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Questão de Português — Conjugação. Reconhecimento e Emprego dos Modos e Tempos Verbais — CESPE / CEBRASPE 2023

PortuguêsConjugação. Reconhecimento e Emprego dos Modos e Tempos Verbais
Código
ce395632
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
TJ ES
Ano
2023
Cargo
AJ 02 ( )

Estou prestes a sair de casa. Abro o armário. Urge escolher a máscara, das muitas que eu tenho, para ir à rua. Com ela enfrentarei os dissabores e as aventuras do meu cotidiano. Afinal, ela é a ponte que cruzo para alcançar os demais seres.


Minhas máscaras acomodam-se na prateleira, em meio às bolsas. Todas parecidas, elas diferenciam-se entre si apenas em detalhes imperceptíveis aos olhos alheios. São raros aqueles que surpreendem a natureza da minha máscara. Reconhecem que rio, choro ou encontro-me na iminência de velejar para um hemisfério longínquo, de onde, quem sabe, não regresso tão cedo.


Enquanto muitos confessam, em consonância, com triste adágio, que suas vidas são um livro aberto, nada tenho a esconder dos homens, sou justo o contrário, não sei viver sem as máscaras, que me protegem, são a salvaguarda da minha liberdade. E ainda que se provem elas em muitos momentos incapazes de me proteger, não importa. Afinal, a vida não permite previsões, lances antecipados. Para enfrentar certos conflitos, seria necessário revestir-se da máscara de ferro, que traz consigo o sopro da morte.


Duvido que alguém prescinda do uso da máscara. Ande inadvertido pelo mundo, oferecendo o rosto cru dos seus sentimentos. Desajeitado e pobre, quando poderia dispor, a qualquer hora, de mais de mil máscaras, capazes todas de impulsionar o espetáculo humano, de corresponder à natureza do seu dono, de encharcar de vinagre e esperança qualquer coração.


As máscaras, sem dúvida, ajudam-me a viver. Levam-me às cerimônias solenes, onde confirmo educação recebida. Acompanham-me nos momentos em que sangro, a despeito da minha aparente indiferença. E são elas ainda que me perguntam qual das máscaras usar em determinada festa. Acaso a máscara que engendrei ao longo dos anos, e que me serve como um chinelo velho? Aquela que é dissimulada, cujo desassombro assusta-me, pois revela aos vizinhos o que eu mantinha sob resguardo? Ou a outra, que aspira sobrepor-se à tirania das convenções, quer rasgar o véu da hipocrisia, emitir as palavras acomodadas no baú dos enigmas? Será a máscara que alardeia arrogância, ansiosa por deixar consignada nas paredes do mundo uma única mensagem que justifique sua existência?


Olho-me ao espelho. Estarei usando máscara mesmo quando estou sozinha? Acaso já não vivo sem ela, só respiro por meio de artifícios? É ela que me deixa ser alada e terrestre, me permite voar e contornar seres e objetos de cristal? É a máscara que pousa desajeitada no meu próprio rosto, onde há de ficar para sempre, até derreter um dia como se fora feita de cera?


Nélida Piñon. A máscara do meu rosto. In: O Estado de São Paulo, Suplemento Feminino, 29/9/1997.

Texto 20A2-II

Considerando aspectos de forma e de conteúdo do texto 20A2-II, julgue o item subsecutivo.


O uso do presente do indicativo nos três primeiros períodos do texto é um recurso de estilo que permite destacar a recorrência dos referidos atos na rotina da narradora.

  1. CCerto
  2. EErrado
Revelar gabarito e comentário

GabaritoC — Certo

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

O presente do indicativo como marca de recorrência

Gabarito: CERTO. O uso do presente do indicativo nos três primeiros períodos do texto é, de fato, um recurso de estilo que destaca a recorrência dos atos narrados na rotina da narradora. A pista decisiva está na combinação do presente com o advérbio de frequência e com a ideia de ação que se repete: "Estou prestes a sair de casa. Abro o armário. Urge escolher a máscara". O presente, aqui, não marca um fato pontual e único, mas ações habituais, que se repetem no cotidiano da personagem.

O comando: o que a banca pede

A questão é de interpretação de texto com foco em aspectos de forma e conteúdo. O enunciado afirma que o presente do indicativo é um recurso de estilo que "permite destacar a recorrência dos referidos atos na rotina da narradora". Você deve julgar se essa leitura é correta. Não se trata de gramática pura (identificar o tempo verbal), mas de efeito de sentido que o tempo verbal produz no texto. A pergunta é: o presente, aqui, indica ação pontual (agora) ou ação habitual (sempre)?

O texto: onde mora a resposta

O texto é uma crônica narrativa em primeira pessoa, em que a narradora reflete sobre o uso de máscaras sociais. Os três primeiros períodos são:

"Estou prestes a sair de casa. Abro o armário. Urge escolher a máscara, das muitas que eu tenho, para ir à rua."

Observe: "estou prestes a sair" (presente), "abro" (presente), "urge escolher" (presente). Essas ações não acontecem uma única vez; elas descrevem o ritual cotidiano de preparar-se para enfrentar o mundo. A prova de que se trata de recorrência está no próprio texto, quando a narradora diz que tem "muitas" máscaras e que elas "acomodam-se na prateleira" (presente habitual). Além disso, o advérbio "prestes" (prestes a sair) indica iminência, mas a ação de abrir o armário e escolher a máscara é algo que se repete sempre que ela sai.

A técnica: valor do presente do indicativo

O presente do indicativo tem vários valores. Os principais são:

  • Presente pontual: indica ação que ocorre no momento da fala. Ex.: "Agora abro a porta."

  • Presente habitual (ou frequentativo): indica ação que se repete, que faz parte da rotina. Ex.: "Acordo cedo todos os dias."

  • Presente histórico (ou narrativo): usado para narrar fatos passados com vivacidade. Ex.: "Em 1822, D. Pedro proclama a independência."

  • Presente com valor de futuro: Ex.: "Amanhã viajo para São Paulo."

No texto, o presente é habitual. A narradora não está, naquele exato momento, abrindo o armário pela primeira vez; ela descreve um rito que se repete. A prova está na sequência: "Abro o armário. Urge escolher a máscara, das muitas que eu tenho". O plural "muitas" e a ideia de escolha entre várias máscaras reforçam a recorrência. Além disso, o texto todo é uma reflexão sobre a máscara como algo permanente na vida: "não sei viver sem as máscaras" (presente habitual).

A pegadinha

A banca explora a confusão entre o valor pontual e o valor habitual do presente. O candidato pode pensar: "presente indica agora, então não há recorrência". Mas o presente, em português, é o tempo da atemporalidade e da habitualidade por excelência. Quando dizemos "eu como carne", não estamos dizendo que comemos agora, mas que temos o hábito de comer. No texto, o mesmo ocorre: "abro o armário" não é um ato único, é o que ela sempre faz antes de sair.

Presente do indicativo
  • 1Valores
    • Pontual (agora)
    • Habitual (rotina)
    • Histórico (passado com vivacidade)
    • Futuro (amanhã viajo)
  • 2No texto
    • Habitual (recorrência)
      • "Estou prestes a sair"
      • "Abro o armário"
      • "Urge escolher"
    • Pista: "das muitas que eu tenho"
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Análise do item

Item — ✅ CERTO

A afirmação está correta. O presente do indicativo, nos três primeiros períodos, é usado para descrever ações que se repetem na rotina da narradora. Isso é um recurso estilístico: em vez de usar o pretérito imperfeito (que também indica habitualidade no passado), a autora usa o presente para aproximar o leitor do momento da narração e dar sensação de atualidade e recorrência. O texto confirma:

"Estou prestes a sair de casa. Abro o armário. Urge escolher a máscara, das muitas que eu tenho, para ir à rua."

A expressão "das muitas que eu tenho" já indica que não é a primeira vez que ela escolhe uma máscara; é um hábito. Portanto, o item está certo.

Conclusão

A questão ensina que o tempo verbal não é apenas uma categoria gramatical; ele carrega valor semântico e estilístico. Ao julgar itens como este, pergunte: o presente indica ação pontual ou habitual? No texto, a repetição de ações cotidianas (sair, abrir, escolher) e a referência a "muitas" máscaras deixam claro o valor de recorrência. Gabarito: CERTO.

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