnica descritiva do texto é a letra E, pois o texto mescla percepções sensoriais para expressar o impacto emocional da visão do peru. As demais ou extrapolam, ou contradizem, ou confundem o narrador.

Gabarito: letra E

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