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Questão de Português — Conjugação. Reconhecimento e Emprego dos Modos e Tempos Verbais — CESPE / CEBRASPE 2023

PortuguêsConjugação. Reconhecimento e Emprego dos Modos e Tempos Verbais
Código
ce395627
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
TJ ES
Ano
2023
Cargo
AJ 02 ( )

A apropriação colonial das terras indígenas muitas vezes se iniciava com alguma alegação genérica de que os povos forrageadores viviam em um estado de natureza — o que significava que eram considerados parte da terra, mas sem nenhum direito a sua propriedade. A base para o desalojamento, por sua vez, tinha como premissa a ideia de que os habitantes daquelas terras não trabalhavam. Esse argumento remonta ao Segundo tratado sobre o governo (1690), de John Locke, em que o autor defendia que os direitos de propriedade decorrem necessariamente do trabalho. Ao trabalhar a terra, o indivíduo “mistura seu trabalho” a ela; nesse sentido, a terra se torna, de certo modo, uma extensão do indivíduo. Os nativos preguiçosos, segundo os discípulos de Locke, não faziam isso. Não eram, segundo os lockianos, “proprietários de terras que faziam melhorias”; apenas as usavam para atender às suas necessidades básicas com o mínimo de esforço.


James Tully, uma autoridade em direitos indígenas, aponta as implicações históricas desse pensamento: considera-se vaga a terra usada para a caça e a coleta e, “se os povos aborígenes tentam submeter os europeus a suas leis e costumes ou defender os territórios que durante milhares de anos tinham erroneamente pensado serem seus, então são eles que violam o direito natural e podem ser punidos ou ‘destruídos’ como animais selvagens”. Da mesma forma, o estereótipo do nativo indolente e despreocupado, levando uma vida sem ambições materiais, foi utilizado por milhares de conquistadores, administradores de latifúndios e funcionários coloniais europeus na Ásia, na África, na América Latina e na Oceania como pretexto para obrigar os povos nativos ao trabalho, com meios que iam desde a escravização pura e simples ao pagamento de taxas punitivas, corveias e servidão por dívida.


David Graeber e David Wengrow.

O despertar de tudo: uma nova história da humanidade. São Paulo: Cia das Letras, 2022, p. 169-170 (com adaptações).

Texto CG1A1-I

 

Acerca dos sentidos e dos mecanismos de coesão empregados no texto CG1A1-I, julgue o próximo item.


Infere-se do primeiro parágrafo, especialmente por causa do emprego da forma verbal “defendia” (terceiro período), que John Locke desistiu de defender os direitos de propriedade.

  1. CCerto
  2. EErrado
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GabaritoE — Errado

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Inferência e o valor do pretérito imperfeito "defendia"

Gabarito: letra E (Errado). A afirmação de que John Locke "desistiu de defender os direitos de propriedade" não se sustenta no texto: o emprego da forma verbal "defendia" (pretérito imperfeito do indicativo) apenas situa a defesa de Locke no passado, indicando uma ação contínua ou habitual, sem qualquer ideia de desistência ou abandono. Como se lê no primeiro parágrafo, o autor "defendia que os direitos de propriedade decorrem necessariamente do trabalho" — ou seja, ele defendia (e não "deixou de defender") essa tese.

O comando pede uma inferência ("Infere-se"), ou seja, uma conclusão que o texto obriga o leitor a tirar a partir de pistas. Mas a pista apontada — o verbo "defendia" — não autoriza a conclusão proposta. O pretérito imperfeito, no contexto, expressa uma ação passada não concluída, uma característica do pensamento de Locke, e não o abandono de uma posição. Inferir "desistiu" é extrapolar: acrescentar uma informação que o texto não contém e que a forma verbal não sugere.

O texto, na verdade, apresenta Locke como defensor da teoria do trabalho como fundamento da propriedade. Veja o trecho decisivo:

"Esse argumento remonta ao Segundo tratado sobre o governo (1690), de John Locke, em que o autor defendia que os direitos de propriedade decorrem necessariamente do trabalho."

A forma "defendia" é um pretérito imperfeito do indicativo, que indica uma ação durativa, habitual ou contínua no passado. Não há nenhum verbo ou expressão que indique cessação, como "deixou de", "abandonou", "renunciou a". Pelo contrário, o texto mostra que a defesa de Locke é a base do argumento colonial: os "discípulos de Locke" usaram essa defesa para justificar o desalojamento dos nativos. Logo, a inferência correta seria: Locke defendia (e essa defesa fundamentou a apropriação colonial) — jamais que ele desistiu de defender.

A banca explora uma confusão comum entre o valor aspectual do pretérito imperfeito e a ideia de ação interrompida. O imperfeito, sozinho, não indica interrupção; ele apenas localiza a ação no passado, sem precisar seu término. Para indicar desistência, seria necessário um contexto explícito, como "Locke abandonou a defesa" ou "Locke deixou de defender". Nada disso aparece no texto.

1Valor aspectual
Ação contínua no passado
Ação habitual
Não indica interrupção
2Inferência válida
Locke defendia a tese
Defesa fundamenta argumento
3Extrapolação (errada)
"Desistiu de defender"
"Abandonou a posição"
Pretérito imperfeito "defendia"
LEVELsoulevel.com.br
Pretérito imperfeito "defendia": Valor aspectual (Ação contínua no passado, Ação habitual, Não indica interrupção); Inferência válida (Locke defendia a tese, Defesa fundamenta argumento); Extrapolação (errada) ("Desistiu de defender", "Abandonou a posição")

Alternativa C — ❌ Incorreta

A afirmativa de que "John Locke desistiu de defender os direitos de propriedade" contradiz o texto. O texto afirma que Locke defendia os direitos de propriedade, e essa defesa é o fundamento do argumento colonial. Não há nenhuma passagem que indique desistência. A alternativa extrapola o sentido do pretérito imperfeito, atribuindo-lhe um valor de cessação que ele não possui nesse contexto.

Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO

A afirmativa está errada porque a inferência proposta não é autorizada pelo texto. O verbo "defendia" indica uma ação passada contínua, e não uma ação abandonada. O texto mostra Locke como defensor da teoria do trabalho, e não como alguém que desistiu dela. Portanto, a única leitura correta é a que nega a desistência.

NÃO CAIA NESSA!

A banca tenta fazer o candidato confundir o valor aspectual do pretérito imperfeito (ação contínua no passado) com a ideia de ação interrompida ou abandonada. O imperfeito, sozinho, não indica desistência — para isso, seria necessário um verbo como "deixou de" ou "abandonou".

PEGA ESSA DICA!

Ao se deparar com uma inferência, pergunte: "o texto obriga a essa conclusão?" Se a conclusão depende de uma informação que não está no texto, é extrapolação. No caso, a forma verbal "defendia" não obriga a concluir que houve desistência.

Conclusão: a questão testa a diferença entre inferir (conclusão ancorada em pistas) e extrapolar (acrescentar informação de fora). Como a pista "defendia" não sustenta a ideia de desistência, o item é ERRADO.

Gabarito: letra E

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