Questão de Português — Interpretação de Textos (Compreensão) — CESPE / CEBRASPE 2026
Português›Interpretação de Textos (Compreensão)
Código
ce387500
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
SEMA AM
Ano
2026
Cargo
AA ( )
O Collège de France, uma das instituições de ensino superior e pesquisa científica mais prestigiosas da França, recebeu, em abril de 2025, o único imortal indígena da Academia Brasileira de Letras, o escritor Ailton Krenak. O filósofo emocionou a plateia de acadêmicos com uma visão singular sobre a crise climática e a destruição dos recursos naturais do planeta.
O escritor alertou que, diante das evidências científicas sobre o impacto das ações humanas sobre o clima, como o uso de combustíveis fósseis, a humanidade “está experimentando a imensa perda da qualidade da experiência de estar viva”. Segundo ele, “não estamos só ameaçados pelo clima, mas pela imobilidade”.
Na sua palestra, Krenak incitou os presentes a “cogitarem outros mundos, além dessa experiência quase terminal que nós passamos a experimentar no século 21”. Segundo ele, “estamos provocando o colapso do mundo que nós habitamos, o seu empobrecimento, e não estamos sendo capazes de cogitar outros”.
Nesses outros mundos, que o escritor reporta à floresta, o modo de vida e os hábitos de consumo dos centros urbanos não são mais o foco. “Nós somos a presença mais efêmera da Terra, e estamos causando um dano irreparável a outras formas de vida, como se nós tivéssemos a Terra à nossa disposição”, constatou.
O filósofo brasileiro apresentou ao público seus conceitos de “florestania” (da junção de “floresta” com “cidadania”) e “floricidade” (“floresta” e “cidade”). Em plena capital francesa, erguida sobre pedras e concreto e que hoje briga para devolver os espaços verdes aos seus moradores, as palavras de Krenak inspiram.
“Na maioria das cidades, jazem os rios debaixo das calçadas e estruturas que vão erigindo essa paisagem tão atraente que são as cidades. Como pensar uma floricidade? Como pensar num lugar onde um rio e uma floresta possam conviver com essa nossa disposição para nos socializarmos e reunirmos em espaços tão acolhedores e seguros que são as cidades?”, indagou.
Entende-se da leitura do texto CB1A1-II que Ailton Krenak
Acontesta as causas antrópicas da crise climática.
Bdefende uma solução científica para a crise climática.
Cpropõe uma forma alternativa de hábitos de consumo.
Dé um entusiasta das estruturas edificantes das cidades.
Eé um crítico da visão de mundo antropocêntrica.
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GabaritoE — é um crítico da visão de mundo antropocêntrica.
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Interpretação global do texto sobre Ailton Krenak
Gabarito: letra E. Ailton Krenak é apresentado no texto como um crítico da visão de mundo antropocêntrica, ou seja, da perspectiva que coloca o ser humano como centro e dono da natureza. Essa leitura é autorizada diretamente pela fala do autor, no 4º parágrafo, quando ele afirma que "Nós somos a presença mais efêmera da Terra, e estamos causando um dano irreparável a outras formas de vida, como se nós tivéssemos a Terra à nossa disposição". A expressão "como se nós tivéssemos a Terra à nossa disposição" é a pista textual que revela a crítica à postura de superioridade e posse do ser humano sobre o planeta.
O comando da questão
O enunciado pede que se entenda da leitura do texto o que Ailton Krenak faz. O verbo "entende-se" indica uma tarefa de compreensão/interpretação global: não se busca uma informação pontual e literal, mas a síntese da posição do autor diante do tema. É preciso, portanto, identificar a tese que atravessa o texto — a crítica à relação destrutiva e arrogante da humanidade com a natureza — e não apenas localizar um dado isolado.
O texto e o movimento argumentativo
O texto é uma notícia/reportagem sobre a palestra de Krenak no Collège de France. O autor não apenas informa, mas reproduz as falas de Krenak para construir um retrato de sua visão. O movimento é claro:
Diagnóstico da crise: a humanidade "está experimentando a imensa perda da qualidade da experiência de estar viva" e "não estamos só ameaçados pelo clima, mas pela imobilidade".
Crítica à ação humana: "estamos provocando o colapso do mundo que nós habitamos, o seu empobrecimento".
Crítica à postura antropocêntrica: "Nós somos a presença mais efêmera da Terra, e estamos causando um dano irreparável a outras formas de vida, como se nós tivéssemos a Terra à nossa disposição".
Proposta de alternativa: "cogitarem outros mundos", a "florestania" e a "floricidade", em que o modo de vida urbano não é o foco.
A tese central é a crítica à visão de mundo que coloca o ser humano como senhor da natureza. A alternativa E captura exatamente essa tese.
A técnica que decide a questão
A questão testa a capacidade de sintetizar a posição do autor sem extrapolar. Cada alternativa errada comete um erro típico do catálogo:
A contradiz o texto (Krenak afirma as causas antrópicas, não as contesta).
B extrapola (o texto não menciona solução científica).
C restringe (o texto propõe "outros mundos", não especificamente "hábitos de consumo").
D contradiz o texto (Krenak critica as cidades, não as elogia).
A correta, E, é a única que se sustenta integralmente no texto, pois a crítica à postura de posse sobre a Terra é o cerne do discurso de Krenak.
Tese de Krenak: Crítica ao antropocentrismo ("Terra à nossa disposição", Dano irreparável a outras formas de vida); Diagnóstico da crise (Perda da qualidade de estar vivo, Ameaça do clima e da imobilidade); Proposta (Cogitar outros mundos, Florestania e floricidade)
Alternativa A — ❌ Incorreta
A alternativa afirma que Krenak "contesta as causas antrópicas da crise climática". O texto diz exatamente o oposto. No 2º parágrafo, lê-se:
"O escritor alertou que, diante das evidências científicas sobre o impacto das ações humanas sobre o clima, como o uso de combustíveis fósseis..."
Krenak reconhece e denuncia as causas humanas (antrópicas) da crise; ele não as contesta. A alternativa contradiz o texto ao inverter a posição do autor.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A alternativa afirma que Krenak "defende uma solução científica para a crise climática". O texto não menciona, em nenhum momento, soluções científicas ou tecnológicas. Krenak propõe "cogitar outros mundos" e apresenta conceitos como "florestania" e "floricidade", que são propostas de mudança de visão de mundo e de relação com a natureza, não soluções científicas. A alternativa extrapola o texto, acrescentando uma informação que não está presente.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A alternativa afirma que Krenak "propõe uma forma alternativa de hábitos de consumo". O texto menciona que, "nesses outros mundos, o modo de vida e os hábitos de consumo dos centros urbanos não são mais o foco". No entanto, a proposta de Krenak é mais ampla: ele fala em "cogitar outros mundos", em uma nova relação com a floresta e com a cidade. A alternativa restringe o alcance da proposta, reduzindo-a a uma mudança de hábitos de consumo, quando o texto fala de uma transformação mais profunda da visão de mundo.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A alternativa afirma que Krenak "é um entusiasta das estruturas edificantes das cidades". O texto mostra o oposto. No 6º parágrafo, Krenak critica as cidades:
"Na maioria das cidades, jazem os rios debaixo das calçadas e estruturas que vão erigindo essa paisagem tão atraente que são as cidades."
A palavra "jazem" (estão mortos, sepultados) revela uma visão crítica das estruturas urbanas, que escondem os rios. A alternativa contradiz o texto ao atribuir a Krenak um entusiasmo que ele não demonstra.
Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A alternativa afirma que Krenak "é um crítico da visão de mundo antropocêntrica". A visão antropocêntrica é aquela que coloca o ser humano como centro e senhor da natureza. O texto autoriza essa leitura em várias passagens, mas a mais explícita é:
"Nós somos a presença mais efêmera da Terra, e estamos causando um dano irreparável a outras formas de vida, como se nós tivéssemos a Terra à nossa disposição."
A expressão "como se nós tivéssemos a Terra à nossa disposição" é a crítica direta à postura de posse e superioridade do ser humano sobre o planeta. Krenak critica exatamente essa visão de mundo que trata a Terra como um recurso à disposição do homem. A alternativa é uma paráfrase fiel da tese central do texto.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a contradição (alternativas A e D) e a extrapolação (alternativa B) para testar se o candidato lê o texto com atenção. A alternativa C é uma restrição sedutora, pois usa palavras do texto ("hábitos de consumo") mas reduz o alcance da proposta de Krenak.
PEGA ESSA DICA!
Ao identificar a tese de um texto, procure a crítica central que o autor faz. Aqui, a crítica é à postura de posse do ser humano sobre a Terra. A alternativa que resume essa crítica é a correta.