Questão de Português — Conjugação. Reconhecimento e Emprego dos Modos e Tempos Verbais — CESPE / CEBRASPE 2023
Português›Conjugação. Reconhecimento e Emprego dos Modos e Tempos Verbais
Código
ce396034
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
UnB
Ano
2023
Cargo
Vest ( )
No princípio, antes de ir para bordo, foi-lhe difícil esquecer o passado, a “mãe Sabina”, os costumes que aprendera nos cafezais... Muita vez chegava a sentir um vago desejo de abraçar os seus antigos companheiros do eito, mas logo essa lembrança esvaía-se como a fumaça longínqua e tênue das queimadas, e ele voltava à realidade, abrindo os olhos, num gozo infinito para o mar crivado de embarcações...
A disciplina militar, com todos os seus excessos, não se comparava ao penoso trabalho da fazenda, ao regímen terrível do tronco e do chicote. Havia muita diferença... Ali ao menos, na fortaleza, ele tinha sua maca, seu travesseiro, sua roupa limpa, e comia bem, a fartar, como qualquer pessoa, hoje boa carne cozida, amanhã suculenta feijoada, e, às sextas-feiras, um bacalhauzinho com pimenta e “sangue de Cristo”...
Para que vida melhor? Depois, a liberdade, minha gente, só a liberdade valia por tudo! Ali não se olhava a cor ou a raça do marinheiro: todos eram iguais, tinham as mesmas regalias — o mesmo serviço, a mesma folga. — “E quando a gente se faz estimar pelos superiores, quando não se tem inimigos, então é um viver abençoado esse: ninguém pensa no dia d’amanhã!”
Adolfo Caminha. O bom-crioulo.
Considerando os sentidos e aspectos linguísticos e textuais do fragmento precedente, extraído da obra O Bom-Crioulo, de Adolfo Caminha, julgue o item a seguir. No primeiro período do primeiro parágrafo, a forma verbal “aprendera” poderia ser substituída por havia aprendido, sem prejuízo dos sentidos originais e da correção gramatical do texto.
CCerto
EErrado
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GabaritoC — Certo
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Equivalência entre “aprendera” e “havia aprendido”
Gabarito: C — CERTO. A forma verbal “aprendera” (pretérito mais-que-perfeito simples do indicativo) pode ser substituída por “havia aprendido” (pretérito mais-que-perfeito composto do indicativo) sem prejuízo dos sentidos originais e da correção gramatical, pois ambas expressam o mesmo valor temporal: uma ação passada anterior a outra ação também passada. No texto, o narrador afirma que, antes de ir para bordo, foi-lhe difícil esquecer o passado, os costumes que aprendera nos cafezais — ou seja, o aprendizado ocorreu antes do momento em que ele já estava na fortaleza. A troca por “havia aprendido” mantém exatamente essa anterioridade, como se lê no trecho:
“os costumes que aprendera nos cafezais”
A substituição é válida porque o pretérito mais-que-perfeito composto é formado pelo auxiliar “haver” no pretérito imperfeito do indicativo + particípio do verbo principal, e essa locução verbal equivale semanticamente à forma simples. Não há mudança de tempo, modo, pessoa ou número: ambas estão na 3ª pessoa do singular, no modo indicativo, e indicam um fato passado anterior a outro passado.
O comando da questão
O enunciado pede que se julgue a possibilidade de substituição de uma forma verbal por outra, sem prejuízo dos sentidos originais e da correção gramatical. Isso exige dois testes: (1) a equivalência semântica — as duas formas devem expressar o mesmo valor temporal e aspectual; (2) a correção gramatical — a nova forma deve estar bem formada e adequada ao contexto. Não se trata de interpretação de sentido figurado nem de análise de coesão, mas de reconhecimento de tempos verbais e de sua equivalência.
O texto e a localização da resposta
No primeiro parágrafo, o narrador descreve a dificuldade inicial do personagem em esquecer o passado: “foi-lhe difícil esquecer o passado, a ‘mãe Sabina’, os costumes que aprendera nos cafezais”. O verbo “aprendera” está no pretérito mais-que-perfeito simples do indicativo, indicando uma ação concluída antes de outra ação passada (o momento em que ele já estava na fortaleza). Essa é a função típica desse tempo verbal: expressar anterioridade em relação a um fato passado.
O pretérito mais-que-perfeito composto, formado por “havia” + particípio, cumpre exatamente a mesma função. Por isso, a substituição é possível e mantém o sentido. A banca não pede que se analise o valor estilístico ou a preferência do autor; apenas verifica se a troca é gramatical e semanticamente equivalente — e ela é.
A técnica que decide
Para resolver questões de substituição de formas verbais, o candidato deve:
Identificar o tempo e o modo da forma original (aqui: pretérito mais-que-perfeito do indicativo).
Verificar se a forma proposta pertence ao mesmo tempo/modo (aqui: pretérito mais-que-perfeito composto do indicativo).
Conferir se a pessoa e o número coincidem (3ª pessoa do singular).
Testar se a nova forma se encaixa no contexto sem alterar a relação temporal (anterioridade a outro fato passado).
Se todos os testes passarem, a substituição é válida. No caso, “havia aprendido” é a forma composta correspondente a “aprendera”, e ambas indicam a mesma anterioridade. Não há qualquer prejuízo de sentido ou de correção.
Análise da assertiva
1Identificar tempo e modo
2Conferir mesmo tempo/modo
3Conferir pessoa e número
4Testar relação temporal no contexto
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Assertiva — ✅ CERTO
A assertiva afirma que “aprendera” poderia ser substituída por “havia aprendido” sem prejuízo dos sentidos originais e da correção gramatical. Isso é verdadeiro. Como vimos, as duas formas são equivalentes: o pretérito mais-que-perfeito composto é a forma analítica do mesmo tempo verbal. A troca mantém a referência temporal (ação passada anterior a outra passada) e a correção gramatical (a locução “havia aprendido” está bem formada, com o auxiliar “haver” no imperfeito do indicativo e o particípio “aprendido”).
PEGA ESSA DICA!
Em questões de substituição de formas verbais, desconfie de alternativas que troquem o tempo (ex.: pretérito perfeito por mais-que-perfeito) ou o modo (indicativo por subjuntivo). Aqui, a banca manteve o mesmo tempo, apenas variando a forma simples pela composta — o que é sempre permitido.
Conclusão
A questão é de equivalência entre tempos verbais: o pretérito mais-que-perfeito simples e o composto são intercambiáveis quando ambos expressam a mesma anterioridade. Como “aprendera” e “havia aprendido” cumprem exatamente essa função no texto, a substituição é válida. Portanto, o item está CERTO.