Questão de Português — Significação de Vocábulo e Expressões — CESPE / CEBRASPE 2023
Português›Significação de Vocábulo e Expressões
Código
ce396275
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
SESI SP
Ano
2023
Cargo
PEB ( )
Se a origem da linguagem é atravessada por grandes mistérios e ainda está longe de uma convincente abordagem científica (se é que ela será possível um dia, considerando-se a inexistência absoluta de dados), as coisas não são mais fáceis na abordagem de outras faces da linguagem verbal.
Uma observação fria da realidade deixa claro quão difícil é analisar cientificamente qualquer uma das muitas manifestações históricas da linguagem verbal — as diferentes línguas das sociedades humanas. Os linguistas, que são os estudiosos que se dedicam profissionalmente a essa tarefa, sabem disso muito bem porque se deparam continuamente com as inesgotáveis complexidades estruturais e funcionais das línguas.
Para se ter uma ideia dessa complexidade, basta lembrar que qualquer língua é uma realidade estrutural infinita. O número de sons da fala de que se serve uma língua é finito (em torno de três dezenas). O número de suas palavras (ainda que imenso) é finito (calcula-se que uma língua como o português tenha algo em torno de meio milhão de palavras). O número de regras com as quais organizamos os enunciados é também finito (embora não tenhamos ainda ideia clara de sua quantidade).
Apesar disso tudo, o número de enunciados possíveis em uma língua qualquer é infinito, ou seja, a língua é uma organização tal que nos permite fazer uso infinito de meios finitos.
Diante desse quadro, poderíamos supor que, sendo finitos os meios estruturais, bastaria que eles fossem descritos para alcançarmos uma apresentação científica completa de uma língua. No entanto, as coisas não são tão simples assim. Primeiro, porque a língua não se esgota em sua estrutura. Para analisá-la adequadamente, temos de considerar também seu funcionamento social.
Segundo, porque nenhuma língua é uma estrutura homogênea e uniforme. Qualquer língua se multiplica a tal ponto em inúmeras variedades, que muitos chegam a dizer que atrás de um nome — português, por exemplo — se escondem, de fato, muitas “línguas”. Qualquer língua é sempre, portanto, uma realidade plural e heterogênea.
Carlos Alberto Faraco. Linguagem escrita e alfabetização. São Paulo: Contexto, 2012 (com adaptações).
Texto 11A2
No texto 11A2, a expressão “temos de”, exprime a ideia de
Acircunstância.
Bobrigatoriedade.
Cpossessividade.
Dpossibilidade.
Efinalidade.
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GabaritoB — obrigatoriedade.
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A expressão “temos de” e o valor de obrigatoriedade
Gabarito: letra B. A expressão “temos de” exprime obrigatoriedade, pois equivale a “temos que” ou “devemos”, indicando uma necessidade ou dever. No texto, a passagem que confirma esse sentido é: “temos de considerar também seu funcionamento social”, em que o autor afirma que, para analisar adequadamente uma língua, é necessário considerar seu funcionamento social — não uma mera possibilidade, circunstância ou finalidade.
O comando da questão
A questão pede que se identifique a ideia expressa pela locução verbal “temos de”. Isso é uma questão de semântica contextual: não se pergunta o que a expressão significa isoladamente, mas qual valor ela assume no trecho em que aparece. O verbo “ter” é polissêmico — pode indicar posse, obrigação, existência, etc. — e é o contexto que determina qual desses sentidos está em jogo. Portanto, a resolução exige voltar ao texto e verificar como a expressão é empregada.
O texto e a passagem decisiva
O texto discute a complexidade da análise científica das línguas. No 5º parágrafo, o autor apresenta um contraponto: ainda que os meios estruturais sejam finitos, descrevê-los não basta para uma apresentação científica completa. Ele então justifica:
“Primeiro, porque a língua não se esgota em sua estrutura. Para analisá-la adequadamente, temos de considerar também seu funcionamento social.”
Aqui, “temos de” introduz uma condição necessária para a análise adequada: é preciso, é obrigatório considerar o funcionamento social. Não se trata de algo que “pode” ser feito (possibilidade), nem de uma relação de posse (possessividade), nem de uma circunstância ou finalidade. A locução “ter de + infinitivo” é uma das formas de expressar obrigatoriedade ou necessidade, ao lado de “ter que”, “dever” e “haver de”.
A técnica: como distinguir os valores de “ter”
A pegadinha central é a polissemia do verbo “ter”. Veja a diferença:
Expressão
Valor
Exemplo
“ter de/que + infinitivo”
Obrigação, necessidade
“Temos de estudar.”
“ter + substantivo”
Posse
“Tenho um livro.”
“ter + que” (em alguns contextos)
Possibilidade (raro)
“Tenho que ir?” (dúvida)
“ter” + adjunto
Circunstância
“Tenho pressa.”
No texto, “temos de considerar” não expressa posse (“temos algo”), nem circunstância (“temos pressa”), nem finalidade (“temos de... para quê?”). A estrutura “ter de + verbo” é clássica para obrigatoriedade. O contexto reforça: o autor está dizendo que é preciso fazer algo para alcançar um objetivo — uma necessidade lógica e prática.
Análise das alternativas
Alternativa A — ❌ Incorreta
Circunstância é um valor que se liga a adjuntos adverbiais (tempo, lugar, modo, causa, etc.). A expressão “temos de” não introduz nenhuma circunstância; ela introduz uma ação necessária. O texto não diz “temos de considerar” como uma circunstância do considerar, mas como uma exigência para a análise. A alternativa tangencia o sentido, pois confunde o valor semântico da locução com o de um adjunto adverbial.
Alternativa B — ✅ Correta ⟵ GABARITO
Como demonstrado, “temos de” equivale a “devemos” e expressa obrigatoriedade. A passagem “temos de considerar também seu funcionamento social” mostra que o autor impõe essa consideração como necessária para a análise adequada. Não há outra leitura possível no contexto: é um dever, uma exigência.
Alternativa C — ❌ Incorreta
Possessividade seria o valor de “ter” quando indica posse (“temos um carro”). No texto, “temos de” é seguido de verbo no infinitivo (“considerar”), não de um substantivo. A estrutura “ter de + infinitivo” nunca expressa posse. A alternativa confunde o verbo “ter” com seu uso possessivo, ignorando a regência com a preposição “de” e o complemento verbal.
Alternativa D — ❌ Incorreta
Possibilidade seria expressa por “podemos”, “é possível”, “talvez”. O texto não diz que é possível considerar o funcionamento social; diz que é preciso considerá-lo. A troca de “obrigatoriedade” por “possibilidade” inverte o sentido: o autor não está oferecendo uma opção, mas estabelecendo uma condição indispensável. A alternativa contradiz o texto ao suavizar a necessidade expressa.
Alternativa E — ❌ Incorreta
Finalidade seria expressa por “para”, “a fim de”, “com o objetivo de”. A locução “temos de” não introduz uma finalidade; ela introduz uma ação obrigatória. A finalidade, se houvesse, estaria em outra parte da frase (por exemplo: “temos de considerar para analisar adequadamente”). A alternativa confunde a relação de necessidade com a relação de propósito, que são diferentes.
NÃO CAIA NESSA!
A banca explora a polissemia do verbo “ter”. O candidato que decora “ter = posse” marca a letra C; o que pensa em “ter de = possibilidade” marca a D. A chave é reconhecer a estrutura “ter de + infinitivo” como marca de obrigatoriedade e confirmar pelo contexto.
NÃO CAIA NESSA!
Ao encontrar “ter de/que + verbo”, pergunte: “o sujeito é obrigado a fazer isso?”. Se sim, é obrigatoriedade. Não confunda com posse (ter + substantivo) nem com possibilidade (poder).
Gabarito: letra B. A expressão “temos de” exprime obrigatoriedade, como se vê em “temos de considerar também seu funcionamento social”. A questão ensina que o sentido de uma palavra ou expressão só se define no contexto — e que a estrutura “ter de + infinitivo” é uma marca clássica de necessidade.