Questão de Português — Conjunção — CESPE / CEBRASPE 2023
Português›Conjunção
Código
ce396276
Banca
CESPE / CEBRASPE
Órgão
SESI SP
Ano
2023
Cargo
PEB ( )
Deu-se aquilo porque sinhá Vitória não conversou um instante com o menino mais velho. Ele nunca tinha ouvido falar em inferno. Estranhando a linguagem de sinhá Terta, pediu informações. Sinhá Vitória, distraída, aludiu vagamente a certo lugar ruim demais, e como o filho exigisse uma descrição, encolheu os ombros.
O menino foi à sala interrogar o pai, encontrou-o sentado no chão, com as pernas abertas, desenrolando um meio de sola.
— Bota o pé aqui.
A ordem se cumpriu e Fabiano tomou medida da alpercata: deu um traço com a ponta da faca atrás do calcanhar, outro adiante do dedo grande. Riscou em seguida a forma do calçado e bateu palmas:
— Arreda.
O pequeno afastou-se um pouco, mas ficou por ali rondando e timidamente arriscou a pergunta. Não obteve resposta, voltou à cozinha, foi pendurar-se à saia da mãe:
— Como é?
Sinhá Vitória falou em espetos quentes e fogueiras.
— A senhora viu?
Aí sinhá Vitória se zangou, achou-o insolente e aplicou-lhe um cocorote. O menino saiu indignado com a injustiça, atravessou o terreiro, escondeu-se debaixo das catingueiras murchas, à beira da lagoa vazia. (...)
— Inferno, inferno.
Não acreditava que um nome tão bonito servisse para designar coisa ruim. E resolvera discutir com sinhá Vitória. Se ela houvesse dito que tinha ido ao inferno, bem. Sinhá Vitória impunha-se, autoridade visível e poderosa. Se houvesse feito menção de qualquer autoridade invisível e mais poderosa, muito bem. Mas tentara convencê-lo dando-lhe um cocorote, e isto lhe parecia absurdo. Achava as pancadas naturais quando as pessoas grandes se zangavam, pensava até que a zanga delas era a causa única dos cascudos e puxavantes de orelhas. Esta convicção tornava-o desconfiado, fazia-o observar os pais antes de se dirigir a eles.
Graciliano Ramos. Vidas secas. Rio de Janeiro: Record, 2013, p. 21-2.
Texto 11A3
Assinale a opção que apresenta o operador argumentativo que explicita a relação lógica de progressão da narrativa entre os dois períodos do seguinte trecho do texto 11A3: “Se ela houvesse dito que tinha ido ao inferno, bem. Sinhá Vitória impunha-se, autoridade visível e poderosa.”.
Aentretanto
Bse bem que
Cporque
Dnão obstante
Epor conseguinte
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GabaritoC — porque
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Operador argumentativo: relação de causa entre os períodos
Gabarito: letra C. O operador que explicita a relação lógica de progressão entre os dois períodos é porque, pois o segundo período — “Sinhá Vitória impunha-se, autoridade visível e poderosa” — apresenta a causa/explicação da aceitação hipotética expressa no primeiro: se ela tivesse dito que tinha ido ao inferno, o menino aceitaria porque ela era uma autoridade visível e poderosa. As demais opções (entretanto, se bem que, não obstante, por conseguinte) indicam, respectivamente, oposição, concessão, oposição e conclusão — relações que não se estabelecem entre os períodos.
O comando
A questão pede que você identifique o operador argumentativo que explicita a relação lógica entre dois períodos. Isso é uma tarefa de interpretação de relações semânticas: você não precisa apenas reconhecer a classe da conjunção, mas perceber qual sentido o segundo período acrescenta ao primeiro e, então, escolher o conectivo que materializaria esse sentido. O comando não pergunta “qual é a conjunção do trecho”, mas “qual conectivo poderia ligar os dois períodos preservando a relação de progressão”. Portanto, o caminho é: (1) ler os dois períodos, (2) identificar a relação de sentido entre eles, (3) testar cada conectivo.
O texto e a relação entre os períodos
No trecho, o narrador apresenta o raciocínio do menino: ele não acreditava que “inferno” fosse coisa ruim e decidira discutir com a mãe. O primeiro período é uma hipótese: “Se ela houvesse dito que tinha ido ao inferno, bem.” O segundo período justifica por que essa hipótese seria aceitável: “Sinhá Vitória impunha-se, autoridade visível e poderosa.” Ou seja, a autoridade da mãe é a razão pela qual o menino aceitaria a afirmação dela. A relação é de causa/explicação: o segundo período explica o primeiro.
“Se ela houvesse dito que tinha ido ao inferno, bem. Sinhá Vitória impunha-se, autoridade visível e poderosa.”
Aqui, o “bem” indica concordância, e a justificativa vem em seguida: a mãe é uma autoridade. O conectivo que materializa essa relação é porque (causal/explicativo).
A técnica: como testar cada conectivo
Para resolver, você deve substituir mentalmente cada conectivo entre os períodos e verificar se a relação faz sentido. O conectivo correto é aquele que preserva a progressão lógica do texto. Veja:
entretanto (adversativo): indicaria oposição, mas não há oposição entre os períodos.
se bem que (concessivo): indicaria ressalva, mas não há ressalva.
porque (causal/explicativo): indica causa, que é exatamente a relação.
não obstante (adversativo): também indicaria oposição.
por conseguinte (conclusivo): indicaria conclusão, mas o segundo período não é uma conclusão do primeiro.
Análise das alternativas
1Ler os dois períodos
2Identificar a relação de sentido
3Testar cada conectivo
4Escolher o que preserva a progressão
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Alternativa A — ❌ Incorreta
entretanto é uma conjunção adversativa, que indica oposição, quebra de expectativa. Entre os períodos, não há oposição: o segundo não contraria o primeiro, mas o explica. Se usássemos “entretanto”, o sentido seria: “Se ela houvesse dito que tinha ido ao inferno, bem, entretanto Sinhá Vitória impunha-se...” — o que não faz sentido, pois a autoridade da mãe não se opõe à hipótese, mas a justifica.
Alternativa B — ❌ Incorreta
se bem que é uma locução conjuntiva concessiva, que introduz uma ressalva, uma ideia de “apesar de”. No trecho, não há ressalva: o segundo período não atenua o primeiro, mas o fundamenta. Além disso, a concessiva exigiria o verbo no subjuntivo, o que não ocorre.
Alternativa C — ✅ Correta ⟵ GABARITO
porque é uma conjunção causal/explicativa, que introduz a causa ou a explicação do que foi dito. No trecho, o segundo período explica por que o menino aceitaria a hipótese: porque a mãe era uma autoridade. A relação é de causa e consequência: a autoridade da mãe é a causa da aceitação. Portanto, “porque” é o operador que explicita essa relação.
Alternativa D — ❌ Incorreta
não obstante é uma locução conjuntiva adversativa, sinônima de “entretanto”, “porém”. Indica oposição, o que não ocorre entre os períodos. A relação é de causa, não de oposição.
Alternativa E — ❌ Incorreta
por conseguinte é uma locução conjuntiva conclusiva, que indica conclusão ou consequência. No trecho, o segundo período não é uma conclusão do primeiro, mas uma explicação. Se usássemos “por conseguinte”, o sentido seria: “Se ela houvesse dito que tinha ido ao inferno, bem, por conseguinte Sinhá Vitória impunha-se...” — o que não faz sentido, pois a autoridade da mãe não é uma consequência da hipótese.
Conclusão
A relação entre os períodos é de causa/explicação: o segundo período justifica o primeiro. O único conectivo que expressa essa relação é porque. Portanto, a alternativa correta é a letra C.
PEGA ESSA DICA!
Ao identificar a relação entre períodos, pergunte-se: “O segundo período explica, opõe-se, conclui ou restringe o primeiro?”. A resposta aponta o conectivo adequado.