Questão de Português — Conjugação. Reconhecimento e Emprego dos Modos e Tempos Verbais — CESPE / CEBRASPE 2023
Português›Conjugação. Reconhecimento e Emprego dos Modos e Tempos Verbais
Código
ce395633
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
TJ CE
Ano
2023
Cargo
TJ ( )
Texto CG1A1-I
Nem mais como tema literário serve ainda esse assunto de seca. Já cansou quem escreve, cansou quem lê e cansou principalmente quem o sofre. Parece mesmo que cansou o próprio Deus Nosso Senhor, pois que afinal, repetindo um gesto sucedido há exatamente um século (o último diz a tradição que foi em 1851), contra todos os cálculos, contra todas as experiências, ultrapassando os otimismos mais alucinados, fez começar um inverno no Nordeste durante a primeira quinzena de abril.
Eu estava lá. Assisti mais uma vez à mágica transformação do deserto em jardim do paraíso. E vendo o céu escurecer bonito, depois de tantos meses de desesperança, os compadres diziam que eu lhes levara o inverno nas malas. O fato é que, durante a viagem de ida, enquanto o “Constellation” da Panair voava por cima do colchão compacto de nuvens carregadas de água, me dava uma vontade desesperada de rebocá-las todas, lá para onde tanta falta faziam, levá-las como rebanho de golfinhos prisioneiros e despejá-las em cheio sobre os serrotes do Quixadá.
Pois choveu. Encheram-se os açudes, as várzeas deram nado, os rios subiram de barreira a barreira.
Mas ninguém espere muito de um inverno assim tardio. Já se agradece de joelhos o pasto aparentemente garantido, o gado salvo. Mas não se espera que haja milho. Talvez feijão, desse precoce que dá em dois meses. E o algodão aguenta, provavelmente. Nada mais.
Rachel de Queiroz. Choveu! (com adaptações).
No terceiro período do segundo parágrafo do texto CG1A1-I, a forma verbal “levara” está flexionada no
Atempo pretérito perfeito do modo indicativo, expressando que a ação de levar acontecia com frequência no passado.
Btempo futuro do modo indicativo, expressando que a ação de levar ainda acontecerá.
Ctempo futuro do modo subjuntivo, expressando que há grande probabilidade de que a ação de levar aconteça.
Dtempo presente do modo indicativo, expressando que a ação de levar acontece naquele momento.
Etempo pretérito mais-que-perfeito do modo indicativo, expressando que a ação de levar aconteceu anteriormente ao momento em que os compadres viam “o céu escurecer bonito”.
Revelar gabarito e comentário▾
GabaritoE — tempo pretérito mais-que-perfeito do modo indicativo, expressando que a ação de levar aconteceu anteriormente ao momento em que os compadres viam “o céu escurecer bonito”.
Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.
Flexão verbal: “levara” e o pretérito mais-que-perfeito
Gabarito: letra E. A forma verbal “levara” está flexionada no pretérito mais-que-perfeito do modo indicativo, e a alternativa E acerta ao explicar que a ação de levar aconteceu anteriormente ao momento em que os compadres viam “o céu escurecer bonito”. A passagem que ancora essa leitura é o trecho do segundo parágrafo: “os compadres diziam que eu lhes levara o inverno nas malas”. O verbo “diziam” (pretérito imperfeito) situa a fala dos compadres no passado; “levara” (mais-que-perfeito) expressa uma ação ainda mais recuada, anterior àquela fala.
O comando da questão é direto: pede que se reconheça o tempo e o modo da forma verbal “levara” e, além disso, que se compreenda o efeito de sentido que esse tempo produz no texto. Não se trata de interpretar o texto em sentido amplo, mas de aplicar a gramática da conjugação verbal ao contexto — e é exatamente aí que mora a armadilha: a banca mistura tempos e modos parecidos na forma, mas distintos no valor.
No texto, a cena é esta: a autora viajou para o Nordeste, e os compadres, ao vê-la chegar junto com as chuvas, brincaram dizendo que ela trouxera (levara) o inverno nas malas. O verbo “levara” não indica uma ação frequente, nem futura, nem presente — indica uma ação passada, anterior a outra ação também passada. É exatamente o valor do pretérito mais-que-perfeito: o passado do passado.
A técnica para resolver sem erro: identifique a terminação e o contexto. A desinência -ra (leva-ra) é a marca clássica do pretérito mais-que-perfeito simples do indicativo (cantara, vendera, partira). No contexto, o verbo “diziam” (imperfeito) é o ponto de referência no passado; “levara” recua ainda mais, indicando que a ação de levar foi anterior à fala dos compadres. A alternativa E é a única que combina a classificação correta com a explicação de sentido correta.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a confusão entre o pretérito mais-que-perfeito (terminação -ra, ação passada anterior a outra passada) e o futuro do pretérito (terminação -ria, ação futura em relação a um fato passado). A forma “levara” não é “levaria” — e é essa troca sutil que derruba o candidato desatento.
PEGA ESSA DICA!
Ao identificar o tempo verbal, pergunte: “essa ação é anterior, simultânea ou posterior a outra ação do texto?”. Se for anterior a um fato passado, é mais-que-perfeito. Se for posterior a um fato passado, é futuro do pretérito.
Alternativa A — ❌ Incorreta
A alternativa afirma que “levara” está no pretérito perfeito do indicativo, expressando ação frequente no passado. O pretérito perfeito (levei, levou) indica ação concluída no passado, sem a noção de habitualidade — e a forma correta seria “levei” ou “levou”, não “levara”. A noção de frequência pertence ao pretérito imperfeito (levava), não ao perfeito. A alternativa confunde o tempo e atribui um valor de habitualidade que o texto não sustenta.
Alternativa B — ❌ Incorreta
A alternativa afirma que “levara” está no futuro do indicativo, expressando ação que ainda acontecerá. O futuro do presente (levarei, levará) tem terminação -rei/-rá, não -ra. Além disso, o contexto é claramente passado: os compadres diziam (pretérito) que a autora levara (passado) o inverno. A alternativa contradiz o texto, pois situa a ação no futuro quando o texto a situa no passado.
Alternativa C — ❌ Incorreta
A alternativa afirma que “levara” está no futuro do subjuntivo, expressando probabilidade. O futuro do subjuntivo (levar, levares, levar) tem terminação -r, não -ra. Além disso, o modo subjuntivo expressa dúvida, hipótese ou incerteza — mas o texto apresenta a ação como fato passado, não como hipótese. A alternativa confunde o modo (subjuntivo em vez de indicativo) e inventa um valor de probabilidade que o texto não autoriza.
Alternativa D — ❌ Incorreta
A alternativa afirma que “levara” está no presente do indicativo, expressando ação que acontece naquele momento. O presente do indicativo (levo, leva) tem terminação -o/-a, não -ra. O texto é uma narrativa de fatos passados — a autora diz “Eu estava lá” e descreve o que viu e ouviu. A alternativa contradiz o texto, pois situa a ação no presente quando o texto a situa no passado.
Alternativa E — ✅ Correta ⟵ GABARITO
A alternativa afirma que “levara” está no pretérito mais-que-perfeito do indicativo, expressando ação anterior ao momento em que os compadres viam “o céu escurecer bonito”. A classificação está correta: a terminação -ra é a marca do mais-que-perfeito simples. O sentido também está correto: no trecho “os compadres diziam que eu lhes levara o inverno nas malas”, o verbo “diziam” (imperfeito) é o ponto de referência no passado, e “levara” recua ainda mais, indicando que a ação de levar foi anterior à fala dos compadres. A alternativa é a única que combina a classificação correta com a explicação de sentido correta, ancorada no texto.
Gabarito: letra E. A questão ensina que reconhecer o tempo verbal não é só decorar a terminação — é observar a relação temporal entre as ações do texto. “Levara” é mais-que-perfeito porque expressa o passado do passado, anterior ao “diziam” dos compadres.