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Questão de Português — Significação de Vocábulo e Expressões — CESPE / CEBRASPE 2023

PortuguêsSignificação de Vocábulo e Expressões
Código
ce396174
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
Pref Recife
Ano
2023
Cargo
Prof I ( )

Em uma de suas últimas entrevistas, o antropólogo Darcy Ribeiro (1922-1997) relatou que havia fugido do hospital onde se submetia a tratamento contra um câncer, para terminar o livro que considerava o coroamento de sua obra: O povo brasileiro, publicado em 1995. Na mesma entrevista, reconhecia ser um homem de “muitas peles”: foi etnólogo indigenista, antropólogo, educador, gestor público, político militante e romancista. Entretanto, dizia ter fracassado em sua missão de tornar o Brasil aquilo que “poderia ser”.


“Darcy Ribeiro é uma figura fascinante e um dos autores latino-americanos que projetaram mais futuros. Em alguns dos textos, ele parece comentar em voz alta as alternativas, utópicas e distópicas, para o Brasil e a América Latina”, observa o sociólogo Fabrício Pereira da Silva. “Este é um momento excelente para reexaminar suas ideias, suas utopias e seus projetos.”


Sua carreira de educador teve início na Escola Brasileira de Administração Pública, da Fundação Getúlio Vargas, no Rio de Janeiro, onde, durante dois anos, ensinou etnologia brasileira. Na mesma época, participou da fundação do Museu do Índio, em 1953, e, dois anos mais tarde, da criação do primeiro curso de pós-graduação em antropologia cultural no Brasil. Ao deixar o Serviço de Proteção aos Índios, lecionou na Universidade do Brasil, atual Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Nesse período, desenvolveu trabalhos com o pedagogo Anísio Teixeira (1900-1971), uma das principais referências em educação no Brasil e defensor do ensino básico integral. Sua influência perduraria por toda a trajetória de Darcy Ribeiro e se concretizaria no projeto dos centros integrados de educação pública (CIEP), escolas de tempo integral criadas no Rio de Janeiro nos anos 80 do século passado.


A crítica ao colonialismo, a análise dos povos latino-americanos e a valorização do ponto de vista indígena fazem da obra de Darcy Ribeiro uma fonte de inspiração para pesquisadores do campo de estudos pós-coloniais e decoloniais, de acordo com Pereira da Silva. “São releituras e apropriações, porque, quando ele publicou, esses termos não eram usados. A tendência ao evolucionismo e ao eurocentrismo de seus primeiros anos deu lugar, no exílio, a uma visão mais diversificada, em que a América Latina aparece como um polo civilizacional”, afirma.


Apesar de ter sido reitor, fundador e reformador de universidades, Darcy viveu a maior parte de sua carreira fora de instituições universitárias brasileiras. Entretanto, jamais deixou de refletir sobre seu projeto para o ensino superior. Publicou livros como A universidade necessária e La universidad latinoamericana, em que expôs seu projeto baseado em interdisciplinaridade, investimento em pesquisa científica avançada, compromisso social e participação do corpo discente na tomada de decisões.


Diego Viana. Darcy Ribeiro: a chama da utopia. Revista Pesquisa FAPESP, 30/10/2022 (com adaptações).

Texto CB1A1-I   

 

Em relação a aspectos linguísticos do texto CB1A1-I, julgue o próximo item.

 

No primeiro período do segundo parágrafo, o verbo projetar tem o mesmo sentido de planejar.

  1. CCerto
  2. EErrado
Revelar gabarito e comentário

GabaritoC — Certo

Esta resolução diverge do gabarito oficial. A banca deu Certo; a resolução abaixo sustenta o contrário e explica por quê — ela não foi reescrita para concordar. Acontece nos dois sentidos: há gabarito que cai em recurso e há resolução que erra. Confira na fonte antes de fixar o entendimento.
Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

O sentido de "projetar" no texto sobre Darcy Ribeiro

Gabarito: ERRADO. No primeiro período do segundo parágrafo, o verbo projetar não tem o mesmo sentido de planejar; ele é empregado em sentido figurado, com o significado de "lançar para o futuro", "antecipar", "vislumbrar" — e não de "elaborar um plano". A passagem que decide a questão é a seguinte:

"Darcy Ribeiro é uma figura fascinante e um dos autores latino-americanos que projetaram mais futuros."

A expressão "projetar futuros" não equivale a "planejar futuros" no sentido de organizar etapas; ela significa imaginar, desenhar, antecipar cenários — o que se confirma logo adiante, quando o sociólogo fala em "alternativas, utópicas e distópicas, para o Brasil e a América Latina". O verbo "projetar" aqui tem carga conotativa (figurada), enquanto "planejar" é denotativo (literal).

O comando da questão

A banca pede que se julgue (Certo/Errado) uma afirmação sobre aspectos linguísticos do texto. Especificamente, trata-se de uma questão de significação de vocábulo: o candidato deve comparar o sentido de "projetar" no contexto com o sentido de "planejar". Não se trata de compreensão global do texto, mas de semântica contextual — o que exige voltar ao trecho e verificar como o verbo é usado.

O texto e o movimento argumentativo

O segundo parágrafo apresenta a opinião do sociólogo Fabrício Pereira da Silva sobre Darcy Ribeiro. Ele o chama de "figura fascinante" e diz que ele "projetou mais futuros". A palavra "futuros" já indica que não se trata de um plano concreto, mas de possibilidades, cenários — algo que se lança à frente, não que se organiza passo a passo. O próprio sociólogo completa: "ele parece comentar em voz alta as alternativas, utópicas e distópicas, para o Brasil e a América Latina". Ou seja, "projetar" aqui é imaginar futuros possíveis, não planejar no sentido de "elaborar um plano de ação".

A técnica que decide

Em questões de significação de vocábulo, o primeiro passo é voltar ao texto e verificar o contexto imediato da palavra. O segundo é testar a substituição: se trocarmos "projetar" por "planejar", o sentido muda? No trecho, "projetaram mais futuros" não significa "planejaram mais futuros" (o que seria estranho, pois não se planeja um futuro em si, mas se planeja ações para alcançá-lo). Significa "lançaram mais futuros", "vislumbraram mais futuros". A diferença é sutil, mas decisiva: planejar é denotativo (ação concreta de organizar); projetar aqui é conotativo (ação de imaginar, antecipar).

NÃO CAIA NESSA!

A banca explora a polissemia do verbo "projetar". No dicionário, "projetar" pode significar "planejar" (ex.: projetar uma ponte), mas no texto ele é usado com outro sentido — "lançar para o futuro". O candidato que conhece o sentido literal e não confere o contexto cai na armadilha.

PEGA ESSA DICA!

Em questões de sentido de palavra, sempre substitua o vocábulo pelo sinônimo proposto e veja se a frase continua fazendo sentido no contexto. Se a troca gerar estranheza ou mudar o sentido, a alternativa está errada.

Análise da assertiva

Assertiva — ❌ ERRADO

A afirmação de que "o verbo projetar tem o mesmo sentido de planejar" é falsa. No texto, "projetar" é usado em sentido figurado, como se vê na passagem:

"um dos autores latino-americanos que projetaram mais futuros"

A palavra "futuros" (plural) já indica que não se trata de um plano único, mas de múltiplas possibilidades — algo que se lança à frente, não que se organiza em etapas. O sentido de "planejar" (elaborar um plano, organizar ações) não se aplica aqui. O verbo "projetar" está empregado com o sentido de "antecipar, vislumbrar, lançar para o futuro", o que é reforçado pela fala do sociólogo sobre "alternativas, utópicas e distópicas". Portanto, a assertiva está errada.

Conclusão: a banca pede que se julgue a afirmação sobre o sentido de "projetar". Como o verbo é usado em sentido figurado (lançar futuros) e não literal (planejar), a assertiva é ERRADA.

Gabarito: ERRADO

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