Questão de Português — Figuras de Linguagem — CESPE / CEBRASPE 2026
Português›Figuras de Linguagem
Código
ce387563
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
AGU
Ano
2026
Cargo
Est ( )
Segundo dados do Conselho Nacional de Política Criminal e Penitenciária (CNPCP), há no Brasil atualmente 119 crianças com idade inferior a 2 anos vivendo em unidades prisionais, em razão de suas genitoras estarem em situação de privação de liberdade. Essas crianças acabam, de certo modo, cumprindo pena, sem terem culpa alguma, em conjunto com a mãe. Isso porque vivem uma rotina semelhante à das detentas, distantes do convívio em sociedade e das oportunidades para um desenvolvimento saudável. Trata-se de uma situação degradante, que infringe postulados constitucionais relacionados à individualização da pena, bem como normas infraconstitucionais, como o Estatuto da Criança e do Adolescente, além de tratados internacionais, como a Convenção sobre os Direitos da Criança. A pesquisadora Marlúcia de Rezende, ao realizar estudos no ambiente maternoinfantil de um presídio feminino do estado do Paraná, registrou que outro fator a ser considerado nesse contexto é o fato de o sistema prisional também ser um espaço de violência. “Embora, no ambiente maternoinfantil, não se presenciem ações práticas de violência por parte das mulheres e agentes penitenciárias, vive-se uma violência simbólica, expressa nos limites de tempo, espaço e movimento e na perda de autoridade da mãe perante os filhos diante das guardas”, aponta. (...) Diante dessa situação, o CNPCP editou a Recomendação n.º 5/2024, que recomenda às administrações penitenciárias das unidades federadas, aos órgãos de execução penal e ao sistema de justiça criminal diretrizes para o acolhimento de mulheres em situação de prisão e em processo de desencarceramento feminino. No mesmo sentido, o Supremo Tribunal Federal (STF), por meio de decisão do eminente ministro Gilmar Mendes, ao analisar o HC n.º 250.929, determinou ao Conselho Nacional de Justiça a realização de mutirões carcerários para garantir o cumprimento de decisão que assegurou a substituição da prisão preventiva por domiciliar para mães de crianças com menos de 12 anos de idade em todo o país. (...) Kátia Abreu e Fernanda Feresin. A infância encarcerada. Internet: <www.gov.br/agu> (com adaptações). Com relação ao emprego de figuras de linguagem no fragmento de texto precedente, assinale a opção correta.
ANo trecho “Trata-se de uma situação degradante, que infringe postulados constitucionais”, a caracterização da situação como degradante consiste em eufemismo.
BNo trecho “o Supremo Tribunal Federal (STF) (…) determinou ao Conselho Nacional de Justiça”, ocorre metonímia.
CEm “distantes do convívio em sociedade e das oportunidades para um desenvolvimento saudável”, identifica-se hipérbole.
DEm “outro fator a ser considerado nesse contexto é o fato de o sistema prisional também ser um espaço de violência”.
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GabaritoB — No trecho “o Supremo Tribunal Federal (STF) (…) determinou ao Conselho Nacional de Justiça”, ocorre metonímia.
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Figuras de linguagem: metonímia no trecho do STF
Gabarito: letra B. No trecho “o Supremo Tribunal Federal (STF) (…) determinou ao Conselho Nacional de Justiça”, ocorre metonímia, pois o nome do órgão (STF) é usado para designar as pessoas que o compõem — os ministros — que, de fato, tomaram a decisão. A passagem que ancora essa leitura é a que menciona a decisão do “eminente ministro Gilmar Mendes”, mostrando que quem determinou foram os ministros, não a instituição abstrata.
O comando da questão
A questão pede que você identifique a figura de linguagem presente em um dos trechos destacados. Isso exige conhecimento do conceito de cada figura e, principalmente, a capacidade de reconhecer o mecanismo pelo qual o autor substitui um termo por outro. Não basta saber a definição decorada; é preciso ver a figura funcionando no texto.
O texto e o movimento argumentativo
O texto trata da situação de crianças que vivem com suas mães em unidades prisionais, destacando a violação de direitos e as medidas institucionais para enfrentar o problema. No trecho da alternativa B, o autor relata uma decisão do STF: “determinou ao Conselho Nacional de Justiça a realização de mutirões carcerários”. Aqui, o sujeito gramatical é “o Supremo Tribunal Federal”, mas a ação de “determinar” é praticada por pessoas — os ministros. Essa substituição do órgão pela pessoa (ou vice-versa) é o traço clássico da metonímia.
A técnica que decide
Metonímia é a figura de linguagem em que se usa uma palavra no lugar de outra, havendo entre elas uma relação de contiguidade (proximidade de sentido), como:
o autor pela obra (“li Machado de Assis” = li os livros dele);
o continente pelo conteúdo (“bebeu um copo” = bebeu o líquido);
o órgão pela pessoa (“o STF decidiu” = os ministros decidiram).
No trecho, “o STF determinou” é metonímia porque a instituição não age; quem age são os ministros que a compõem. O próprio texto reforça isso ao citar o “ministro Gilmar Mendes” como autor da decisão.
Análise das alternativas
Metonímia
1Substituição por contiguidade
Autor pela obra
Continente pelo conteúdo
Órgão pela pessoa
"STF determinou" = ministros decidiram
2Distinções
Eufemismo (suaviza)
Hipérbole (exagera)
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Alternativa A — ❌ Incorreta
“Trata-se de uma situação degradante, que infringe postulados constitucionais”
Aqui não há eufemismo. Eufemismo é a substituição de uma expressão dura ou desagradável por outra mais suave (ex.: “partiu” por “morreu”). O trecho, ao contrário, é direto e crítico: chama a situação de “degradante” e afirma que ela “infringe postulados constitucionais”. Não há suavização; há denúncia. A alternativa troca o conceito de eufemismo.
Alternativa B — ✅ Correta
“o Supremo Tribunal Federal (STF) (…) determinou ao Conselho Nacional de Justiça”
Como explicado, ocorre metonímia: o órgão (STF) é usado no lugar dos ministros que, de fato, decidiram. O texto confirma ao mencionar a “decisão do eminente ministro Gilmar Mendes”. A substituição é clássica e a alternativa está correta.
Alternativa C — ❌ Incorreta
“distantes do convívio em sociedade e das oportunidades para um desenvolvimento saudável”
Não há hipérbole (exagero intencional). O trecho descreve, de forma literal, a realidade das crianças: elas estão privadas do convívio social e de um desenvolvimento saudável. Não há exagero; há constatação. A alternativa extrapola ao atribuir uma figura que não está presente.
Alternativa D — ❌ Incorreta
“outro fator a ser considerado nesse contexto é o fato de o sistema prisional também ser um espaço de violência”
Este trecho é uma afirmação literal, sem figura de linguagem. Não há metáfora, metonímia ou qualquer outro recurso expressivo. A alternativa tangencia o tema ao citar um trecho que não contém a figura pedida.
Fechamento
A questão cobra a identificação precisa da figura de linguagem. A pegadinha está em confundir metonímia com outras figuras ou em achar que qualquer trecho “forte” contém uma figura. Lembre-se: metonímia exige substituição por contiguidade — aqui, o órgão pela pessoa. As demais alternativas ou usam o termo errado (eufemismo, hipérbole) ou apontam um trecho sem figura alguma.
PEGA ESSA DICA!
Ao identificar figuras, pergunte-se: “há substituição de um termo por outro? Há exagero? Há suavização?”. Se a resposta for não, a figura não está lá.