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Questão de Português — Figuras de Linguagem — CESPE / CEBRASPE 2026

PortuguêsFiguras de Linguagem
Código
ce387491
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
SEDUC PI
Ano
2026
Cargo
Prof ( )

Senhor! Quando avistou o peru, no centro do terreiro, entre a casa e as árvores da mata. O peru, imperial, dava-lhe as costas, para receber sua admiraçãoa. Estalara a cauda, e se entufou, fazendo roda: o rapar das asas no chão — brusco, rijo, — se proclamara. Grugulejou, sacudindo o abotoado grosso de bagas rubras; e a cabeça possuía laivos de um azul-claro, raro, de céu e sanhaços; e ele, completo, torneado, redondosoe, todo em esferas e planos, com reflexos de verdes metais em azul-e-preto — o peru para sempre. Belo, belo! Tinha qualquer coisa de calor, poder e flor, um transbordamento. Sua ríspida grandeza tronitruante. Sua colorida empáfia. Satisfazia os olhos, era de tanger trombetac. Colérico, encachiado, andando, gruziou outro gluglod. O Menino riu, com todo o coração. Mas só bis-viub. Já o chamavam, para passeio.

João Guimarães Rosa. As margens da alegria.

In: Primeiras estórias / João Guimarães Rosa. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2005.

Texto 12A4-II

 

Assinale a opção em que são corretamente apresentados uma característica de escritura atribuída a Guimarães Rosa e seu respectivo exemplo no texto 12A4-II.

  1. Aaproveitamento estético da elipse de nexos lógicos, em fuga à lógica gramatical: “O peru, imperial, dava-lhe as costas, para receber sua admiração.” (terceiro período)
  2. Bneologismos formados a partir de onomatopeias: “Mas só bis-viu.” (penúltimo período)
  3. Cpresença de sinestesias: “Satisfazia os olhos, era de tanger trombeta” (décimo período)
  4. Dresgate da linguagem arcaica e regionalista do sertão nordestino na voz dos personagens: “andando, gruziou outro gluglo.” (décimo primeiro período)
  5. Eabandono das preocupações estéticas a favor de uma linguagem oralizada e espontânea do interiorano: “a cabeça possuía laivos de um azul-claro, raro, de céu e sanhaços; e ele, completo, torneado, redondoso”. (quinto período)
Revelar gabarito e comentário

GabaritoC — presença de sinestesias: “Satisfazia os olhos, era de tanger trombeta” (décimo período)

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Sinestesia em Guimarães Rosa — a fusão de sentidos como recurso expressivo

Gabarito: letra C. A alternativa correta identifica a sinestesia — figura que mistura, num mesmo enunciado, percepções de sentidos diferentes — no trecho “Satisfazia os olhos, era de tanger trombeta”. A passagem funde a visão (“satisfazia os olhos”) com a audição (“tanger trombeta”), exatamente o que caracteriza a sinestesia. As demais alternativas ou extrapolam o texto (atribuem características que não estão nele) ou trocam o nome da figura (chamam de neologismo o que é onomatopeia, por exemplo).

O comando da questão

O enunciado pede que você associe uma característica de escritura de Guimarães Rosa a um exemplo concreto retirado do texto. Isso exige dois movimentos: (1) saber o conceito da figura de linguagem mencionada; (2) verificar se o trecho citado realmente a exemplifica. Não basta conhecer a definição — é preciso conferir no texto se o exemplo corresponde à figura. A banca não pergunta “o que é sinestesia?”, mas “qual alternativa apresenta corretamente a figura E seu exemplo?”. Portanto, a resposta mora na relação entre conceito e trecho.

O texto e o movimento argumentativo

O trecho de “As margens da alegria” descreve a aparição do peru aos olhos do Menino. A prosa de Guimarães Rosa é marcada por um trabalho estético intenso: neologismos, onomatopeias, sinestesias, inversões sintáticas. A questão explora justamente essa riqueza expressiva. No trecho da alternativa C, o narrador diz que o peru “satisfazia os olhos” (percepção visual) e que “era de tanger trombeta” (percepção auditiva). A fusão dessas duas sensações num mesmo enunciado é a sinestesia — figura de linguagem que mistura canais sensoriais diferentes.

A técnica que decide a questão

A sinestesia é uma figura de palavra (ou de pensamento, conforme a nomenclatura) que consiste na combinação de sensações de órgãos dos sentidos diferentes numa mesma expressão. Exemplos clássicos: “cheiro doce” (olfato + paladar), “cor berrante” (visão + audição), “silêncio frio” (audição + tato). No trecho da alternativa C, temos:

  • “Satisfazia os olhos” → visão;

  • “era de tanger trombeta” → audição.

A junção dessas duas percepções num mesmo enunciado, atribuindo ao peru a capacidade de “tanger trombeta” (som) ao mesmo tempo em que “satisfaz os olhos” (imagem), configura a sinestesia. A banca explora a confusão com outras figuras: a metáfora (comparação implícita), a onomatopeia (palavra que imita som) e o neologismo (criação de palavra).

Análise das alternativas

Alternativa A — ❌ Incorreta

“O peru, imperial, dava-lhe as costas, para receber sua admiração.”

A alternativa afirma que há elipse de nexos lógicos (omissão de conectivos) em “fuga à lógica gramatical”. No trecho, porém, há uma oração subordinada adverbial final introduzida pela preposição “para” (“para receber sua admiração”), o que não configura elipse — o conectivo está presente. A elipse seria a omissão de um termo que pode ser facilmente recuperado pelo contexto (ex.: “(Eu) fui ao mercado”). Aqui, não há omissão de conectivo; há, no máximo, uma inversão sintática (hipérbato), que não é o que a alternativa descreve. Erro: troca de conceito — chama de elipse o que não é elipse.

Alternativa B — ❌ Incorreta

“Mas só bis-viu.”

A alternativa afirma que “bis-viu” é um neologismo formado a partir de onomatopeia. De fato, “bis-viu” é um neologismo (criação vocabular de Guimarães Rosa), mas não é formado a partir de onomatopeia. A onomatopeia é a palavra que imita sons (ex.: “cocoricó”, “tique-taque”). “Bis-viu” é uma criação expressiva que sugere o movimento rápido de ver (“viu” + prefixo “bis-”, indicando repetição ou intensidade), mas não imita um som natural. A alternativa confunde neologismo com onomatopeia. Erro: troca de conceito — o exemplo é neologismo, mas a justificativa (onomatopeia) não se aplica.

Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO

“Satisfazia os olhos, era de tanger trombeta”

A alternativa identifica corretamente a sinestesia no trecho. A expressão funde a visão (“satisfazia os olhos”) com a audição (“era de tanger trombeta”), caracterizando a mistura de sentidos que define a sinestesia. O peru é descrito como algo que, ao mesmo tempo, agrada à vista e evoca um som de trombeta — uma experiência sensorial combinada. É exatamente o que a figura exige. Correta.

Alternativa D — ❌ Incorreta

“andando, gruziou outro gluglo.”

A alternativa afirma que há resgate da linguagem arcaica e regionalista do sertão nordestino na voz dos personagens. O trecho citado contém “gruziou” e “gluglo”, que são neologismos e onomatopeias criados por Guimarães Rosa para reproduzir o som do peru — não são regionalismos nem arcaísmos. Além disso, o trecho é narrativo (voz do narrador), não há fala de personagem (“na voz dos personagens”). A alternativa extrapola o texto ao atribuir um caráter regionalista a palavras que são criações expressivas do autor. Erro: extrapolação — acrescenta informação que o texto não sustenta.

Alternativa E — ❌ Incorreta

“a cabeça possuía laivos de um azul-claro, raro, de céu e sanhaços; e ele, completo, torneado, redondoso”

A alternativa afirma que há abandono das preocupações estéticas a favor de uma linguagem oralizada e espontânea. Isso contradiz frontalmente o texto e a estética de Guimarães Rosa. O trecho citado é um exemplo de extremo trabalho estético: “laivos de um azul-claro, raro, de céu e sanhaços” é uma construção altamente elaborada, com comparações e imagens poéticas. Não há “abandono” de preocupações estéticas — há o ápice delas. A alternativa contradiz o texto e o estilo do autor. Erro: contradiz o texto — inverte o sentido do que está escrito.

Conclusão

A questão testa a capacidade de reconhecer figuras de linguagem em contexto. A alternativa C é a única que nomeia corretamente a figura (sinestesia) e apresenta um exemplo fiel do texto. As demais ou trocam o conceito (A, B), ou extrapolam (D), ou contradizem o texto (E).

PEGA ESSA DICA!

Ao resolver questões de figuras de linguagem, grife o trecho citado e pergunte: “qual sentido (visão, audição, tato, paladar, olfato) está sendo usado?”. Se houver mistura de sentidos, é sinestesia. Se houver palavra que imita som, é onomatopeia. Se houver palavra inventada, é neologismo. Essa triagem resolve a maioria dos casos.

Gabarito: letra C.

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