Questão de Português — Formação e Estrutura das Palavras — CESPE / CEBRASPE 2023
Português›Formação e Estrutura das Palavras
Código
ce395976
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
UnB
Ano
2023
Cargo
Vest ( )
Não se deveria dizer “consumir cultura”. Em vez de “consumir música” ou “consumir teatro”, deveríamos voltar a dizer “ouvir música”, “assistir ao teatro”, e assim por diante.
Na Roma antiga, “consumir” tinha o sentido exclusivo de gastar e destruir. Com o tempo, passou-se a empregar o termo referindo-se ao consumo de alimentos, o que não deixa de ser uma destruição: destruímos os alimentos ao comê-los, para nos mantermos vivos e saudáveis. Já que, para comê-los, é preciso primeiro comprá-los, consumir tornou-se sinônimo de comprar, adquirir. E, na sociedade em que vivemos, em que tudo, inclusive a cultura, virou produto, não é estranho pensar em consumir música, teatro, dança, livros etc.
Em tempos em que o consumismo domina as relações sociais e em que há uma forte reação contra ele por parte de setores mais esclarecidos da sociedade, falar em consumir cultura pode soar mercantilista. Quem consome não frui, e a cultura deveria ser, antes de tudo, fruição.
Aldo Bizzocchi. Cultura é artigo de consumo? Internet: <www.diariodeumlinguista.com> (com adaptações).
No que se refere aos sentidos e aos aspectos linguísticos do texto precedente, julgue o item e faça o que se pede no item, que é do tipo C.
As palavras “consumo”, “produto” e “fruição” resultam de um processo de derivação.
CCerto
EErrado
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Derivação: consumo, produto e fruição
Gabarito: ERRADO. A afirmação de que “consumo”, “produto” e “fruição” resultam de um processo de derivação é incorreta porque, embora todas sejam palavras derivadas, elas não resultam do mesmo tipo de derivação: “consumo” é formado por derivação regressiva (a partir do verbo consumir), enquanto “produto” e “fruição” são formados por derivação sufixal (acréscimo de sufixos a radicais). A banca generaliza indevidamente, tratando processos distintos como se fossem um só.
O comando e o que ele exige
A questão pede que você julgue se as três palavras citadas resultam de um processo de derivação. Isso é uma questão de morfologia — mais especificamente, de processos de formação de palavras. Não se trata de interpretação de texto, mas de conhecimento técnico sobre como as palavras são formadas. O comando é direto: você deve verificar, para cada palavra, se ela é derivada e, se for, de que tipo.
O texto e o contexto
O texto de Aldo Bizzocchi discute o uso da expressão “consumir cultura”, criticando o caráter mercantilista que o verbo “consumir” adquiriu. As palavras “consumo”, “produto” e “fruição” aparecem no texto em contextos específicos:
“consumir tornou-se sinônimo de comprar, adquirir. E, na sociedade em que vivemos, em que tudo, inclusive a cultura, virou produto”
“Quem consome não frui, e a cultura deveria ser, antes de tudo, fruição.”
Mas a questão não depende do sentido contextual dessas palavras; ela depende da estrutura morfológica delas. O texto apenas fornece o contexto em que elas aparecem; a análise é puramente morfológica.
A técnica: como analisar a formação de cada palavra
Para resolver, você precisa identificar o processo de formação de cada palavra. Vamos relembrar os principais tipos de derivação:
Derivação prefixal: acréscimo de prefixo (ex.: injusto).
Derivação sufixal: acréscimo de sufixo (ex.: lealdade).
Derivação prefixal e sufixal: acréscimo de prefixo e sufixo de forma não simultânea (ex.: deslealdade).
Derivação parassintética: acréscimo simultâneo de prefixo e sufixo (ex.: emagrecer).
Derivação regressiva: formação de substantivo a partir de verbo, com redução (ex.: canto de cantar).
Derivação imprópria: mudança de classe sem alteração de forma (ex.: o olhar).
Agora, aplique a cada palavra:
Consumo: vem do verbo consumir. Ao reduzir a terminação verbal, obtém-se o substantivo consumo. Isso é derivação regressiva.
Produto: vem do verbo produzir? Não. Produto é formado pelo radical produt- + sufixo -o? Na verdade, produto é uma palavra que vem do latim productus, mas, na análise sincrônica, é formada por derivação sufixal (radical produt- + sufixo -o).
Fruição: vem do verbo fruir + sufixo -ção. Isso é derivação sufixal.
Portanto, as três palavras são derivadas, mas por processos diferentes: uma regressiva e duas sufixais. A afirmação de que todas resultam de “um processo de derivação” (no singular) é falsa, pois generaliza processos distintos.
A assertiva afirma que “consumo”, “produto” e “fruição” resultam de um processo de derivação. Isso é parcialmente verdadeiro, mas a generalização é indevida. Vejamos:
Como os processos são diferentes, a afirmação de que todas resultam de “um processo” (no singular) é incorreta. A banca comete o erro de generalização indevida, tratando processos distintos como se fossem um só.
NÃO CAIA NESSA!
A banca tenta fazer você acreditar que todas as palavras derivadas são formadas pelo mesmo processo. Mas a derivação tem vários tipos, e é preciso identificar cada um. Aqui, “consumo” é regressiva, enquanto “produto” e “fruição” são sufixais.
PEGA ESSA DICA!
Ao analisar a formação de uma palavra, pergunte: ela vem de um verbo? Se sim, pode ser regressiva. Ela tem sufixo? Se sim, é sufixal. Não generalize: cada palavra tem sua história.
Conclusão: como a banca pediu para julgar o item, e a afirmação é falsa (generaliza processos distintos), o gabarito é ERRADO.