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Questão de Português — Pontuação (Ponto, Vírgula, Travessão, Aspas, Parênteses, etc) — CESPE / CEBRASPE 2023

PortuguêsPontuação (Ponto, Vírgula, Travessão, Aspas, Parênteses, etc)
Código
ce396200
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
SERPRO
Ano
2023
Cargo
Ana ( )

Os pais pediram que o menino fosse dormir cedo para que pudesse acordar à hora da passagem do ano. A julgar pela insistência da recomendação, o ano não passaria se ele não se deitasse. O que seria, francamente, um problemão — e para o mundo todo. Se o ano não virasse, tudo o que estava para acontecer a partir da meia-noite bruscamente ficaria retido nas malas, nos pacotes, na escuridão. Por respeito à humanidade, o garoto acatou. Quer dizer, mais ou menos — ficaria na cama de olhos fechados, igual quando brincava de morto, mas dormir mesmo não dormiria. Só estando acordado seria possível devassar de vez o mistério da passagem do ano.


Os adultos mentem muito, sabia. Até mesmo sua mãe, que lhe pede não mentir nunca, inventava histórias quando ele perguntava “como era a cara do ano velho e do ano novo”. Sempre lhe respondiam, com sorrisos enigmáticos que não esclarecem nada, que tudo dependia da sua maneira de olhar. Mas olhar o quê? O ano velho indo embora tal qual um balão, “subindo, perdendo gás, perdendo gás, até acabar muito chocho”? Ou a chegada do novo, que descia de paraquedas na praça General Osório, trazendo uma mochila munida de “talco, escova de dentes e pombas”, para soltar em sinal de paz e alegria? Pouca coisa fazia sentido naquela cabeça de menino.


Confinado em seu quarto, correu para a janela depois do beijo materno de boa noite e ali ficou, vigia do réveillon. Era preciso guardar o céu, pois com certeza “o ano passa no ar”. Mas o que faria, então, tanta gente na rua, tanto carro buzinando, sem ninguém olhando para cima? Já estavam, decerto, acostumados. “É ruim, ficar acostumado: não se vê mais nada, as coisas vão se apagando”, concluiu a criança da crônica de Drummond. Ninguém ia perceber a passagem do ano.


Desiludido, o menino pegou no sono e acordou no chão, apavorado com o estrondo da virada. Foi correndo para a sala, onde os adultos, falando um pouco arrastado, tinham perdido o jeito comum, o jeito diurno. “Ele passou?”, quis saber. Carinhosa, a mãe levou-o de volta para o quarto, encostou o rosto em seu rosto e rogou-lhe que dormisse outra vez. O ano passara sem que ele o visse. Bem que sua mãe tinha alertado: só dependia da maneira de olhar... e ele não acertara com a maneira.


Guilherme Tauil. Para o ano que chega. Internet: < https://cronicabrasileira.org.br> (com adaptações).

Texto

   

Considerando os aspectos linguísticos do texto, julgue o próximo item.


A correção gramatical e a coerência do texto seriam preservadas caso se suprimisse a vírgula empregada logo após o vocábulo “mãe” (segundo período do segundo parágrafo).

  1. CCerto
  2. EErrado
Revelar gabarito e comentário

GabaritoE — Errado

Comentário gerado por IA. É um apoio ao estudo, ancorado em fontes, mas pode conter imprecisões — confira sempre na fonte oficial (lei, súmula, edital e gabarito da banca). Encontrou um erro? Use “Reportar”.

Supressão da vírgula após “mãe” — efeito sobre a correção e a coerência

Gabarito: ERRADO (letra E). A vírgula após “mãe” é obrigatória, pois isola uma oração subordinada adjetiva explicativa — “que lhe pede não mentir nunca”. Sua supressão alteraria o sentido do trecho, transformando a oração em restritiva, e, portanto, não preservaria a correção gramatical nem a coerência do texto, como se lê no segundo parágrafo: “Até mesmo sua mãe, que lhe pede não mentir nunca, inventava histórias...”.

O comando da questão

O item pede que você julgue se a supressão da vírgula após “mãe” manteria a correção gramatical e a coerência. Isso é uma questão de pontuação com efeito de sentido: não basta saber se a vírgula é “permitida” — é preciso verificar se a retirada dela muda a relação entre as ideias. A banca quer que você perceba que a vírgula ali não é decorativa: ela marca uma oração adjetiva explicativa, que traz uma informação adicional sobre a mãe.

O trecho e a função da vírgula

No segundo parágrafo, lemos:

“Até mesmo sua mãe, que lhe pede não mentir nunca, inventava histórias quando ele perguntava ‘como era a cara do ano velho e do ano novo’.”

A oração “que lhe pede não mentir nunca” é uma subordinada adjetiva explicativa: ela acrescenta uma qualidade da mãe (o fato de ela pedir que o menino não minta) sem restringir o sentido de “sua mãe”. Esse tipo de oração exige vírgulas para ser isolada — é um dos casos obrigatórios de vírgula. Se você suprimir a vírgula, a oração passa a ser restritiva, ou seja, passaria a indicar que existe mais de uma mãe e que a que pede para não mentir é apenas uma delas — o que é absurdo no contexto, pois o menino tem uma única mãe.

A regra que decide

A gramática normativa estabelece que orações adjetivas explicativas são isoladas por vírgulas, pois trazem uma informação acessória, que não é essencial para identificar o termo a que se referem. Já as orações adjetivas restritivas não são isoladas por vírgulas, pois restringem o sentido do antecedente, indicando que a informação é essencial para identificar de quem ou do que se fala. Compare:

Tipo

Exemplo

Efeito

Explicativa

“Minha mãe, que é sábia, nunca erra.”

Todas as mães são sábias (informação adicional).

Restritiva

“Minha mãe que é sábia nunca erra.”

Só a mãe sábia nunca erra (restringe).

No texto, a oração “que lhe pede não mentir nunca” é explicativa: ela não serve para distinguir a mãe de outras mães, mas para acrescentar uma característica. Suprimir a vírgula quebra essa função e gera uma leitura restritiva, o que altera o sentido e, portanto, prejudica a coerência.

A pegadinha da banca

A banca explora a tentação de achar que a vírgula é facultativa ou que sua retirada não muda nada. Mas aqui ela é obrigatória e sua supressão muda o sentido. O candidato que não domina a distinção entre explicativa e restritiva tende a marcar “Certo”, achando que a vírgula é apenas um detalhe estilístico.

Oração adjetiva
  • 1Explicativa
    • Isolada por vírgulas
    • Informação adicional
    • Ex.: "Minha mãe, que é sábia, nunca erra."
  • 2Restritiva
    • Sem vírgulas
    • Restringe o sentido
    • Ex.: "Minha mãe que é sábia nunca erra."
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NÃO CAIA NESSA!

A banca quer que você confunda oração adjetiva explicativa com restritiva. A vírgula não é opcional: ela é a marca da explicação. Retirá-la transforma a oração em restritiva, o que é incoerente com o contexto (o menino tem uma única mãe).

PEGA ESSA DICA!

Ao julgar itens sobre supressão de vírgula, pergunte-se: “A oração introduzida por ‘que’ restringe ou explica?”. Se explica, a vírgula é obrigatória; se restringe, é proibida. No texto, “que lhe pede não mentir nunca” explica uma característica da mãe — logo, a vírgula é obrigatória.

Conclusão

A supressão da vírgula após “mãe” não preservaria a correção gramatical nem a coerência, pois transformaria uma oração adjetiva explicativa em restritiva, alterando o sentido do trecho. Portanto, o item está ERRADO.

Gabarito: letra E (ERRADO).

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